segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Salazarismo - Curiosidade - C/0037

A Carta que sacudiu o Salazarismo
Faz 50 anos que o bispo do Porto enviou o "pró-memória" a Salazar, uma "carta-aberta" que questionava o ditador e as ligações do regime à Igreja.Há 50 anos, um bispo sacudiu o salazarismo e a cumplicidade católica. Um memorando enviado ao ditador apontou mazelas e requereu mudanças. D. António Ferreira Gomes foi para o exílio, mas nada ficou como dantes.Mas já nada era como dantes. Estávamos em 1958, o ano do sismo eleitoral que abalou a ditadura. Na campanha para a Presidência da República, centenas de milhar de pessoas ousaram apoiar nas ruas Humberto Delgado, opositor ao candidato do regime, Américo Thomaz.A resistência ganha uma nova frente. Militantes da Acção Católica (AC) reclamavam mudanças, questionando o Estado Novo e a aliança com a Igreja Católica que o incensava. E o bispo do Porto já incomodava.Voz dissonante na Igreja, com preocupações sociais desde o seu primeiro magistério, em Portalegre (1948) e aprofundado no Porto (1952), D. António Ferreira Gomes era ouvido entre os militantes da AC e os jovens das novas elites e mantinha contactos com católicos progressistas como António Alçada Baptista, Nuno Teotónio Pereira e Francisco Lino Neto e Manuela Silva.A partir de 1956, questiona, em conferências e homílias, a organização corporativa, a falta de liberdade de expressão e de associação, a exploração dos operários e a miséria rural. Salazar suspeita que pretende transformar a AC em partido (democrata cristão) elege-o como inimigo.Na altura das eleições, conferências afastam D. António do país. Salazar não gosta e estende a garra sobre a presa. Envia três senhoras de sua confiança a Barcelona para persuadirem o bispo a vir votar, prometendo-lhe um encontro com o ditador, para discutirem os assuntos que entender.D. António regressa, vota e prepara o encontro. A 13 de Julho de 1958, envia um "pró-memória" a Salazar, com as matérias a abordar. E descobre-lhe o jogo: a deslocação "não poderia deixar de considerar-se propaganda da Situação, visto que, nas condições das duas candidaturas, sem falar sequer na posição ideológica de quem mo pedia, era praticamente voto aberto", escreve.A reunião nunca se realizou. O documento, apesar de confidencial ("A cópia que me enviou era acompanhada de um cartão pessoal no qual pedia absolutamente reserva", conta Manuela Silva) escapou com "fugas" da Presidência do Conselho e descuido no círculo do bispo. Distribuído pelo aparelho fascista, apodando-o de comunista, e pela oposição, que apropriava uma nova voz, mudou muitas consciências. Salazar exigiu a demissão do bispo, ameaçando romper a Concordata; o episcopado isolou-o; e o clero e os católicos situacionistas vilipendiaram-no. Acabou por aceitar a "sugestão" do enviado do Vaticano e do ditador: férias fora do país "para acalmar as coisas". Partiu a 24 de Julho de 1959, mas o regresso foi barrado pela PIDE na fronteira. Reentrou na sua diocese a 5 de Julho de 1969, com a benevolência da sombria "Primavera marcelista".

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