sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Rosacruciando - Código Místico de Vida

ROSACRUCIANDO
Um Código Místico de Vida

Vale a pena acompanhar este relato, para melhor entender o que é o Rosacrucianismo, Instituição Místico-Filosófica Milenar. Um digno trabalho desenvolvido pela Jornalista baiana Andréia Conceição Costa, para obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, no ano 2000.

“Quem sabe encontro a rosa bendita
desabrochando a fúria do querer
saber que posso e devo viver
para ver e para crer
no absoluto e farto sentido da vida”


A Palavra da Autora
Na Faculdade de Comunicação da UFBA, tive noções essenciais do que é o jornalismo, sua função social e ética, sua linguagem, suas técnicas, suas aplicações no dia a dia de uma redação. Conheci todas as etapas pelas quais uma notícia passa até chegar as mãos do leitor, desde a seleção das pautas até a edição final, acompanhada das fotos e da programação visual. Enfim, entendi o que é e como se processa o jornalismo nos seus diversos gêneros e suportes.
Uma disciplina específica, no entanto, me pareceu mais condizente com os meus ideais: Estudo Orientado em Jornalismo, dada pela Professora Rosângela Vieira. A versão bem rudimentar do presente trabalho nasceu ao longo da minha passagem por essa disciplina e, desde já, pensava em desenvolvê-lo como trabalho de conclusão de curso.
Através dessa disciplina, tive a chance de saber que EU PODIA OUSAR no jornalismo - transformar, subverter as técnicas de uso corrente, e experimentar outras. É importantíssimo que se dê andamento à evolução da comunicação jornalística, que não pode ser vista como algo estático, que não pode sofrer mudanças. É preciso ousar, começando a se perguntar: Como eu gostaria fazer jornalismo? Assim, nasceu ROSACRUCIANDO – Um Código Místico de Vida, contendo a forma que eu achei mais prazerosa de elaborar um texto jornalístico.

O MEIO E O TEMA

Para elaborar um trabalho em um semestre letivo, é preciso muita afinidade e gosto pelo assunto escolhido. Por isso optei, sem pestanejar, por algo ligado ao esoterismo. Percorro este caminho há mais de dez anos, lendo livros e participando de debates, seminários, vivências.
Encontrei vários elementos de cunho místico interessantes por seu histórico, mas quase todos sem um quê de novidade, pela forma maciça com que estão sendo divulgados atualmente. Temas milenares como o poder dos cristais, das runas, do tarô, dos anjos, das fadas, das bruxas e dos duendes freqüentam hoje os diversos meios de comunicação, como um vulcão que, anteriormente adormecido, de repente entra em erupção, para nos auxiliar no limiar na nova era, do próximo século, do futuro milênio.

Uma vertente que se apresentou não tão popular e amplamente camuflada de mistérios foi a das Sociedades Secretas. O que veio ao encontro de um gosto profundo que tenho de entrar em contato com o que chamo de comunidades guetizadas, formadas por grupos fechados e com um singular modo de vida. A sensação é a de estar em uma grande aventura. Há mistura de euforia, curiosidade e imenso prazer por entrar em um novo mundo.

Outrossim, foi preciso escolher apenas uma dentre essas variadas comunidades. Delimitações são necessárias para o bom andamento do trabalho. A Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis recebeu a preferência por ser tradicionalmente a mais antiga do mundo; ter grande quantidade de filiais em todos os continentes – 266 só na jurisdição de língua portuguesa (Brasil, Portugal e Angola); pelo respeito e prestígio que lhe são atribuídos pelas outras organizações místico-iniciáticas; por aparentar seriedade em seus propósitos e, principalmente, pelo mistério que há milênios cercam seus ensinamentos.

A Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis, AMORC, organização apolítica, de caráter educacional, cultural e fraternal, desenvolve um trabalho de pesquisa, estudos e difusão das Leis de Deus e da Natureza, que visa proporcionar aos seus estudantes um caminho prático de evolução e realização pessoal: o domínio da vida, por meio de teorias e práticas de tradição milenar e inacessíveis aos que não são iniciados nessa senda. Francis Bacon, Pitágoras, John Dalton, Isaac Newton Jacob Boehme, Benjamin Franklin, Loius-Claude de Saint-Martin, Alessandro Cagliostro, Thomas Jefferson, Albert Einstein e o brasileiro Juscelino Kubitschek, foram algumas das célebres personalidades do movimento rosacrucianista, que se espalha pelo mundo há mais de trinta séculos.

ROSACRUCIANDO – Um Código Místico de Vida, trabalho de conclusão do Curso de Comunicação Social da FACOM/UFBA, é uma reportagem que utiliza o meio impresso, o qual eu tenho mais afinidade, para falar sobre os pensamentos e hábitos dos rosacruzes, tendo como âmbito a Bahia, especificamente a Loja Rosacruz Salvador, que foi a primeira filial da Ordem Rosacruz no Estado da Bahia.

O verbo ROSACRUCIANDO, neologismo criado durante a elaboração deste trabalho, circula por duas vertentes: tanto pode ser entendido como TEORIZANDO, como também PRATICANDO os ensinamentos místicos da AMORC.

Ser fiel à idiossincrasias, detalhes, perfis de pessoas e ambientes, requer sensibilidade e técnica. Não aquela técnica esquematizada para aprisionar o sentido a partir e tão-somente da visão do redator. Antes sim, essa reportagem necessita da utilização de uma técnica que permita a humanização do diálogo, onde o entrevistado seja de fato o protagonista da história e o texto, o espelho do seu falar, agir, pensar, e o leitor seja participante e não mais um mero espectador de histórias fragmentadas do cotidiano.

Para tanto, faz-se necessário amparar essa proposta em um gênero de narração que dê vida a um relacionamento entre uma profissional e um modo de fazer jornalismo humanizado. É escolhido, então, o uso da linguagem dialógica interativa, que estabelece um elo forte de ligação entre os interlocutores da reportagem, consideradas as participações ativas dos entrevistados (fontes de informação), do entrevistador (mediador do discurso) e do receptor (enquanto sujeito da interpretação), através, inclusive, do aproveitamento por vezes integral dos discursos das fontes de informação, sob a pretensão de privilegiar a compreensão em detrimento da explicação do fato. (Cremilda Medina, 1986: 27)

RELATO DOS PROCEDIMENTOS

O trabalho está vinculado ao fazer jornalístico, considerando-se que o método utilizado na sua execução orienta-se pelas normas que fundamentam essa atividade: entrevista, trabalho de campo (reportagem), pesquisa, observação, difusão, edição (compreendida a seleção e a organização de pautas das pesquisas e entrevistas).
Pesquisei na Internet –
http://www.amorc.org.br , li alguns livros publicados pela Ordem (Ordem Rosacruz em perguntas e respostas, Manual Rosacruz, A Vida Mística de Jesus e As Doutrinas Secretas de Jesus) e vários números dos periódicos que produzem (O Rosacruz, AMORC-GLP, O Domínio da Vida e AMORC-Cultural).

Dentre vários assuntos interessantes que poderiam servir como o gancho da reportagem, fiquei na dúvida entre duas possibilidades: a) pensamentos e práticas dos rosacruzes mirins (crianças e adolescentes); b) pensamentos e práticas dos rosacruzes adultos. Para decidir, resolvi sondar alguns membros mirins a adultos, fazendo-lhes perguntas sobre a sua vida naquela comunidade de místicos e o que estavam aprendendo nos ensinamentos da Ordem.

No começo, os membros adultos da AMORC foram extremamente reticentes em sua grande maioria. Pareciam estar tão intrinsecamente comprometidos com a questão do sigilo, que não eram muito de falar e muito menos de deixar que os estudantes mirins fossem abordados. Educadamente, limitaram-se a me indicar que procurasse respostas nos livros da Ordem, cujo discurso já teria passado pelo processo de adequação de linguagem e conteúdo para o público em geral.
Com o tempo, foi crescendo uma empatia entre ambas as partes, já que eu tinha demonstrado respeito pelos trabalhos da Ordem, uma certa bagagem de conhecimentos e vivências de cunho místico e também por contar com o apoio de alguns conhecidos meus que eram rosacruzes, os quais, há cinco anos atrás, já tinham me levado para conhecer a Loja Rosacruz Salvador.
Conversando e observado daqui e dali, havia percebido o quanto os rosacruzes respeitavam a palavra dos que ocupavam o topo da hierarquia – Mestre, Mestre-Auxiliar, Artesãos. Foi com a ajuda deles que, foi possível: determinar que o gancho da reportagem fossem os pensamentos e práticas dos rosacruzes adultos; combinar encontros para entrevistas coletivas, sempre aos sábados, quando haveria maior quantidade de membros na Loja; levantar assuntos que poderiam ser abordados nas entrevistas, sem que houvesse uma intervenção muito profunda nos ensinamentos sigilosos.

Foi decidida a realização de entrevistas até mesmo porque é compreensível a inevitabilidade de aceitação da idéia de que “todos os profissionais que tratam de problemas humanos – e, por isso, devem ter contato direto com os indivíduos – lidam fatalmente com a entrevista”
[1]

O texto, por isso, foi construído a partir de depoimentos e entrevistas de 32 membros da Loja Rosacruz Salvador. Desta forma, tentou-se aproximar o discurso do perfil dialógico interativo, intencionando possibilitar a interrelação entre os sujeitos constituintes e constitutivos da reportagem. Para isso, houve o aproveitamento, por vezes integral, dos discursos das fontes de informações. É como afirma Edvaldo Pereira Lima (1993: 85):

“... é bastante habitual o livro-reportagem aproveitar diversas entrevistas ao longo de suas páginas... A entrevista desponta no livro como uma forma de expressão por si, dotada de individualidade, força, tensão, drama, esclarecimento, emoção, razão, beleza. Nasce daí o diálogo possível, o crescimento do contato humano entre entrevistador e entrevistado, que só acontece porque não há a pauta fechada castrando a criatividade. Em muitas ocasiões, surge o painel de multivozes e o repórter, o autor, é apenas um sutil maestro que costura os depoimentos, interliga visões de mundo com tal talento que parece natural tal arranjo, como se surgisse ali espontaneamente, perfeito. Nessas ocasiões, o jornalista-escritor atinge uma situação máxima de excelência no domínio da entrevista: a de tecedor invisível da realidade, que salta, vívida, das páginas para o coração, a mente e todo o aparato perceptivo do leitor.”

É compreensível a probabilidade, nesse trabalho, de efetivação de uma dita inclinação para a utilização de textos mais humanizados por jornalistas que, apesar de cercados no cotidiano profissional por determinações estruturais das empresas de comunicação, aproveitam janelas que se lhes abrem e realizam reportagens que aprofundam temas, em geral, humanísticos ou existencialistas. Jornalistas que diante de pautas de reportagens abrangentes, enxergam a possibilidade de ruptura com o rigor racionalista de teorias ortodoxas que ostentam pirâmides invertidas, leads, sub-leads. Permitem-se o desprendimento do pragmatismo/formalismo técnico e a aproximação da linguagem subjetivada. Descompromissado das amarras que conformam o texto jornalístico nessas fórmulas, o redator se autoriza a expressar sentimentos, emoções, comportamentos, conceitos, valores, histórico de vida dos entrevistados, bem como a caracterização do ambiente para complementação do universo receptivo da mensagem, levando em conta a emissão de mensagem, subjetivada ou submetida ao olhar do entrevistador, a emissão de significados pelo entrevistado e a capacidade interpretativa do receptor.

ANÁLISE DO PRODUTO

Para elaborar esse trabalho sobre a Ordem Rosacruz, foi escolhido o formato de livro-reportagem, que, apesar de baseado em informações de fatos reais coletadas através da técnica de observação participativa e a partir de relatos de membros da Ordem, oferece um leque de experimentações para o modo convencional de se fazer jornalismo.
Não que haja o desejo de contestar infundadamente o formato atual de notícia, de linguagem predominantemente substantiva, que visa garantir o máximo de distanciamento entre quem escreve, quem informa, e o que escreve, o que informa. Em meio a insatisfações e protestos manifestos e latentes, entretanto, ouvem-se brados de ruptura e inovação. Já disse Medina (1986: 16) no Projeto São Paulo de Perfil: “... vive-se a emergência da comunicação e emergente se faz a construção do signo da interação social transformadora”

A insatisfação predominante nos meios acadêmicos em relação ao equacionamento da notícia através de leads, que conformam respostas intocáveis às estáticas perguntas: quem, o quê, quando, onde, como e por quê, é generalizada. Na FACOM/UFBA não é diferente.

A partir desse panorama, está dada a sugestão de uma análise mais conseqüente dessa problemática, já que enxergamos o papel social do jornalista e entendemos o quanto esse profissional pode ser útil à formação e transformação dos valores da sociedade. Provavelmente essa possibilidade pode partir da assunção de um jornalismo crítico, audacioso, independente e comprometido com a realidade coletiva.

Outro fator incentivador na escolha desse produto foi também a possibilidade de detalhamento que o livro-reportagem promove. Como fala Edvaldo Pereira Lima (1993: 16):
“O livro-reportagem cumpre um relevante papel, preenchendo vazios deixados pelo jornal, pela revista, pelas emissoras de rádio, pelos noticiários de televisão. Mais do que isso, avança para o aprofundamento do conhecimento do nosso tempo, eliminando, parcialmente que seja, o aspecto efêmero da mensagem da atualidade praticado pelos canais de cotidianos da informação jornalística.”

Trabalhando com os conceitos de Pereira Lima, o presente livro-reportagem pode ser enquadrado em um gênero híbrido, assim entendido por situar-se em uma zona intermediária entre livro-reportagem-retrato - que visa traçar um retrato do objeto em questão, elucidando, principalmente, seus mecanismos de funcionamento, seus problemas e suas complexidades – e livro-reportagem-ensaio, que “tem como forma a postura de ensaio, o que vale dizer, a presença evidenciada do autor e de suas opiniões sobre o tema, conduzida de tal forma a convencer o leitor a compartilhar do ponto de vista do autor.”

ROSACRUCIANDO
Um Código Místico de Vida

Por trás do muro rosa
Sábado, dia 22 de janeiro de 2000, por volta das duas horas da tarde, cheguei ao fim de linha da Boca do Rio, à procura da Rua Antônio do Amor Divino, e qual não foi a minha surpresa, quando descobri que a tal rua, agora, já recebera outro nome: Rua Boa Ventura Andrade. Encontrando-a, precisava, então, continuar a caminhada, até localizar o prédio da Ordem Rosacruz. Lembrava-me com exatidão que era cercado por um muro de tonalidade não muito comum em relação aos outros. Era um muro cor-de-rosa, que, apesar de pintado com o tom mais suave da cor, destacava-se entre os demais muros do local, justamente por ser o único a ter recebido tal tintura naquela rua Pois bem, não demorou dois minutos para, enfim, avistá-lo. Jamais poderia perder-me, utilizando tão eficaz ponto de referência.
Ultrapassando, pois, os portões do muro rosa, o estacionamento e,... Deus! Não me recordava: o prédio também era rosa. Ah, nesse dia, a cor rosa nunca esteve tão rosa. O rosa estava em tudo. Aliás, minto. Os carros não eram rosa, as plantas também não, muito menos os rosacruzes. Mas podem acreditar, o sorriso deles, ao me verem, parecia um intenso desabrochar de uma rosa. Pude vislumbrar uma recepção agradável. Afinal, era um reencontro.
A Mestre da Loja, Maria Carneiro de Almeida - servidora pública federal, 57 anos, 14 como rosacruz - foi a primeira a dar-me as boas-vindas. Em seguida, vieram a mim os demais membros presentes naquele horário. Eram doze ao todo: quatro mulheres e oito homens. “Normalmente, os estudantes mais antigos na Ordem chegam mais cedo e saem mais tarde que os outros, sem falar na assiduidade exemplar”, observou sorridente e satisfeita a Mestre, ao tempo em que cada um se apresentava e pronunciava a característica saudação rosacruz: Paz Profunda!
Entre rostos já conhecidos por mim e outros não, pude sentir o desejo mútuo de estarmos juntos e trocarmos idéias. A curiosidade pairava recíproca e contínua. Eu apenas queria sabê-los como místicos e, por que não, também, como pessoas comuns que deviam ser. Seriam capazes de falar sobre isso sem muitas reservas?
Nem todos. Eu já tinha ouvido em outros momentos, respostas mais que evasivas: “Não sei se posso dizer”; É delicado explicar”; “Desculpe-me, esse assunto é sigiloso”; Pergunte a fulano de tal”. Não vai ser fácil. Entretanto, algo parecia dizer-me que agora eu tinha encontrado as pessoas certas, que poderiam melhor relatar sobre os princípios da AMORC. Ah! As paredes do interior do prédio também eram cor-de-rosa.
Como eu e a Mestre tínhamos combinado, por telefone, que haveríamos de ter, neste primeiro encontro, mais uma “conversa entre amigos” do que propriamente as delongas de uma grande entrevista em grupo. Era preciso que conhecessem melhor o trabalho que eu estava querendo desenvolver com eles.
Fomos todos, então, para a Antecâmara do Templo, local pequeno e aconchegante, em que os postulantes são preparados para os rituais de Iniciação. Nessas ocasiões, este recinto fica sob a responsabilidade de um rosacruz sob o cargo de oficial Guardião do Templo, de modo que ninguém pode nele penetrar sem a sua permissão, exceto se autorizado pelo Mestre, para outros fins como estudo, trabalho e meditação que não sejam privativos. A reportagem foi enquadrada como uma atividade deste tipo.
Como não poderiam deixar de faltar, motivos egípcios que tomavam as paredes de fundo rosa, velas e incenso, que se encontravam dispostos em uma mesinha, pareciam tornar o ambiente mais propício à manifestação sublimada do ideal místico rosacruz. Havia também bancos de madeira distribuídos nos quatro lados, formando uma figura retangular. Antes de sentarmos nos referidos bancos, a Mestre envida uma prece rogando bons fluidos às hostes cósmicas: “Deus do nosso coração, Deus de nossa compreensão, concedei-nos a inspiração necessária para que consigamos êxito no trabalho que iremos realizar agora, através da purificação de nossos pensamentos, palavras e atos. Assim seja!” E todos respondem em uníssono: “Assim seja!”
Sentamos. Depois de fazer um discurso de dez minutos sobre projeto desta reportagem, com os olhos e o gravador sempre a postos, mal sabia eu que aquele encontro seria o primeiro de vários outros, onde eu documentaria alguns comportamentos e pensamentos diferentes do comum e, por vezes, fascinantes para qualquer leigo.
Para começar a captar declarações, não contive a vontade mais do que óbvia de lhes perguntar o porquê da predominância da cor rosa naquele lugar. Será que tinha algo a ver com o termo rosacruz ?
Olharam-se uns aos outros e começaram a sorrir. A Mestre, então, responde também sorridente:
“É apenas uma bela coincidência, ou, talvez, uma inspiração divina recebida pelos fundadores desse prédio. Afinal, misticamente, a cor rosa representa o amor. Então, pode-se dizer que, queiramos ou não, aqui dentro estamos verdadeiramente unidos e cercados pelo amor universal. O fato é que cada prédio da Ordem recebe a cor escolhida por seus membros. Mas, falando sobre a palavra rosacruz, temos duas das mais importantes insígnias na nossa Ordem: a rosa e a cruz. Rosa, no caso, não tem a ver com a cor e sim com a flor”.
Apontando para a cruz cultuada pelos rosacruzes, que estava fixada na parede, Cristina Lyris de Miranda, servidora pública estadual, 41 anos, 25 na AMORC, completa a fala da Mestre:
“A cruz é dourada (flamejante) com a s extremidades em forma de trevo, que tem em seu centro uma pequena rosa vermelho-rubi (cor do espírito) entreaberta. Como tudo na vida nós rosacruzes consideramos dual, ou seja, com duas faces – positiva e negativa, material e espiritual -, temos dois significados para este símbolo. O significado exotérico (material), onde a cruz é o corpo físico do homem, com os braços abertos, voltados para a luz; e a rosa, parcialmente desabrochada, representa a consciência do ser humano em evolução, à medida que recebe a Luz Maior. Já no significado esotérico (espiritual), a cruz simboliza as vicissitudes da vida humana no mundo; e a rosa, a evolução do ser humano mediantes essas vicissitudes. Quer dizer, olhando para este precioso símbolo, podemos nos lembrar sempre do grande ideal de desenvolvimento da natureza humana, perpetuado há séculos por nossa amada Ordem. A AMORC é uma espécie de escola de misticismo, onde aprendemos a conduzir nossa própria evolução”.
Perguntei-lhes, então, como eram dados esses ensinamentos. Prontamente, respondeu Niltro Orlando Rios, aposentado da Petrobrás, 61 anos, 27 de rosacruz:
“O programa de ensino da AMORC é basicamente por correspondência. Os ensinamentos são fornecidos sob a forma de monografias com 26 páginas, remetidas cada uma em lotes trimestrais pelo correio, para a casa dos membros, que devem estudá-las e praticar os exercícios místicos nelas contidos, em seu SANCTUM, oratório rosacruz do lar. Passa-se por várias graduações. Os iniciantes passam por três níveis preliminares intitulados Seções de Neófito. Depois de mais ou menos um ano estudando e praticando os ensinamentos para Neófitos, estão preparados psiquicamente para, então, iniciar sua jornada nos 12 Graus de Templo. De uns tempos para cá, as monografias ficaram menores, mais objetivas. Antigamente, você passava cerca de 20 anos para chegar ao décimo segundo grau. Hoje em dia, é possível realizá-los em apenas 14. E, para cada Grau e Seção, existe um Mestre de Classe que, atuando na sede da AMORC em Curitiba, realiza o acompanhamento dos estudantes, que podem debater ou tirar suas dúvidas, ou via correio normal, ou e-mail. Só que, mais do que estudar em casa, é necessário que os estudantes freqüentem as filiais da Ordem, para participarem das convocações ritualísticas, fazerem suas Iniciações em cada grau e estarem presente nos fóruns que nós fazemos para discutirmos o que não ficou claro nas monografias. Além disso, é preciso combater o egoísmo, fazendo com que as energias desenvolvidas e os conhecimentos adquiridos sejam compartilhados entre os outros membros e colocados em prática nas atividades de ajuda à humanidade, começando pela comunidade local”.
Que atividades são desenvolvidas para ajuda à humanidade ou à comunidade local? Quem respondeu foi a funcionária pública estadual aposentada, Lindaura Lima Costa, 54 anos, 14 na AMORC:
”Destinado a qualquer pessoa, rosacruz ou não, para tratamento de saúde e resolução de problemas pessoais, temos o Auxílio Metafísico à distância, realizado pela Comissão de Conforto de cada filial da Ordem, e/ou pelo Conselho de Sólace localizado na sede. A pessoa entra em contato conosco e nós a ajudamos psiquicamente, através de mentalizações que procuram canalizar as vibrações criativas e curativas do Cósmico de tal forma que atuem no pedinte de maneira mais eficaz do que o normal. É só para indivíduos encarnados. Tem dado ótimos resultados, os quais, naturalmente, não podemos revelar. Além da ajuda à distância, temos inclusive a Comissão de Visitação, que realiza visitas a quem precisa de ajuda, a fim de por em prática os princípios rosacruzes de cura. Os dois trabalhos mencionados não ficam restritos às comissões, cada rosacruz pode fazê-los individualmente em seu dia a dia. Colocamos à disposição do público também alguns dos suprimentos exclusivos da AMORC , como as revistas trimestrais ‘O Rosacruz’ e ‘AMORC Cultural’, CDs, muitos livros e cassetes que só podem ser adquiridos nas filiais da Ordem. Outra coisa, quem quiser fazer um retiro místico, temos vários espaços no Brasil: na Bahia, dispomos de um sítio em Mutá; mas o lugar que mais se destaca pela beleza e infra-estrututa é a Morada do Silêncio, situada a 40 KM de Curitiba - no município de Quatro Barras-PR – com 48 apartamentos, um Templo Rosacruz e demais dependências, ocupando 2000 m2, em 52 alqueires de Mata Atlântica. A AMORC apresenta, ainda, um programa de leituras e práticas destinado a casais, membros ou não da Ordem, com filhos, que abrange desde à gestação até a idade de cinco anos. Contém orientação à gestante e ao pai, para a educação da criança até aquela idade, seguindo princípios rosacruzes. É notório que as crianças submetidas a esse programa, normalmente, ficam mais ativas que as demais, desenvolvendo-se muito rápido. Agora, com relação, especificamente, à comunidade local que é carente, fazemos sempre doações de cesta básica com alimentos não perecíveis, itens de vestuário, calçados,... principalmente em períodos comemorativos”
Quando nós pensamos em bate-papo, é comum imaginarmos um grupo de pessoas conversando, às vezes tendo um que fala ao mesmo tempo que outro, desvio de atenção e, ainda, interrupções de assuntos (como estou fazendo agora com os caros leitores). Mas, enquanto ouvia a declaração acima, achei interessante o comportamento daqueles rosacruzes: todos permaneciam atentos e em silêncio, enquanto um deles estivesse falando. O silêncio, a disciplina, o respeito ao próximo são características marcantes dos membros dessa Ordem.
Continuando o bate-papo, resolvi perguntar, em seguida, que outros benefícios a Ordem Rosacruz oferece, que não podem ser estendidos ao público em geral. Tâmara Arapiraca, universitária, 22 anos, “rosacruz desde a barriga da mãe”, como ela mesmo diz, toma a palavra:
“Temos a revista bimestral AMORC-GLP, que, além de notícias da AMORC no Brasil e no mundo, traz um espaço onde há a possibilidade de todos os rosacruzes do planeta fazerem quaisquer perguntas sobre a Ordem e o misticismo em geral, que serão respondidas pelo Imperator, Christian Bernard, pelo Grande Mestre da AMORC no Brasil, Charles Vega Parucker, juntamente com outros Grandes Mestres, para serem publicadas na íntegra. As perguntas são pertinentes a qualquer um (Quem é Deus?, Como fazer para eliminar um mau hábito?, Qual a diferença entre místico e metafísico?...), mas, as respostas, só os membros da Ordem têm acesso. Nos é ofertado também uma série de cursos (Magnetismo, Shantala, Musicoterapia, Alegria de viver, Florais de Bach,...); excursões para lugares místicos (Egito, Machu Pichu, Caminho de Santiago, Tibete,...); convenções rosacruzes regionais, nacionais e internacionais; cerimônias não religiosas, feitas de forma mística (Matrimônio, Aposição de Nome – uma espécie de batismo de crianças filhas de pais rosacruzes-, Ritual Fúnebre). Para os membros que atingem a primeira monografia do Primeiro Grau de Templo, é oferecida a possibilidade de também ingressar na Tradicional Ordem Martinista – TOM, um sistema de Misticismo Cristão, lançado oficialmente no Brasil, em outubro de 1986. No entanto, quem almeja desfrutar dos ensinamentos da TOM, ser um martinista, implica-se necessariamente ser um rosacruz. Aqui na Loja Salvador, há rituais tanto rosacruzes, quanto martinistas. A Ordem tem ainda a AMORC infanto-juvenil: é a Ordem Juvenil dos Portadores do Archote. Trata-se de um programa especial para jovens dos seis até os 17 anos, que oferece pequenas monografias, livros, uma revista trimestral (AMORC Juvenil), atividades ritualísticas e recreativas e encontros regionais e nacionais. Aos 17 anos, esses estudantes já podem optar por seguir a Ordem Rosacruz ‘dos adultos’, visto que é a idade mínima para se entrar na Ordem. Só que, tudo isso não se compara aos benefícios que colhemos através dos ensinamentos e práticas das monografias. Tudo o que é ensinado já foi amplamente testado na Universidade Rose Croix, situada na Califórnia, a qual somente rosacruzes já graduados, em qualquer área, podem realizar lá estudos e pesquisas. Em breve, o Brasil também vai ser sede de uma universidade rosacruz e uma rádio. São projetos que estão em rápido andamento”
Bom, nesse último relato, falou-se em termos como Imperator, Grande Mestre e Loja Salvador. Foi preciso uma explicação e quem a deu foi Afonso Costa, servidor público estadual aposentado, 65 anos, 14 na AMORC:
“Existem inúmeros termos utilizados na Ordem, vamos falar apenas os principais. Os rosacruzes de todo o mundo se tratam como Frater e Soror, que quer dizer, respectivamente, irmão e irmã em hebráico. É uma tradição que nos fortalece em união e fraternidade em qualquer lugar da Terra. O Imperator é o mais alto oficial executivo rosacruz, que, juntamente com os Membros do Conselho Supremo, dirige e estabelece os princípios fundamentais da Ordem Rosacruz no mundo, diretamente da sede mundial da AMORC, denominada Suprema Grande Loja, localizada em Quebec (Canadá). A Ordem está dividida mundialmente em ‘jurisdições idiomáticas’ chamadas de Grandes Lojas. Cada uma delas é dirigida por um rosacruz que ocupa o cargo de Grande Mestre e por uma junta de diretores. Os rosacruzes de língua portuguesa são afiliados à Grande Loja da Jurisdição de Língua Portuguesa (GLP), situada no Brasil, em Curitiba-PR. Inclusive, o atual Grande Mestre desta jurisdição, Charles Vega Parucker, através de um programa de expansão da Ordem, planeja para o ano 2000, duplicar o número de membros da jurisdição que dirige: de 30 mil para 60 mil. Para isso, nada de grandes estratégias de marketing. Todos os membros da GLP estão incumbidos, desde 1998, de indicar pelo menos o nome e o endereço de duas pessoas – normalmente parentes, amigos, vizinhos – que estejam efetivamente na busca de conhecimentos e de práticas para uma vida em harmonia com Deus e com a natureza. E, para o desenvolvimento de atividades da Ordem e a confraternização dos membros nas diversas localidades de sua jurisdição, toda Grande Loja pode autorizar a construção de organismos afiliados, como Lojas (mínimo de 50 membros ativos), Capítulos (mínimo de 40 membros) e Pronaoi – latim, singular: Pronaos, que quer dizer vestíbulo de entrada no templo (mínimo de 30 membros). Estamos conversando exatamente na Loja Salvador. Estes corpos afiliados são coordenados, cada um, por um rosacruz sob o cargo de Mestre. Na Bahia, temos nove filiais. Quem se inscreve em uma delas, deve contribuir mensalmente com a quantia de sete reais e cinqüenta centavos, para ajudar a cobrir as despesas operacionais da mesma. Todos os membros chamados para ocupar cargos administrativos ou ritualísticos na Ordem não obtêm retorno financeiro por isso. Eles se comprometem apenas a prestar um serviço altruístico, sem a expectativa de receber alguma recompensa, a não ser sua evolução interior”
Uma Sociedade Secreta ter um programa de expansão de membros pode parecer contraditório para alguns. Em contrapartida, os membros da Ordem Rosacruz defendem a idéia de que expansão, longe da idéia de massificação, é uma das melhores formas de contribuir para a perpetuação dos ensinamentos da AMORC. Pois, sem a entrada de novos membros, a Ordem estaria fadada a extinção.
Com relação aos vocábulos usados na Rosacruz, nenhum dos rosacruzes entrevistados conseguiu explicar o porquê da utilização do termo “Loja” para identificar uma das filiais da AMORC. Apenas deixaram bem claro que o uso de tal palavra, na Ordem, não tem qualquer conotação comercial e nem relação com a Maçonaria.
Bom, logo que acabamos de ouvir a explanação do Frater Afonso Costa, a Mestre olhou para o relógio e avisou que só tínhamos mais 10 minutos de conversa, pois já tinham chegado vários membros e era preciso tomar medidas administrativas e organizar as preparações para os rituais do dia. Fiz, então, uma última pergunta: Como entrar para a Ordem Rosacruz? A própria Mestre respondeu:
“A inclusão na Ordem pode ser individual ou dual (com um parente). Quem estiver voltado para o despertar de suas faculdades interiores e desejar incluir-se na AMORC deverá escrever para o órgão central, em Curitiba-PR ou procurar alguma filial da Ordem em sua região. Feito isso, é fornecido aos interessados um livreto intitulado ‘O Domínio da Vida’, que trará em anexo o formulário de proposta de afiliação. Este requer os dados pessoais, a exposição dos motivos do desejo de inclusão e, por fim, a assinatura do aspirante assumindo o tradicional compromisso de todos os postulantes ou neófitos: ‘Conservarei confidencial toda a literatura rosacruz privativa que me for enviada e me empenharei em seguir seu sistema de orientação para uma vida de maior compreensão’. A proposta deve ser remetida pelo correio junto com um cheque nominal à AMORC, referente à taxa de inscrição (10 reais) e a primeira trimestralidade (35 reais). Isto não significa admissão imediata. A aceitação da proposta depende dos motivos expressos no formulário e das qualificações de caráter dos interessados. Uma comissão examinará o pedido, de maneira formal e rigorosa, como também observará metafisicamente o peticionário por três meses. Caso não seja aceito o pedido, o solicitante receberá seu dinheiro de volta, junto com uma carta fraterna, explicando que ainda não chegara o momento de afiliar-se a AMORC. Vale ressaltar, ainda, que a contribuição financeira dos membros, a cada três meses, é necessária, para que a Ordem mantenha sua estrutura e pague aos funcionários contratados para algumas partes da área administrativa”.

EXERCÍCIO MÍSTICO
Para finalizar, fizeram questão de realizar uma prática mística, que eles chamam de experimento, utilizando como principal instrumento, nada mais, nada menos do que a cor rosa.
Num instante, todos os presentes àquele recinto, ainda sentados, ficaram de olhos fechados, posição ereta, mãos estendidas no colo, palmas para baixo, em absoluto silêncio. Fiz o mesmo. Depois fui saber que era a típica postura de meditação rosacruz. Uma voz feminina, reconhecidamente da Mestre, ecoando devagar e suave, orientou os passos seguintes dessa prática mental:
“Depois de três inspirações profundas, vamos relaxar lentamente todas as partes do corpo, começando pelos pés, até alcançar o topo da cabeça (pausa). Esta técnica resulta da combinação de três elementos: VISUALIZAÇÃO, SENSAÇÃO e um ATO DE VONTADE. Primeiro, criemos uma sensação de amor, de excitação, de afeição nas proximidades do coração. Visualizemos isto como uma aura cor de rosa, brilhante, que emana do coração e circunda o corpo (pausa). Depois, mentalizemos a pessoa, o grupo de pessoas ou a entidade que desejamos beneficiar, auxiliar (pausa). Agora, por uma ato de vontade, transmitamos uma parte de nossa aura, em forma de nuvem rosada, ao objeto de nosso amor; sintamos amor por essa pessoa ou coisa e vejamos a nuvem envolvê-la em uma aura rosada de proteção. É importante não desejar ou prever nenhum resultado particular. A manifestação deve ser deixada a cargo do Cósmico, que sempre expressará na forma mais necessária e mais satisfatória (pausa). Imediatamente após, eliminemos tudo isto de nossa mente como missão cumprida (pausa). Que Assim Seja! Voltemos aos poucos à consciência objetiva, movendo um membro de cada vez. Então, abramos os olhos.”
Um estado de leveza e bem-estar nos acometeu a todos. Por uns minutos, tive a sensação de fazer parte daquela família. Guardadas as devidas proporções, nesse pequeno espaço de tempo, senti realmente que estava rosacruciando junto com os rosacruzes. Uma oportunidade rara.
Soube, em seguida, que o experimento realizado é muito conhecido e praticado por todos os membros da AMORC. De autoria do Frater Joseph J. Weed, foi publicado, pela primeira vez, na revista O Rosacruz de fevereiro de 1967, como parte do artigo denominado A Natureza do Amor.

Falando de Amor
No sábado seguinte, dia 29 de janeiro de 2000, realizamos, no mesmo horário, duas e meia da tarde, o nosso segundo encontro. Desta vez, senti que era preciso discutirmos agora sobre um tema específico. Lembrando-me encantada com o experimento de amor feito no primeiro encontro, nada melhor do que investigar os conceitos rosacruzes para o amor, uma palavra que, embora pequena em tamanho, sempre foi alvo de grandes especulações.
Existem diversas definições para o termo amor, e em todas as filosofias lhe é dado significado tão amplo e abstrato que, após toda uma análise, não conseguimos compreendê-lo completamente.
Segundo o Lama Padma Santem, físico quântico e monge budista, o Budismo considera o amor como uma das Viharas ou Condições Sublimes, sendo as demais a compaixão, a alegria e a equanimidade.
Na doutrina Cristã, encontramos o amor interpretado como uma das noções centrais sobre as quais se assenta a boa conduta, sendo a outra a fé. “No Cristianismo, do amor dependeria o cumprimento da Lei e o único valor moral do dever cristão, isto é, amar a Deus, em primeiro lugar, e em segundo, a toda a humanidade.” (H. Spencer Lwis, 1916: 19).
No cartesianismo, de acordo com as doutrinas propagadas por Descartes, Malebranche e Spinoza, encontramos uma definição mais concreta do amor. A ânsia pelo bem em geral, diz a doutrina cartesiana, pela satisfação absoluta, é um amor divino natural, comum a todos. Desse amor divino nasce o amor que sentimos por nós mesmos e aquele que sentimos pelos outros, os quais representam as inclinações naturais que pertencem a todos os espíritos criados. Pois essas inclinações são os elementos do Amor que está em Deus e que ele, portanto, inspira em todas as suas criaturas.
O rosacrucianismo, entretanto, tem um conceito bastante idealista do amor: O AMOR É A CONSCIENTIZAÇÃO DA IDEALIDADE.
“Analisando esta afirmação, em primeiro lugar, afirma-se que o amor é uma CONSCIENTIZAÇÃO. O amor foi grosseira, mas corretamente, denominado uma emoção. É uma emoção porque é sentido; é uma emoção no sentido fisiológico porque estimula certos centros nervosos e produz certas condições fisiológicas, tanto quanto condições psicológicas. No processo que vai da realidade mental para a realidade fisiológica está envolvida, essencialmente, a diferença entre atualidade e realidade. Assim, em alguns casos, o Amor pode ser uma conscientização sem que resulte num estímulo verdadeiro. Sabemos que amamos; em si mesmo, o amor pressupõe a conscientização de algo; sem essa tomada de consciência ele não é possível. O ato de amar requer a apreciação da conscientização – Mas conscientização do que? Fisiologicamente, a única condição na verdade que se faz consciente é, até certo ponto, proporcional ao grau de conscientização do elemento responsável pelo amor. Portanto, o amor pode apresentar graus de intensidade, profundidade e expressão. Quando a conscientização do amor é extrema, plena, satisfatória, ela produz o máximo de estimulação dos centros nervosos, do mesmo modo que a alegria, a tristeza, o medo, a raiva e outros elementos emocionais. Mas, enquanto todas as outras emoções provocam um efeito de animação, excitamento ou agitação, o amor produz calma, paz, aquietamento dos nervos, uma harmonização que não é produzida por nenhuma outra emoção. Então, o rosacrucianismo afirma que o amor é uma conscientização da... IDEALIDADE ! Eis a chave secreta – idealidade. Nesta palavra vemos aquilo que a doutrina cartesiana quer dizer quando afirma que o amor é uma ânsia pelo bem, pela satisfação absoluta.”
Esta foi a explicação fornecida pela Soror Ana Lúcia Rios, Mestre-Auxiliar da Loja Salvador, pedagoga, 34 anos, 11 de rosacruz.
Refletindo, então, sobre o que a Soror falou, cada um de nós, então, possuiria certos ideais que poderiam estar em estado adormecido em nossa consciência. Esses ideais, esses padrões, modelos absolutamente perfeitos, poderiam ser de nossa própria autoria, construídos através de estudos, análises, experiências e inspirações divinas, ao longo de semanas, meses, anos ou encarnações. Consciente ou inconscientemente, poderíamos aumentar, diminuir, remodelar, aperfeiçoar esses ideais que acreditaríamos infinitos, supremos.
É certo que os ideais podem se referir a um número infinito de condições, experiências, sons, visões, sensações, etc. Na música, nosso ideal, consciente ou não, poderia ser um certo grupo de acorde de notas, um ou dois compassos, uma passagem ou uma ária completa. Na pintura, nosso ideal poderia ser uma certa combinação de cores, ou uma determinada cor em seus diversos tons, ou de certas linhas e curvas em determinada justaposição. No caráter, nosso ideal poderia ter certas características, hábitos e qualidades bem desenvolvidas, enquanto outras seriam eliminadas ou estariam ausentes.
Segundo o rosacrucianismo, é quando entramos em contato, ou nos tornamos conscientes de um dos nossos ideais, que temos a tomada de consciência de nosso ideal e esta conscientização faria surgir ou estimularia a emoção a que chamamos amor, e esta emoção seria dirigida ao ideal e, assim, diríamos que o amamos.
Então, o amor de um homem por uma mulher se deveria à sua conscientização de certos ideais nela ou acerca dela, e ele a amaria não por ela mesma, mas aquelas coisas, nela ou acerca dela, as quais ele estaria amando. Seu desejo de possuí-la seria devido ao seu desejo de possuir, de manter constantemente em seu poder a realização, a materialização de seus ideais. O crescimento do amor de um homem por uma mulher dependeria, igualmente, de conscientizações novas ou continuadas dos ideais conscientizados, ou da descoberta de novos ideais. Inversamente, a diminuição do amor entre um homem e uma mulher seria proporcional à eliminação ou modificação daqueles ideais, antes presentes.
Da mesma maneira, tornando-nos súbita ou gradualmente conscientes dos nossos ideais em uma coisa ou de uma coisa, amaríamos certos tipos de música, literatura, alimentos, conforto, etc.
Portanto, existiria o amor vindo de Deus, nosso amor pela humanidade e, o maior de todos, o amor de Deus por nós.
“A Bíblia nos diz: ‘ No princípio era o Verbo, e o verbo estava com Deus e o Verbo era Deus.’ Contemplando a criação do mundo, podemos julgar que, primeiro, Deus concebeu toda a criação como uma idealidade e, concebendo uma criação ideal, Deus pronunciou o Verbo – o comando – em sua consciência; e formou-se, como parte da criação, o mundo que conhecemos. Então, na concepção de uma criação ideal, houve uma mistura harmoniosa, associação uniforme e unidades matematicamente corretas de muitos ideais. Cada um deles baseou-se em elementos a que Deus amou quando tornados conscientes, e quando a criação se completou. Ele materializou, em unidade, todos os ideais, do maior ao menor. Assim, o universo foi concebido essencialmente do amor, pois em amor, Deus criou o mundo e com amor, ou seja, com consciência do ideal, contemplou Deus toda a criação, desde cada célula polarizada dos oceanos até o corpo humano, criado à sua semelhança, isto é, formado segundo o ideal na consciência de Deus, aquele ideal a que Deus mais amava”, foi o exemplo dado pelo Frater Mário Ferrari, técnico de Segurança Industrial aposentado, 69 anos, 26 na AMORC.

Desse modo, o homem e toda a criação teriam sido concebidos em e do amor, e Deus expressara seu amor em todas as coisas criadas.
O amor, naturalmente, precederia toda criação, uma vez que a mesma seria a materialização de ideais. Isso aconteceria porque o amor ao ideal levaria a uma busca e à realização desse ideal, ou à criação de uma materialização do mesmo.
Nesse sentido, um artista seria inspirado a pintar e pôr numa tela uma maravilhosa imagem. Esta teria sido concebida em amor, pois constituiria uma expressão dos ideais que ele ama; e quando pronta, tornar-se-ia a materialização desses ideais, e seria por isso um resultado do amor.
A chamada inspiração poderia ser atribuída, em qualquer caso, a um estímulo mental resultante da conscientização de um ideal e, uma vez que todos os ideais teriam sua origem nos ideais primordiais do amor de Deus, a inspiração seria, em si mesma, uma expressão do amor de Deus.
Então, podemos dizer que, para os rosacruzes, o amor é o grande incentivo, o grande prazer, a maior energia inspiradora do mundo; e já que o amor deve ter ideais como seus elementos de expressão, o amor é essencialmente bom. Filosofando, dentro da Lógica Aristotélica: o Amor é o Bem, o Bem é Deus, Deus é Amor, Amor é Deus; ou... Deus é Amor, Deus é a Fonte de todo o Bem, logo o Amor é a fonte de toda a bondade, o maior poder em todo o universo.
De acordo com a Soror Tânia Arapiraca, comerciante, 49 anos, 31 na Ordem, “reportando-nos à Bíblia, encontramos essas idéias muito bem expressas no quarto capítulo de João, versículo 1: ‘Meus bem-amados, amemos uns aos outros, pois o Amor é Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama, não conhece a Deus, pois Deus é Amor. Se nos amarmos uns aos outros, Deus habita em nós, e seu Amor é perfeito em nós. Amamos a Deus, porque Ele nos amou primeiro. Se um homem diz que ama a Deus e odeia seu irmão, é um mentiroso; pois quem não ama seu irmão a quem pode ver (conscientizar-se), como pode amar a Deus a quem não pode ver? E esse mandamento recebemos dele: Que todo aquele que ama a Deus ame também seu irmão.’ Esse mandamento é a lei sobre a qual o Ordem Rosae Crucis se fundamenta”, conclui a Soror.
Logo no término desse segundo encontro, quando eu já estava em despedidas, a Mestre Auxiliar da Loja, Ana Lúcia Rios, juntamente com seu pai, Niltro Rios, que já exercera o mestrado em 1998, chamaram-me a uma conversa à parte. Entre manifestações de elogios e gratidão pelo tema rosacrucianismo ter sido escolhido para a reportagem, inesperadamente recebi um precioso convite: passar uma tarde inteira na casa onde moram, no dia seguinte (domingo), ganhando a oportunidade de estar mais próxima do que seria o dia a dia de uma família rosacruz.

Lar Místico Lar
No dia seguinte, então, 30 de janeiro, cheguei ao apartamento da família Rios, localizado no bairro de Brotas. Eram quase duas da tarde. Logo que entrei, senti um aroma delicioso de incenso e nenhum sinal de cristais, bruxas, fadas ou pirâmides pela casa. Eram místicos discretos.
Receberam-me, com sorrisos serenos, o Frater Niltro Rios, a esposa, Yara Rios, e as filhas do casal, as Sorores Ana Lúcia e Vilma Rios. Quase todos rosacruzes – Yara Rios não é - , cada um com uma história para contar a respeito do porquê entraram na AMORC e o que mudou em suas vidas, a partir de então.
O Frater Niltro foi o primeiro a falar:
“Entrei na Ordem porque desejava um encontro comigo mesmo. Havia várias perguntas e eu não encontrava respostas plausíveis para nenhuma delas. Procurava saber quem sou eu, por que estou aqui neste planeta, quem é Deus, em vários lugares - na Igreja Católica, na Batista, no Espiritismo (que me esclareceu um pouco mais), na Maçonaria (que me abriu as portas para as Ciências Ocultas) e, por fim, na Rosacruz, onde, além de encontrar respostas convincentes, passei a ter uma vida mais equilibrada, coerente com as leis divinas, juntamente com uma ampla visão de fraternidade. Outra coisa: por ser da Ordem Rosacruz, freqüentemente sou procurado por pessoas que pedem orientação para amenizar seus dissabores. Então, vou tentar ajudá-las através da prática rosacruz de cura. E, graças ao Cósmico, tenho tido muitas oportunidades de amenizar os sofrimentos de outrem, tanto na parte física, quanto na espiritual”.

Toma a palavra, agora, a Soror Ana Lúcia:
“Bom, antes de me afiliar a AMORC, tinha uma necessidade compulsiva de tudo sobre misticismo e civilização egípcia. Quando parava, sentia um vazio muito grande, tamanha era a sede de responder a indagações a respeito do mundo, da vida, de nossa existência, enfim, do universo. Depois de alguns questionamentos e reflexões, algumas vezes junto com meu pai, cheguei a conclusão de que a AMORC era um canal para que essa busca se concretizasse. Isto é, a busca do conhecimento. E como bem dizem os sábios ‘é da ignorância e só dela que devemos nos libertar’. E, na Rosacruz, a mudança foi grande, não dá para expressar com palavras o meu crescimento pessoal e espiritual. Acredito que o valor maior é a consciência de sabermos que, a cada dia, descobrimos que nada sabemos, mas que muito podemos fazer em prol da humanidade”.

Agora quem responde é a Soror Vilma:
“Eu, a caçula, freqüentava apenas o Espiritismo, como minha mãe faz até hoje. Cheguei a fazer também Tai-chi-chuan e Dança do Ventre. Só depois de quatro anos de casada e no segundo ano de faculdade de Artes Plásticas, foi que eu comecei a me interessar pela AMORC. Tudo foi acontecendo aos poucos. Eu ia lá na Loja Salvador, de vez em quando, ao lado de minha irmã e meu pai, para sentir o ambiente, conversar com os membros, ler alguns livros na biblioteca... Acabei realmente me encantando e resolvi me afiliar. Meu marido não, ele acha que ainda não está preparado. O melhor do começo foi poder trabalhar junto à Ordem Juvenil, incentivando nos meninos o aprendizado dos preceitos rosacruzes através da arte, que é a minha área. Me senti em casa. As mudanças a gente percebe no dia a dia, quando por meio dos ensinamentos e dos vários exercícios de meditação, você melhora mental e fisicamente – meu problema de tireóide melhorou bastante -, você percebe que está com a cabeça mais arejada para enfrentar os problemas, os pensamentos estão mais concatenados, diminui o estresse e você passa a sentir, de verdade, que os outros não são outros, são seus irmãos”.
Yara Rios, a mãe das meninas, não quis falar muito, apenas se diz satisfeita com a sua escolha pelo Espiritismo e também pela harmonia que a Rosacruz traz para a vida de seu marido e de suas filhas. Encurtou a conversa nos trazendo chá de maçã, suco de uva e torradas.
Nesse momento do lanche, eram quase três horas da tarde, percebi que, antes de tocar na comida, faziam um gestual diferente.


ALIMENTANDO-SE
Então disseram-me que, ao iniciar qualquer refeição, todo rosacruz, lava bem as mãos e, depois, coloca as palmas para baixo, por alguns segundos, sobre o prato com o alimento. Então, mentalmente, roga que a bênção de Deus se comunique ao alimento que irá comer, a fim de que seja ele magnetizado com as radiações espirituais de suas mãos e, assim, supra eficazmente as necessidades do organismo. Antes de comer o primeiro bocado, diz mentalmente: “Que todos os que necessitam de alimento comigo partilhem aquilo de que desfruto, e que Deus me faça ver como poderei partilhar com os outros aquilo de que sejam carentes.”
Durante toda a refeição, o rosacruz procura estar consciente do valor espiritual e material do alimento e da bebida.
“Devemos fazer com que ambos agradem à nossa alma como ao nosso corpo, a fim de que seja estabelecida por seu intermédio uma comunhão íntima entre o nosso eu exterior e o nosso eu interior. Devemos pensar igualmente que, associando todos aqueles que têm fome à nossa refeição, a eles levamos um sustento real num outro plano. Tudo está ligado no Cósmico e nossa compaixão nutrirá sua alma de uma energia espiritual que, em certa medida, há de lhes permitir suportar melhor sua falta de alimento terrestre”, explica a Soror Ana Lúcia.
Este método é recomendado a todo rosacruz, mas ninguém é obrigado a segui-lo e, uma vez que se escolha fazê-lo, o que é decerto desejável, é preciso saber ajustá-lo às circunstâncias. O objetivo não é fazer uma grande demonstração às pessoas à volta. De modo que agem sempre discretamente. Como têm o dever de proteger a Ordem, evitando que ela seja exposta a críticas ou julgamentos negativos, podem, quando estão em público, fazer esse breve trabalho místico exclusivamente de maneira mental, por exemplo, visualizando suas mãos por sobre o prato sem que elas realmente estejam lá. O poder do pensamento é considerado real e, em todos os casos, maior do que um ato feito inconscientemente.

ACORDANDO
Começaram, a partir daí, a falar sobre outros hábitos e rituais comuns a todo o rosacruz.
Ao levantar-se, pela manhã, o rosacruz começa o dia com uma prece de agradecimento a Deus pelo retorno da consciência, em virtude das oportunidades que isto oferece para prosseguir em sua missão terrena. Depois, volta-se para o leste geográfico dando três passos à frente. E, no seu âmago interno, diz ou sente: “Saúdo o leste, símbolo da luz, do poder, da sabedoria e da retidão”. Em seguida, inala o ar fresco em sete respirações profundas, exalando lentamente e com a mente concentrada na vitalidade que, então, se propagará para todas as partes do corpo, a fim de despertar seus centros psíquicos. E, antes de tomar café, banha-se e bebe um copo de água fresca.

ADORMECENDO
Ao deitar-se, após efetuar os experimentos psíquicos para a noite – como ir ao Sanctum Celestial, dá graças a Deus pelo dia e seus frutos; roga às Hostes Cósmicas que aceitem seus serviços psíquicos enquanto esteja adormecido; que usem sua consciência como desejem e, se for da vontade de Deus e dos Mestres, que o façam viver mais um dia na Terra; e encerra: “Assim Seja!” Após isso, com pensamentos de amor por todos os seres vivos, e um sentimento de paz e harmonia para todo o universo, fecha os olhos e adormece, visualizando o seu Eu interior na consciência de Deus.

ESTUDANDO
Toda quinta-feira, preferencialmente á noite, quando as inspirações cósmicas são mais bem-vindas, depois de lavar as mãos (purificação externa) e beber um copo de água (purificação interna), vai até o Sanctum do lar. Acende um incenso, senta-se e medita por alguns instantes. “Alfazema, almíscar, âmbar, flor de lótus, jasmim, sândalo... – com vários aromas nobres, o incenso presenteia o ambiente perfumando-o numa entrega silenciosa. Só no silêncio pode ser encontrada a paz. Aquele que aprende a silenciar a mente encontra suas respostas nos intervalos do pensamento. O incenso proporciona meios para elevar os pensamentos”, explica a Soror Vilma.
Em seguida, devidamente concentrado, levanta-se, executa com as mãos um sinal secreto, acende duas velas e torna a sentar-se, desta vez para dar continuidade aos estudos rosacruzes, lendo monografias e fazendo os exercícios nelas contidos.

BAHIA
Aproveitando que o Frater Niltro Rios é um dos membros mais antigos da Loja Salvador, resolvi perguntar agora sobre o surgimento do rosacrucianismo na Bahia, que ocorreu há 31 anos atrás. Calmamente, ele acende um cigarro e começa a contar a história, a qual, para minha surpresa, havia também aguçado a curiosidade dos demais, que chegaram mais perto para ouvir, atenta e pacientemente, uma longa história. Afinal, os membros da AMORC adoram fazer grandes discursos. Eis a característica mais marcante que apresentam.
“Olha, na Bahia, a AMORC teve sua primeira filial aqui mesmo em Salvador, inaugurada no dia 19 de maio de 1969, no bairro da Ribeira, mudando-se, poucos anos depois, permanentemente, para a Boca do Rio. Hoje, a Ordem já conta com dez filiais espalhadas pelo estado. Antes de 1969, alguns rosacruzes, sob a direção do Frater Joel Amorim, que foi encarregado pela AMORC para fundar uma filial na Bahia, puseram-se a trabalhar no sentido de congregar um número suficiente de membros para a concretização desse empreendimento. No início, aqui na Bahia, não foi nada fácil para nós - eu estava junto – nos reunirmos e fazermos nossos rituais, porque não havia lugar. Contamos, a princípio, com a ajuda dos irmãos Maçons, que nos cederam gratuitamente uma das salas da sede da Maçonaria, localizada na Carlos Gomes. Depois, resolvemos alugar uma casa na Barroquinha. Havia dois pavimentos e nós ficávamos na parte de baixo, porque os donos do imóvel moravam em cima. Não chegamos a ficar nem um ano neste local, logo nos mudamos para a Ribeira, ficando em outra casa alugada. Nesta fundamos a primeira filial da AMORC na Bahia, com a denominação de Capítulo Rosacruz Salvador, contendo 40 membros. O primeiro Mestre do Capítulo, escolhido por unanimidade, foi o próprio Joel Amorim. Aí, foi em 26 de setembro de 1976, que o prefeito da época, Clériston Andrade, através de um projeto que não me lembro o nome, doou a nós rosacruzes um terreno na Boca do Rio. Nos mudamos para lá e construímos o Templo. O Capítulo foi elevado à categoria de Loja, pois já tínhamos 50 associados na Ordem. Mas, houve alguns entraves. Além de poucos recursos financeiros, tivemos muitas dificuldades com a vizinhança. O bairro, na época, era bastante carente e o terreno que recebemos era espaço de lazer dos moradores, por isso, muitas vezes, quando acabávamos de levantar um muro, no outro dia estava derrubado. Ainda lembro que o terreno tinha sido doado com a condição de que os membros da Ordem construíssem algo que beneficiasse a comunidade local. Então, como não tínhamos dinheiro, a solução escolhida foi a de doar uma parte da terra para uma escola pública do estado, que está lá até hoje, é a Escola Estadual Georgina Ramos. A partir daí, a convivência com os moradores melhorou. Não de todo. Permanecemos alguns anos à sombra de preconceitos, principalmente vindo dos católicos, que por vezes diziam que os rituais rosacruzes faziam parte de alguma seita demoníaca. Só realmente com o tempo a harmonia se deu entre ambas as partes, através do progresso do bairro e também por meio das campanhas de agasalho, de remédios, de cesta básica, de cesta junina, feitas pelos membros de nossa Loja. A atividade se estende até os dias atuais.

CIGARRO
Enquanto falava, o Frater Niltro deve ter fumado uns três cigarros. E, quando parou suas explicações, já estava se preparando para fumar o quarto. Neste instante, uma de suas filhas, a Soror Ana Lúcia, declarou-se completamente anti-tabagista e, mesmo sob o olhar desconfiado do pai, começou a contar sobre o método rosacruz para parar de fumar:
“Em primeiro lugar, o fumante tem de ter tomado a decisão de não fumar mais, levando em conta todos os inconvenientes ligados ao uso do cigarro. Ele deve, então, segundo a alquimia espiritual, transmutar seu desejo de fumar em um desejo de maior bem-estar e de melhor saúde. Em segundo lugar, deve prosseguir, nos primeiros dias, um regime de onde são excluídos os excitantes e durante o qual ele deve beber grandes quantidades de água entre as refeições. Quando sentir o desejo de fumar, ele pode efetuar o seguinte exercício: inspirar três vezes, profundamente, depois prender a respiração por alguns segundos, o tempo suficiente para dizer mentalmente ‘Absorvo a Força Vital. A vida se expande em todas as minhas células e regenera o meu corpo. Assim seja!’. Em seguida, ele deve beber um copo de água e voltar às suas ocupações. Se o fumante fizer esse exercício, sentirá uma nova energia, um maior vigor e um melhor contato com a natureza. Eu, quando parei de fumar, através desse exercício, comecei a sentir muito melhor os cheiros e o gosto da comida. Tenho mais prazer ao fazer qualquer coisa. É preciso lembrar, inclusive, da importância e da necessidade de preservarmos e respeitarmos nosso templo físico, a fim de que ele responda do modo mais perfeito possível às instruções do Mestre Interior. Para tanto, papai e companhia tabagista limitada, respirar um ar de boa qualidade constitui um triunfo precioso.”
Depois dessa lição de moral de filha para pai, o Frater Niltro só fez balançar a cabeça e dizer: “Um dia eu chego lá”. Todos riram.

Cristo pela Rosacruz
Gostaria de saber agora sobre a visão dos rosacruzes sobre a figura de Jesus Cristo. Sabia, por alto, que a Ordem Rosacruz defende idéias pertinentes sobre a vida de Jesus Cristo, especialmente sobre o período entre o seu nascimento até os doze anos, o que não consta na Bíblia. A Soror Vilma Rios, logo depois da explanação de seu pai, começou a contar alguns pontos cruciais defendidos pela AMORC sobre o assunto acima referido:
“Em primeiro lugar, Maria, José e Jesus não eram judeus na acepção religiosa do termo, mas membros da Fraternidade (mística) dos Essênios, que moravam no país de Israel. No ano 103 a.C., um decreto os obrigou a se sujeitarem à lei mosaica – fazer circuncisão e educar os filhos no respeito à Torah. Isso não os impediu de continuarem fiéis às suas convicções e ritos, embora nunca se opusessem às autoridades judaicas, devido ao seu extremo pacifismo. Talvez seja por isso que os judeus, até hoje, ainda esperam a vinda de um messias entre eles, pois nunca reconheceram Jesus Cristo como tal. Pode ser que, em nenhum momento, o tenham tido como um autêntico judeu, assim como insistem em dizer os rosacruzes. Outro ponto: Jesus e seus pais habitavam na Galiléia e não em Nazaré, pois essa aldeia não existia naquela época. A atual cidade que existe com esse nome data do terceiro século depois da era cristã e está situada num local que era conhecido como “En-Nasira”. Portanto, seria posterior ao nascimento de Jesus. É fato que a Bíblia se refere aos nazarenos, mas esse termo teria sido usado pelo judeus para designar todos que não aderissem totalmente ao judaísmo ou que professavam uma fé diferente da deles. Mais tarde essa palavra teria sido usada para identificar os primeiros cristãos. Mais um detalhe: quando viajaram para Belém, Os pais de Jesus não ficaram sozinhos quando ele nasceu. Muitos membros da Fraternidade Essênia estavam presentes naquela ocasião, de modo que todas as condições foram reunidas para que aquele que se tornaria o Cristo viesse cercado de todos os cuidados. Quarto item: segundo a Igreja Cristã, Jesus teria nascido na noite de 24 para 25 de dezembro, à meia-noite. Não obstante, a Ordem Rosacruz situa seu nascimento em 19 de abril, ao anoitecer. Os dias compreendidos entre 21 e 28 de dezembro corresponderiam ao período em que se dá a maior harmonia entre os ciclos humanos, naturais e universais. Assim, pela escolha do dia 25 de dezembro como a data de nascimento de Jesus, as autoridades cristãs o deificaram desde sua vinda ao mundo e fizeram dele o Filho de Deus. Outro detalhe: Jesus não foi o único Avatar cujo nascimento acontecera por meio de uma virgem e fora marcado pelo surgimento de uma nova estrela. O mesmo teria acontecido quando Krishna, Buda, Confúcio, Sócrates e alguns outros grandes iniciados nasceram. Tem mais: todos os místicos do Egito, de Israel e do Oriente sabiam que um novo Avatar, iria se reencarnar para dar um impulso espiritual sem precedentes à humanidade. Em vista disso, tudo havia sido previsto para que Jesus pudesse ser criado, educado e instruído em função de sua futura missão. Nesse sentido, dos seis aos treze anos de idade, Jesus foi confiado aos mestres essênios do Monte Carmelo, onde aprendeu muitas línguas, especialmente o hebreu e o grego, sendo sua língua natal o aramaico. Ele também recebeu um ensino profundo sobre todos os assuntos que tinham ligação com sua missão. Depois foi para a Índia para ser iniciado não só aos ensinamentos budistas mais esotéricos, como também às diversas corrente da filosofia oriental. Em seguida, ele partiu para a Pérsia, a Assíria e a Grécia. Por causa de sua condição e personalidade excepcionais, foi admitido aos santuários mais secretos e encontrou os maiores eruditos daqueles países. Mas, foi no Egito, na pirâmide de Quéops, que Jesus recebeu sua última iniciação, em que deixou de ser tão-somente um Grande Mestre, para tornar-se verdadeiramente o Cristo, O Avatar da Era de Peixes, o instrumento da vontade divina”.
A Soror Vilma levantou, sem dúvida, questões polêmicas. Parou de repente de falar, como se o prolongamento daquele assunto fosse inoportuno para ser declarado abertamente aos não rosacruzes. E finalizou o tema Jesus dizendo ainda que ele não havia se limitado a iniciar apenas seus doze discípulos à ciência dos mistérios. O círculo de seus alunos compreendia 120 membros e incluía mulheres. Quando encerrou seu ministério público, esse círculo foi dividido em doze grupos de dez, cada um deles sob a autoridade de um dos doze discípulos mais aplicados. “Isso poderia explicar por que o Novo Testamento conseguiu se espalhar tão rapidamente por todo o mundo”, conclui a Soror.
Bom, depois de jantarmos, olhei para o relógio e já passavam da sete da noite. Hora de ir embora. Avisaram-me, antes, que a Loja Rosacruz Salvador iria entrar em recesso devido ao período de carnaval, mas que na terça-feira, dia 1 de fevereiro, haveria atividade à noite. Nesse dia, então resolvi passar por lá, para colher novas declarações, desta vez sobre resultados das práticas de experimentos místicos.

Experiência Mística
É dito por todos os membros que as práticas de cura e harmonização rosacruzes são extremamente eficazes tanto para resolver problemas individuais como de outras pessoas. Poucos são os rosacruzes que comentam sem evasivas sobre o resultado de tais práticas. A maioria se recusa até a contar, porque fica preocupada em não ferir a máxima propagada pela AMORC, que condena tão-somente o alarde indiscriminado dessas experiências.
Membros não tão temerosos citam alguns exemplos. O Químico Jackson Santos, 54 anos, 23 na Ordem, conta que “há dois anos, um Frater (não quis dizer o nome) havia sido roubado no Rio de Janeiro, perdendo inclusive sua carteira com documentos, cartão de crédito e talão de cheques, quando, de volta a Salvador, fez o experimento da criação mental, a técnica é sigilosa, e, depois de cinco dias recuperou tudo.”
Os efeitos dos exercícios místicos da AMORC não atuam apenas na resolução de problemas, mas também no desenvolvimento de faculdades ainda latentes no ser humano, como intuição e telepatia. A Soror Cristina Miranda, conhecida do nosso primeiro encontro, comenta uma experiência ocorrida com ela no dia 7 de dezembro de 1999:
“Nesse dia, quando eu estava conversando com um Frater, de repente, pressenti por meio de sensações física – calafrios – que algo de muito grave estava acontecendo. Ao chegar em casa, encontrei uma vizinha aos prantos na frente do condomínio. Desci do carro para saber do ocorrido e descobri que o filho da vizinha, meu ex-namorado, havia sido seqüestrado em assalto. Levei os parentes da vítima para a delegacia e dei todo o apoio possível, inclusive ao meu ex-namorado que, após ser encontrado, permaneceu em estado de choque. As sensações, físicas ou não, devem ser intuídas para sabermos o que se passa, mas isso só com muito desenvolvimento, através dos exercícios diários da Ordem, principalmente o referente à meditação”.
Mas, o que é realmente uma experiência mística para os rosacruzes? Quem reponde é a Mestre da Loja, também nossa conhecida, Soror Maria Carneiro:
“A experiência mística é apenas a consciência de uma área que está além da extensão normal de nossos sentidos físicos. É uma área na qual os sentidos físicos assumem um lugar secundário e o conhecimento atinge a consciência através do Eu Interior, pois a força da vida dentro de nós se manifesta e surge à nossa consciência. Em suma, é o resultado da comunhão da mente humana com a mente universal. Freqüentemente, pessoas que estudam o misticismo comentam que jamais tiveram a chance de viver uma experiência mística. Para essas pessoas, torna-se uma indagação o porque certos indivíduos vivem tais experiências e outros não as atingem. Do meu ponto de vista, esta é uma conclusão errônea. Posso afirmar que todo ser humano já teve ou terá uma experiência mística, em algum momento da vida, e seria capaz de dizer que normalmente até passa por várias destas experiências. É possível que um materialista ortodoxo, por sua resistência ao conceito de misticismo, não venha a vivenciar tal experiência, embora eu duvide disso. Ainda não analisamos algumas das experiências místicas mais simples. Interpreta-se, errônea e generalizadamente, que cada experiência mística deve ser um fenômeno todo-poderoso, condição que destrói totalmente o indivíduo. Embora tais experiências existam, devemos considerar que elas constituem uma exceção. Assim também, quando um indivíduo não passou por uma experiência avassaladora, sente-se incapaz de relatar o que lhe ocorreu. Uma experiência mística não tem necessariamente que ser acompanhada de raios luminosos e som de sinos. Pode até ser bastante simples, como uma interpretação intuitiva, uma premonição, uma idéia que ajuda a outras pessoas em suas vidas ou em seus trabalhos ou no que quer que estejam planejando fazer, ou seja um ‘insight’. São experiências que estão contidas na palavra mística, em seu sentido estrito, porque estabelecem, mesmo que por minutos ou segundos, uma verdadeira unidade entre a inteligência humana e a inteligência cósmica. Por exemplo, recentemente, ao sintonizar um programa de rádio, de repente, ouvi uma linha melódica que me chamava. Identificar a melodia foi fato sem a menor importância; o significativo é que ela me chamou e me obrigou a parar para escutá-la. Ela disparou o que eu interpretaria de uma experiência mística, pois enquanto a escutava, senti, subitamente, uma sensação de completo relaxamento, de paz, de contentamento geral e estas sensações se aprofundavam, à medida em que a música prosseguia. Embora sem perder a consciência, me pareceu que minha atenção e meus sentidos estavam totalmente voltados para a música que me dominava a consciência naquele instante. Consequentemente, senti-me plenamente desenvolvida, inspirada e com uma sensação de bem-estar geral por ter vivido uma experiência na qual gozei de um estado de UNIDADE.”

As Dificuldades
Estudar e praticar absolutamente todos ensinamentos da AMORC não é lá muito fácil. Há determinados rosacruzes que não conseguem seguir seus estudos e rituais regularmente. Foi então que, depois do período de recesso em que a Loja entrou, devido aos festejos do carnaval, dia 12 de fevereiro de 2000, fui à Loja Salvador conversar com alguns membros a esse respeito dessas dificuldades.
A auxiliar de enfermagem Sueli Costa da Silva, 29 anos, Soror desde maio de 1996, diz que os ensinamentos da AMORC são a forma mais sábia de autoconhecimento, mas, apesar disso, declarou:
“Quando entrei na Ordem, acho que não estava preparada. Ainda hoje tenho dúvidas. É sempre muito estudo e muitos rituais, o que exige tempo disponível, porque algumas coisas são de difícil compreensão e os rituais têm que ter uma seqüência diária. Sem falar nas faculdades que estão sendo despertadas em mim, por conta dos experimentos. Tenho um pouco de medo com relação a isso. Por um período, cheguei até deixar de lado as monografias da Ordem. Mas, depois de certo tempo, em cima de meditação e reflexão, descobri que ainda queria continuar ‘a busca’. Era necessário romper as barreiras. Na minha concepção, a consciência humana precisa ser lapidada, pois está impregnada de bloqueios. Precisamos nos conscientizar cada vez mais da amplitude do universo e que, além da matéria, tem algo muito especial precisando se manifestar. Tenho continuado com os estudos, rituais e experimentos da maneira que eu posso. Sei que a Ordem não nos obriga a nada, mas para alcançar o estado de rosacruz, a disciplina e a persistência são fundamentais. E, com certeza, eu ainda não sou uma rosacruz”, conclui a Sóror.
A falta de estímulo para os estudos da AMORC também acercou a assistente social Arlene Pereira, 40 anos, e o representante comercial Humberto Gomes, 45 anos. O casal tornou-se rosacruz em 1991. No início, somente ela se encantou com os rituais e experimentos da Ordem, sentindo apenas dificuldade na leitura semanal das monografias, por estar muito atarefada profissionalmente:
“Ah, eu comecei a me cansar logo na parte que fala dos filósofos e seus pensamentos. Eu nunca vi tanto filósofo e tanta quantidade de pensamentos! E o pior é que ainda tinham os discípulos que viravam filósofos e que, algumas vezes, até contradiziam os seus mestres. Aí, as coisas começaram a embaralhar na minha cabeça. Eu não podia nem contar com o marido, já que ele não demonstrava interesse efetivo por nada da rosacruz. Ele sempre foi meio devagar (risos). Com o tempo, o desestímulo foi-se aliando aos problemas financeiros, e acabamos por suspender temporariamente as lições e as mensalidades da Ordem, nos tornando, assim, membros inativos. Somente em 1999, em comum acordo, partindo de Humberto a iniciativa – olha que bacana! - conseguimos solicitar a reintegração à afiliação ativa. Acreditamos que chegou o momento”, declarou confiante a Soror.
Já o Frater Paulo de Souza Soares, Engenheiro Químico, 43 anos, apenas três na AMORC, conta que sua vida é um corre-corre, por isso não freqüenta muito as convocações ritualísticas da Loja Rosacruz Salvador e, às vezes, nem lê todas as monografias.
“Eu sou professor de Química no CEFET-BA, estudante de Física na UFBA e Mestrando de Química também pela Universidade Federal da Bahia. Entrei na Rosacruz por indicação de uma amiga muito querida, mas confesso que não estou dando conta de tudo. Mas, não se trata somente de falta de tempo para os estudos da AMORC. Eu sempre fui extremamente materialista, racional ao extremo e sinto grande dificuldade em assimilar conhecimentos de cunho místico. Não consigo estar totalmente aberto ao espiritualismo e nem entender direito os seus paradigmas. Me dizem que isto acontece com todos os que valorizam demais o intelecto, esquecendo-se de que existem outras faculdades que precisam também ser desenvolvidas e, então, a partir daí é que se poderia não apenas entender, mas sentir, experienciar com mais intensidade a verdade das coisas. Bom, isso tudo é muito bonito e até interessante. Mas, está difícil eu chegar até lá. É bem mais fácil trilharem esse caminho os membros que já tiveram uma vivência espiritualista anterior a da rosacruz. É o caso da grande maioria dos rosacruzes”. Termina sua fala o Frater Paulo Soares, que não sabe ainda se continuará na AMORC.
A Ordem está a par de todas essas situações. Sabe que o estudo e a prática de seus ensinamentos acontecem com certas variantes. Nesse sentido, além de deixar disponível um Mestre de Classe para responder a todas as dúvidas, manda sempre para os membros uma série de recados de incentivo nas monografias, revistas e livros rosacruzes: “A persistência nos estudos é fundamental para o seu desenvolvimento continuado”; “Tudo o que decidires fazer, realiza-o imediatamente. Não deixes para a tarde o que puderes realizar pela manhã.”
Por outro lado, as dificuldades em rosacruciar não estão apenas na parte dos estudos, mas parecem surgir também no momento de seguir o modo de vida rosacruz. Há uma grande variedade de normas de conduta rosacruz, que foram extraídas de antigos e modernos manuscritos, nos quais estão estabelecidos certos regulamentos para orientação dos que devotam à concretização do ideal e princípios da Ordem. Chama-se o Código de Vida Rosacruz.

“Realmente, talvez só em alguns dos velhos mosteiros da Índia ou do Tibete poderia alguém viver estritamente conforme todos esses antigos regulamentos. Os rosacruzes do Oriente estão bem mais aptos nesse sentido do que a gente. A realidade ocidental está mais voltada ao materialismo. Mas, para resolver esse problema, a AMORC já tomou as providências necessárias. Resolveram facilitar as coisas para nós ocidentais. Alguns dos antigos regulamentos foram escolhidos só para servir aos membros do Ocidente, por não interferirem nas obrigações essenciais da vida contemporânea. O Código de Vida Rosacruz para os ocidentais contém 28 capítulos, que, à primeira vista, é notória a semelhança com os Dez Mandamentos misturados ao livro do Provérbios da Bíblia e aos ensinamentos de Jesus, principalmente o Sermão da Montanha. Então, acredito que boa parte dos estudantes deste lado do mundo vem seguindo o Código de Vida Rosacruz com fidelidade.” É o que nos conta a Soror Lucila Lion, Psicóloga, 52 anos, 23 de rosacruz.

Em Busca do Despertar
No dia 19 de fevereiro de 2000, realizamos o nosso terceiro encontro, na Antecâmara do Templo. Depois de ficar sabendo, pelas declarações anteriores, que não é tão fácil rosacruciar, estava na hora de perguntar aos membros da AMORC para que se sujeitavam a tantas coisas e o que exatamente queriam dentro da senda rosacruz.
Muitos já perguntaram qual é a vantagem pessoal ou para a humanidade em geral, que se obtém da dedicação ao estudo do misticismo e da tentativa de compreender os mistérios da vida. Certamente, tais pessoas devem ter em mente resultados concretos como os que resultam do estudo das leis, da arte, da música, da engenharia, ou de outros assuntos práticos.
Ao olhar para o assunto de maneira superficial, é provável que imaginem se o tempo e o esforço investidos no estudo árduo do misticismo e seus assuntos correlatos, trarão resultados para o indivíduo e/ou para o avanço da civilização.

“Essa comparação não é justa. Em um dos casos, o estudante está buscando o seu desenvolvimento espiritual e cultural e o de outras pessoas; no outro, está buscando aplicar suas habilidades de maneira prática para ampliar o desenvolvimento de sua existência terrena. Quer dizer, no primeiro caso, o estudante descobre relaxamento, inspiração pessoal e prazer nos estudos; enquanto no outro caso, freqüentemente sacrifica prazeres e interesses pessoais ao preparar um caminho para uma posição bem mais sucedida na vida. O fato é que muitos estudantes do primeiro caso também são estudantes do segundo, provando, assim que uma comparação é impossível, se a gente considerar que os estudantes de misticismo são diferentes e fazem parte de uma classe distinta: a daqueles que buscam o conhecimento. Quanto mais propensão a pessoa tiver para o estudo de qualquer assunto, tanto mais propensão ela vai ter para sondar os mistérios da vida e compreender a si mesmo e a sua relação com o universo”, analisa a professora da Faculdade de Educação da UFBA, Soror Cemíbelis Lisboa, 40 anos, 16 de rosacruz.
Segundo os membros da AMORC, quem, por exemplo, estuda química ou física seria facilmente intrigado pelos mistérios do ser ou pelos seus talentos e suas habilidades escondidas. Ou ainda, aquele que tem como passatempo o estudo da astronomia, estaria pronto para o estudo da cosmogonia e talvez da ontologia e da biologia. Estes estudos levariam naturalmente à psicologia; e a combinação traria o estudante tão próximo dos ensinamentos rosacruzes que responderia imediatamente ao contato.
Seria mais difícil, então, gerar interesse pela busca de novos conhecimentos naquele que não é estudante e nem é inclinado para o estudo. A mente inativa, que não exercita, não encontraria inspiração nem qualquer prazer pessoal no estudo do misticismo e na análise dos poderes físicos e espirituais.

“Infelizmente para o mundo, existem inúmeras pessoas que adotam uma atitude de que a vida é um mistério que não pode ser desvendado. Que existem fatos a respeito do homem e de suas capacidades, que Deus não desejava que compreendesse. Muitas dessas pessoas estão satisfeitas em sua posição na vida; no entanto, essa não é a verdadeira razão para a sua indiferença. Essas pessoas estão ansiosas por adquirir qualquer coisa na vida que possa ser obtido sem esforço; mas não têm entusiasmo para aquilo que não oferece benefícios materiais imediatos para sua existência mundana”, desabafa a auditora fiscal aposentada, Soror Maria de Lourdes Costa, 67 anos, 13 na Ordem.

DESPERTAR PLENO
Entretanto, a pessoa voltada para o estudo do misticismo não seria necessariamente um fanático ou um avatar. De modo geral, haveria de ser um indivíduo, com defeitos e virtudes, inclinado ao despertar de suas faculdades mentais, consciente de que só conseguirá aproveitar o máximo de sua vida se conhecer o máximo sobre ela. Não precisaria de grande esforço para ser convencido de que é o capitão do seu navio e o criador do seu próprio destino.
O indivíduo ainda poderia ter uma certa insegurança a respeito desses fatos, mas estaria certo de que um conhecimento mais abrangente e uma compreensão mais íntima de suas habilidades pessoais podem afetar o curso de sua existência. Mesmo que estude exclusivamente para obter um relaxamento, um estudante assim acreditaria que existe uma recompensa mais valiosa do que qualquer tipo de lazer.
O nosso já conhecido Frater Niltro Orlando Rios - que cedeu gentilmente a atenção de sua família, em sua casa, para nos contar um pouco sobre o dia a dia dos rosacruzes -, lembra quando Woodrow Wilson, 28o presidente dos EUA, admitiu rindo, numa certa ocasião, que sistematicamente lia contos policiais e desafiou homens de negócios e políticos conhecidos que negassem que ocasionalmente se permitiam esse tipo de lazer. O presidente teria acrescentado ainda que, através de um prazer tão simples, percebia suas faculdades mentais desafiadas e vivificadas.
“Obter esse mesmo grau de fascinação pelo estudo do misticismo é possível. Aproximar-se de qualquer manifestação da Lei Cósmica sem sentir o desafio do mistério, de uma pergunta não respondida, de uma pedacinho de sabedoria inspiradora, é impossível”, defende o Frater Niltro Orlando, que nos convida, em seguida, para um instante de reflexão: “imaginemo-nos, cada um, estando num ‘deck’ superior de um navio transatlântico, numa noite escura e límpida, olhando para o céu. Inconscientes do limite entre o céu e o oceano, divaguemos no espaço estrelado, azul escuro, tentando vislumbrar qual o mistério por trás dos agrupamentos de estrelas e qual o seu propósito no esquema das coisas. Ninguém com uma mente pensante consegue olhar para o espaço e deixar de ficar perplexo, envolto em especulações. Então, vem o desejo de saber e de buscar respostas. Essa é a atitude com que milhares se aproximam do misticismo e do estudo dos ensinamentos rosacruzes. Qual é o resultado para o indivíduo? Será a obtenção de uma habilidade especial, de um grau de espiritualidade que o fará ser mais devotado? Absolutamente não! Será que esse indivíduo se torna um mestre no campo da religião, um homem santo e sábio liderando e guiando multidões? Não necessariamente! No entanto, algo resulta de seu interesse e de sua devoção que apoia o seu serviço altruístico e a sua disposição de se sacrificar pela sabedoria e por uma melhor compreensão.”
Então, o homem preocupado com um problema insuperável encontraria alívio, paz e capacidade para prosseguir no momento que compreendesse o seu problema. Não seria o problema que causaria o tormento, mas a falta de entendimento dos elementos que o compõem. Seria, nesse sentido, que os chamados mistérios da vida estariam escravizando homens e mulheres.
Por compreender as leis do universo, o místico, portanto, entenderia a verdadeira natureza dos problemas que enfrenta e percebe sua vida, tornando-se um felizardo perante os outros.
Não seria simplesmente porque aprendera formas de lidar com os problemas, mas porque tornara-se tão intimamente familiarizado com a natureza dos mesmos, que suas características desconhecidas não lhe preocupariam mais. Amaria o conhecimento e acreditaria que estaria perdido sem ele. As verdades ocultas seriam atrações magnéticas que ativariam sua mente e disparariam o seu espírito.
Desse modo, o místico encontraria felicidade através do conhecimento e do auxílio que poderia prestar a outras pessoas. Obteria força no fato de que poderia atrair para si aquilo que contribuísse para o seu bem-estar físico, mental e espiritual. Aprenderia a valorizar tudo o que o rodeia com critérios mais elevados. No fato de estar consciente e no privilégio de estar vivo, certamente, acharia uma bênção mais valiosa do que qualquer coisa que jamais tenha encontrado – em cada bocado de alimento, na luz do sol e na chuva, uma recompensa que ninguém a não ser ele poderia perceber. Não os bens materiais, mas a administração das dádivas de Deus lhe pertenceria e aprenderia a usá-las para o seu proveito bem como para o do seu próximo.
Para os rosacruzes, tudo isso é o que poderia fazer o místico feliz e disposto a continuar a investir seu tempo e pensamento nos estudos que têm a finalidade de aproximar o céu da terra e Deus do homem.

O Artesão
No dia 26 de fevereiro de 2000, houve o quarto encontro com os rosacruzes na Antecâmara do Templo, desta vez, com os estudantes mais antigos na Ordem, os chamados Artesãos. São os membros de mais difícil aproximação, mas contando sempre com a ajuda da Mestre, foi possível falar com alguns deles.
Segundo o dicionário, artesão é o artista que exerce uma atividade produtiva de caráter individual. Nesse sentido, é possível vislumbrar o significado desse título dado aos rosacruzes que atingem as primeiras monografias do Décimo Segundo Grau, pois não existe nenhum material da AMORC acessível ao público, que faça referência ao porquê deste título.
Conversando com os Artesãos, todos são unânimes: Artesão é aquele que trabalha. E, com relação ao que se vai trabalhar, cada um apresenta uma resposta pessoal, porém sempre seguindo uma linha filantrópica, desde auxiliar os outros rosacruzes até fazer caridade e orar por toda a humanidade. Enfim, ajudar ao próximo é o principal objetivo do Artesão, seja dentro ou fora da Rosacruz. É fácil de perceber que, nesse estágio, os membros adquirem algo mais que ensinamentos: “A Luz cada vez mais está se projetando no mundo. A AMORC é apenas um caminho. Os rosacruzes podem não atingir a perfeição, mas estão sendo encaminhados”, declara a dona de casa Nildes de Almeida Ferrari, Artesã, 26 anos de rosacruz.
Nas filiais da Ordem existem reuniões e rituais específicos para a classe dos Artesãos, que, segundo o aposentado Mário Ferrari, Artesão, 22 anos de rosacruz, “é o estandarte da Ordem, da turma que vem atrás. Formado por pessoas que persistiram nos estudos rosacruzaes, este grupo sustenta a Ordem em conhecimento”. E complementa dizendo que essa missão é concedida porque, quando se passa do Décimo Segundo Grau, “entra-se num outro plano que não é o físico”.
O químico Jackson dos Santos, Artesão, 23 anos de rosacruz, fala que os membros rosacruzes começam a ser dirigidos para o plano extrafísico desde o Nono Grau, onde seriam dados os primeiros passos para se tornar um Artesão, ou melhor, um verdadeiro rosacruz, que para ele é:
“Um estado de espírito; o despertar do indivíduo para fazer boas obras, perder suas negatividades, trabalhar suas qualidades, chegar ao nível da consciência crística. É como escreveu o nosso atual Imperator, Christian Bernard, em seu livro Assim Seja: ‘Ser Rosacruz é estar na senda. Ser Rosacruz é ter chegado a meta da mesma. Nosso Eu Interior conhece e compreende essa finalidade. Conhecer e compreender é já ter chegado. SEJA ROSACRUZ, então, quer dizer o seguinte – comportemo-nos como já tivéssemos chegado. Isto é uma grande responsabilidade e um desafio, pois se como rosacruzes podemos tropeçar e até cair, cometer erros fundamentais, e assim continuar, como detentores do estado de Rosacruz, não temos essa possibilidade. Ser alguém no estado de Rosacruz é ser um exemplo. Também é ser uma luz tão grande que faça esquecer sombra. Aquele que tem o estado de Rosacruz é antes um rosacruz, mas suas qualidades têm raro grau de intensidade. O detentor do estado de Rosacruz deve ser obediente, confiante, paciente, humilde, simples, tolerante, forte e amoroso. A estas qualidades outras podem ser acrescentadas, pois seu número é infinito em vista do que deve ser a perfeição humana.’ E tudo isso só depende da pessoa, pois a Ordem só orienta”, completa o Frater.
Para esse polimento individual, os Artesãos aconselham aos demais rosacruzes: a disciplina; a meditação; a persistência e a fidelidade aos estudos e aos rituais; a divulgação da AMORC; o serviço aos corpos afiliados e às sua comunidades vizinhas. A partir daí, então, dar-se-ia a manifestação do perdão, do amor ao próximo, do reto viver. À medida em que cada um trabalhasse pelos ditames da Ordem, trabalharia também a sua própria evolução interna.
Como membros mais antigos da AMORC, os Artesãos estariam aí, portanto, para caracterizarem fielmente esse tipo de trabalho, ainda que confessem não estarem isentos de dificuldades.
“A responsabilidade é muito grande. Chegamos a um patamar em que não podemos recuar, porque sabemos demais, ou melhor, aprendemos muito do que o ser humano precisa descobrir sobre si mesmo e o universo. Em meio a isso, fizemos vários juramentos de usar os nossos conhecimentos apenas para o bem da Humanidade. Caso contrário, as conseqüências serão desastrosas para o Planeta e seus habitantes. Sem falar que aquele que o fizer será chamado a juízo, de alguma forma, prestar contas ao poder superior. Procuramos, então, sempre o reto viver. Ainda não somos perfeitos. Podemos errar e sofrer. Mas, qualquer pedra no caminho é bem menor do que a luz no final do túnel, cujos raios sempre nos fortalecem, sem nos deixar esmorecer.” É o que nos explica o nosso já conhecido Frater Artesão Niltro Rios.

Culto ao Sigilo
“Diante do Sagrado Triângulo, prometo, por minha honra, não revelar a qualquer pessoa, exceto um Frater ou uma Soror desta Ordem, que conheça como tal, os sinais, os segredos, ou as palavras que aprenda antes, durante ou após a Iniciação ao Primeiro Grau”, este juramento, feito pelo iniciando ao primeiro grau rosacruz, é válido para todos os graus subseqüentes. Não obstante, cada grau tem seu próprio juramento, no que tange sinais, palavras e símbolos.
As normas de sigilo da AMORC não dizem respeito à sua identidade ou sua localização. Elas estão associadas, sim, a tudo o que transpira em torno das cerimônias de Iniciação: as características, os toques, as palavras-de-passe, as saudações, os sinais de reconhecimento e os ensinamentos aprendidos nas monografias.
“Todas as Ordens Iniciáticas contêm o sigilo, que também serve para preservar o neófito. Ele pode sofrer um grande impacto. Está na escuridão, na ignorância das leis cósmicas. E, para estar preparado, precisa começar paulatinamente, em graus de conhecimento, até atingir a maestria. Não se pode abordar os ensinamentos da Ordem sem preparação (iniciação), fazendo-se abstração da técnica iniciática ou negando sua dimensão extra-intelectual. O fato mesmo de haver uma progressão gradual implica em apoiar-se em bases sólidas. Se é imprescindível que alguém seja admitido ao último ano de medicina sem ter estudado as matérias precedentes, do mesmo modo, o acesso a um maior conhecimento rosacruz implica uma prévia aprendizagem. Acima de tudo, nosso dever é assimilar o conhecimento ‘confidencial’ da Ordem, torná-lo nosso e depois revertê-lo em ação, a serviço e para o bem de todos”, pondera o Frater Afonso Costa, conhecido nosso no primeiro encontro.
O principal objetivo do segredo na AMORC é evitar que aqueles que não pertencem à Ordem Rosacruz (que não foram submetidos a provas, iniciados e instruídos) participem das Convocações, e desfrutem os privilégios a que os membros fazem jus em virtude de compromissos e serviço. Sem falar que, foi através desse culto ao sigilo que os rosacruzes puderam perpetuar os ensinamentos da Ordem até os dias atuais, levando em conta, especialmente, as manobras para escapar das artimanhas do período da Inquisição.
Entretanto, os membros da Ordem não têm a obrigação de manter em segredo todos os princípios que lhe são ensinados. Há casos em que podem achar conveniente, se não absolutamente necessário, explicar à um estranho o funcionamento das leis naturais, caso tal compreensão possa contribuir decisivamente para aliviar um mal-estar ou fazer com que um coração perturbado ou um organismo doentio ganhe saúde, felicidade e paz de espírito.
Mas, o Frater Antônio de Aragão, professor estadual aposentado, 63 anos, 22 na Ordem, avisa:
“Certamente, nenhum membro deverá ver nessa prerrogativa motivo para aplicar os ensinamentos da AMORC, ou mesmo parte deles, como base de um outro sistema, ou escola, e vender essa instrução, publicá-la ou ensiná-la. A Ordem exige discrição. Do contrário, o estudante viola compromissos sagrados, tornando-se passível de nunca mais entrar em contato com as doutrinas místicas e esotéricas provenientes da sabedoria de muitas mentes iluminadas ao longo dos séculos. É nesse sentido que os verdadeiros ensinamentos nunca foram publicados em livros, ou qualquer meio de comunicação de fácil acesso”.

No Quarto Milênio?
21 de março de 2000. O sol entrou no signo de Áries. A AMORC esteve em festa. Foi celebrada com grande honra a entrada do ano 3353 - Ano Novo Rosacruz. Enquanto aguardamos ansiosos a chegada do Terceiro Milênio, eles já comemoram o Quarto, há mais de trezentos anos? Veremos isso mais tarde. Vamos saber um pouco sobre este calendário.
No calendário rosacruz, os anos são contados a partir de 1353 a.C., marco inicial da concepção de Deus Único na História da Humanidade. Surgiu o monoteísmo, pelas mãos do Faraó Amenófis IV ou Akhenaton, Grande Mestre tradicional da Antiga Fraternidade que deu origem ao rosacrucianismo.
Por esse motivo, todos os anos, no mês de fevereiro, os rosacruzes esperam o pronunciamento do Imperator, que é incumbido de proclamar a todas as filiais, por meio de carta, a data exata de se celebrar a festa. Feito isso, a comemoração deve ser realizada nos Templos de todas as Lojas e assistida pelo Grande Conselheiro Regional, pelos Oficiais e membros das respectivas Lojas, e por pessoas não rosacruzes especialmente convidadas ou membros visitantes de outras Lojas.
Fiquei sabendo por uns e outros membros presentes na festa que, dentro do Templo, onde somente os rosacruzes podem entrar, há, então, uma ceia simbólica, que deve consistir principalmente de milho, ou seus derivados; sal, ou algum alimento que seja salgado; e vinho, simbolizado por suco de uva.
Todos os Oficiais deverão usar suas vestes ritualísticas – longas e folgadas túnicas de manga comprida, feitas com tecido de algodão, com cores e pequenos emblemas diferenciados para cada Oficial. Os demais membros colocam somente o Avental Ritualístico. Deve haver somente música erudita, discursos alusivos ao significado da festa e sincero regozijo pelo Ano Novo.
Vamos, agora, à festa do lado de fora do Templo. Ano Novo. Novos Oficiais. Neste dia comemorativo, é comum o Mestre fazer novas designações, preencher vagas e transferir o seu cargo para o novo Mestre. Nesse sentido, a Mestre, até então, Maria Carneiro, fez sua despedida com um discurso emocionado. Em seguida, tomou posse a nova Mestre, Ana Rios, que ocupava anteriormente o cargo de Mestre Auxiliar.
Após os protocolos oficiais da festa, chegou o momento da descontração. Houve uma animada troca de presentes de amigo secreto, bolo, doces, salgados, cesta de mantimentos para distribuir na comunidade local, som de CD e de voz e violão, karaokê, peça teatral e até coral improvisado, entoando músicas do axé ao pop rock. Os místicos também se divertem e muito, mesmo sem ingerir nenhum tipo de bebida alcóolica, pelo menos naquela festa. No dia a dia, os rosacruzes têm total liberdade para ingerir o que quiserem.
Bom, na verdade, o calendário rosacruz é orgulhosamente festejado por uma questão de respeito à tradição. Os membros desta entidade seguem mesmo é o calendário com a contagem de anos cristã, a cultuada em nosso país. Nesse particular, os rosacruzes se encontram tão ansiosos quanto nós em relação à vinda do Terceiro Milênio.
Mas qual a visão da AMORC para o próximo milênio, o terceiro, nos aspectos relativos aos rosacruzes? Não foi fácil encontrar alguém para ser entrevistado nessa festa. Depois de muita insistência, felizmente, quem nos respondeu foi o Grande Conselheiro, Frater Antônio Ripardo Teixeira, membro que representa a Ordem na região Nordeste do Brasil e, na festa, foi um participante prá lá de alegre:
“A AMORC não costuma especular ou fazer prognósticos para o futuro. Devemos sim, trabalhar e viver o agora, visualizando um futuro em que os ideais rosacruzes sejam mais conhecidos, auxiliando os seres humanos a serem melhores e mais harmoniosos com as leis naturais e do universo. Desde os primórdios, a Ordem tem participado na preparação do homem para torná-lo mais apto a enfrentar crenças e idéias errôneas ou falsos tabus. Temos o dever de transmitir mais conhecimentos aos rosacruzes, pois nossa máxima é de que o saber é uma força muito poderosa – ‘Conhecer é poder’. Assim, precisamos saber mais sobre tudo, atuar sempre com todas as faculdades da nossas mentes e sermos mais sensitivos ao mundo vibratório à nossa volta. Somos generalistas pelo anseio do saber e seres emocionais pelo amor sentido ao próximo. O rosacruz é participante de um mundo idealístico, mas com bases firmes e é cooperativo com seus irmãos em suas lutas e aspirações. Como Fraternidade, estamos construindo, passo a passo, condições para uma vida mais bela e harmoniosa. Aglutinados por esses ideais, reduzimos o escuro, levamos mais luz, criamos vida mais intensa, insuflados pela essência do Amor Universal para níveis superiores da consciência. Nossa percepção individual cresce e o homem torna-se melhor, superior sob quaisquer aspectos que o analisemos.
Assim, podemos dizer que a visão da AMORC para o Terceiro Milênio é a que conviveremos com seres mais esplendorosos de vida intensamente harmonizada. “Que sejamos venturosos neste mister e abençoados pelas hostes cósmicas, pela glória de Deus e benefício de todos nós!”, conclui o Grande Conselheiro, que me dispensou educadamente e voltou para a festa. Antes, me apresentou a um membro especial, um senhor alto e de cabelos grisalhos, que estava visitando Salvador: o Frater Zaneli Ramos Barcellos, Chefe da Divisão de Ensino e Cultura da sede da AMORC no Brasil.
Quando ouvi aquele nome, fiquei surpresa. Já tinha lido um de seus livros – O Espírito do Espaço - que são unicamente editados e publicados pela Ordem. Era uma bela chance de entrevistá-lo, pois no outro dia ele voltaria para Curitiba. Foi, então, que lhe falei da reportagem que estava fazendo e, aproveitando o clima de Ano Novo Rosacruz, lhe propus que desse algumas declarações sobre a tão badalada Nova Era.
Folgo em lembrar-me que não precisei insistir muito, pois aquele senhor aparentemente muito sério e calado, apresentou-se muito prestativo. Fomos conversar coincidentemente no mesmo local onde foram realizados meus encontros anteriores com os membros daquela Loja: a Antecâmara do Templo.

Nova Era

É psicologicamente natural e forçoso que um momento de mal-estar suscite o desejo de um momento futuro que traga bem-estar. Isto é particularmente verdadeiro quanto ao forte anseio que a maioria dos seres humanos sente por uma nova era no mundo, sem guerras, assaltos, seqüestros, crises econômicas, corrupção, maldade de qualquer espécie.
Mas de que dependeria essa nova era? Pelo senso comum, numa abordagem imediata, de medidas que venham corrigir distorções ou aberrações sociais, como a pobreza e a competição comercial gananciosa; também do desenvolvimento de um sistema de produção agrícola e industrial cada vez mais avançado e bem regulado e da aplicação rigorosa de uma justiça bem elaborada e eficaz.
Entretanto, do ponto de vista rosacruz, esse tipo de solução atuaria basicamente no comportamento do homem, sendo, portanto, superficial. Seria trabalhada a “fase objetiva” de sua estrutura psíquica com reflexos infrutíferos ou negativos nas fases mais profundas dessa estrutura, dependendo também de mecanismos de disciplinação externa. “Isto conferiria a esse tipo de medida um caráter precário, aflitivo e muito custoso no dispêndio de energia e recursos. Sua aplicação parece mesmo, em muitos casos, realimentar as causas imediatas dos problemas, deixando intocada sua causa fundamental”, opina o Frater Zaneli Ramos Barcellos, ao tempo em que aponta qual seria a solução ideal para que se instaure verdadeiramente uma nova era:
“A solução ideal – independente de qualquer consideração de tempo ou prazo – é necessariamente função de uma Filosofia Mística como base de uma Psicologia Mística, através da qual seja catalisada a evolução natural do ser humano nas fases mais profundas de sua estrutura psíquica. Só assim, poderemos deixar de ser forçados a atuar sobre o comportamento do ser humano – gerador ele próprio da maior parte dos problemas que o afligem – um verdadeiro e persistente círculo vicioso. Alcançando aquela evolução um nível suficientemente elevado, as motivações do ser humano serão intrinsecamente boas – construtivas, positivas, justas e até amorosas – e produzirão impulsos de comportamento correspondentemente bons. Só assim será possível quebrar aquele círculo vicioso (problemas-medidas-problemas) porque, deixando de existirem os problemas causados pelo comportamento egoísta, tornar-se-ão desnecessárias as medidas corretivas e coercitivas”.
A nova era que a maioria de nós almeja, então, não viria por si mesma, por ação unilateral de algum poder cósmico, nem pela genialidade de algum homem que consiga conceber e implementar um plano perfeito de comportamento humano dirigido e controlado fora dos indivíduos. Mas haveria de vir de uma humanidade composta de pessoas “psicologicamente despertas” para a consciência mística de que são do e no Ser Cósmico que seria fonte, sede e essência de TUDO. Tais indivíduos da nova era seriam, em consonância com o misticismo rosacruz, guiados pela luz do Cósmico, que os faria motivados pelo amor do Cósmico, para uma vida que refletiria no Cósmico a glória de Deus.
E isso não deverá acontecer de maneira fantástica e para fins fantásticos, mas de forma pura e simples, para fins puros e simples, no maior valor do misticismo: a relação amorosa entre os seres humanos.
“E aqueles que considerem isto um devaneio romântico e utópico estarão condenando a humanidade a correr eternamente numa esteira rolante sem fim, sem sair do lugar”, brada Zaneli Barcellos, como se aquela frase fosse a provocação necessária para dar um ponto final de legitimação ao seu discurso.
Logo em seguida, envidou um alerta para os místicos e simpatizantes: “O misticismo cujo objetivo seja apenas o de desenvolver as pessoas no uso de faculdades psíquicas superiores, para fins de projeção, premonição, recordação de vidas passadas, poder em suas relações com outras pessoas, com forças e coisas, etc., é nisso muito pobre, por mais egocentricamente deleitoso, fascinante e apaixonante que seja, não pode ser a base daquela idéia de vida melhor da sociedade humana. Essa idéia transformadora pode ser intelectualmente compreendida, mas não tem força. Psicologicamente, é preciso que ela resulte de contemplação, reflexão e meditação místicas, para que tenha a força necessária a levar automaticamente à atitude e ao comportamento correspondentes”.
Dentro do misticismo, para os seres atingirem sua plenitude, o comportamento de cada indivíduo seria moldado de forma sutil, através da prática regular de simples exercícios em que o corpo, a mente e o espírito seriam trabalhados em conjunto até que o homem-comum de hoje torne-se o homem-perfeito de amanhã. “Se cada um de nós fizéssemos quinze minutos de meditação em apenas um dia , este planeta poderia adiantar sua evolução em pelo menos um século”, profetiza Barcellos virando o rosto para a janela, com os olhos fixos para o tempo, como que imaginando que o que dissera poderia dar certo, mas seria tão difícil sua realização ...

Um Templo, Uma Encarnação
No dia 1 de abril de 2000, fui à Loja Rosacruz Salvador no intuito de ficar muito mais observando a movimentação dos membros do que realizar entrevistas. Senti que era necessário captar melhor o sentido da palavra rosacruciar através de uma atenção redobrada sobre o comportamento e as ações dos estudantes dentro de uma filial da Ordem, especialmente em sua entrada no Templo.
Sábado, terça ou quarta-feira, os rosacruzes procuram estar presentes fisicamente em algum corpo afiliado à Ordem, para participarem, servindo ou não, das atividades oferecidas.
“Boa tarde, Frater”, “Boa tarde, Soror”, “Paz Profunda!”, são tratamentos respeitosos entre um membro e outro.
A maioria chega de carro. Todos bem arrumados. Uns mais refinados, outros mais simples. Só não há ninguém de short, bermuda, ou chinelo. Os rosacruzes brasileiros são indivíduos, na maioria, de 18 a 31 anos, universitários, do sexo masculino, casados e pertencentes à classe média alta.
Enquanto as atividades ritualísticas não começam, alguns preferem ficar lendo na biblioteca; os que trabalham no Ritual de Templo correm apressados para os últimos ensaios, para tudo sair perfeito; e a grande parte dos membros fica mesmo conversando uns com os outros principalmente no jardim e na cantina, onde se pode fazer lanches leves com doces, salgados, refrigerantes, cafezinho e chá. Nada de bebidas alcóolicas. Entre uma conversa e outra, pode haver cigarros e alguns palavrões inocentes. Afinal, estar na Ordem Rosacruz não significa ter virado santo.

O RITUAL

Às 17h e 30min, começa o ritual no Templo. Todos em fila. Ao receberem o Avental Ritualístico, entregue pela Oficial Medalhista, os membros o amarram na cintura e seguem em frente. No portal do Templo está o Oficial Guardião Externo, que autoriza a entrada dos membros organizadamente. Para simbolizar a retidão de pensamentos e atos, todos devem andar no templo em linha reta e serenamente. Após um gestual secreto em frente ao Shekinah – vocábulo egípcio usado para designar um altar triangular que representa a presença do poder concentrado da sagrada assembléia do Cósmico, podem sentar-se. Ao norte, estão os Oficiais Guardião Interno (zelador da harmonia) e Cantora (entoadora de sons vocálicos). Ao sul, encontram-se os Oficiais Capelão (representante espiritual de Deus) e Cantor (entoador de sons vocálicos). Ao oeste, localiza-se a Oficial Matre (mãe espiritual dos membros). E, finalmente, ao leste, estão os Oficiais Columba (vestal ritualística, representa a “Luz, Vida e Amor” e a consciência de cada membro) e Mestre (transmissor-mor das radiações de luz e conhecimento aos Fratres e Sorores presentes). Uma música suave de fundo, e tudo está pronto. Começam os experimentos secretos.
Quem forneceu as informações descritas no parágrafo acima foi a atual Mestre da Loja Rosacruz Salvador, Ana Lúcia Rios, que, logo depois da Convocação Ritualística, ainda forneceu a esta reportagem uma bela explanação sobre o significado do Templo para os Rosacruzes:
“Nosso Templo, com suas estações e demais elementos que contém, simboliza o universo. O homem, enquanto microcosmo ou pequeno mundo, também é um símbolo deste mesmo universo. Por isso, pode-se dizer que o Templo é também um símbolo do homem. Nossa Convocação é um drama ritualístico que representa a seqüência de acontecimentos que ocorrem desde o princípio até o fim de uma encarnação. O Capelão é o narrador desse drama; porém até mesmo antes que o Capelão fale, o soar do gongo, indicando o início da Convocação, simboliza as primeiras combinações da essência da energia Espírito nos elétrons. Mais adiante, esses se combinarão para formar a matéria, que é o primeiro ponto necessário para que o Ser possa tomar forma.
Quando o som do gongo silencia, está-se simbolizando a mudança ou a transformação da matéria em outras formas, a qual começa no instante mesmo em que se forma. Esta é a base da técnica que serve para estabelecer a idade dos materiais, baseada na radioatividade do carbono. Toda matéria está continuamente se transformando em outras formas de matéria ou energia.
Em nosso conceito do Templo como representante do corpo do homem, a existência de todas as coisas vivas está simbolizada pela reunião dos Membros, do mesmo modo como as células individuais se combinam umas com as outras para formar o corpo do homem. A entrada dos Oficiais Ritualísticos representa os grupos especializados de células, tais como as dos órgão e dos sentidos. A Columba representa a consciência que, ativada pela Alma, acaba por se desenvolver na magnificência da compreensão do Ser. O aroma do incenso que impregna totalmente a área do Templo representa a Mente Cósmica que está presente em cada uma das células de nosso Ser.
A entrada do Mestre indica a entrada da Alma como o primeiro alento, uma vez que tudo o mais tenha sido preparado. Ao formarmos Loja (um gestual secreto), estamos rendendo homenagem ao mistério da encarnação. A mão esquerda representa a Alma ou Personalidade-Alma que está dentro de um corpo, representado pela mão direita. A Rosa sobre a Cruz no Leste representa o contato entre a matéria e o Cósmico. No livro ‘A Vós Confio’, publicado pela Ordem, pode-se ler: ‘Conhece-te a ti mesmo... é o elo que une o divino à matéria’
Prosseguindo com a Convocação, o Mestre instala-se no local da glândula principal, a pituitária. O atril no Leste está representando a boca e o aparato oral de que se necessita falar. A Urna Vestal é a tireóide. A área da Sanctum representa os pulmões e é aqui que se encontra o mistério dos mistérios. Aqui a Alma entra em contato com o primeiro alento. Aqui é onde a Força Vital vivifica o sangue. Os pulmões proporcionam também o poder de ativar as cordas vocais e a faculdade da fala. A razão de não violarmos o Sanctum (passar por esse local) em nossos Templos é por compreendermos a dualidade desse mistério dos pulmões. Entretanto, a verdadeira violação do Sanctum encontra-se na faculdade da fala. Como disse um Grande Mestre, ‘o que profana não é o que entra na boca do homem, mas o que dela sai’.
Todos os nossos rituais de Convocação contêm uma dualidade. O Cantor e a Cantora demonstram a natureza positiva e negativa de todas as vibrações, à medida em que os sons vocálicos vão penetrando em todos os cantos do Templo. Até o período de meditação é dual: na primeira parte, devemos transmitir ou irradiar (positivo) e, na Segunda, permanecemos passivos ou receptivos (negativo). O que nos lembra determinado princípio cósmico muito profundo: ‘Assim como dermos, receberemos’.
A mensagem do Mestre representa o conhecimento, a evolução que alcançou nosso ser interno, através das experiências e vicissitudes desta encarnação. A saída do Mestre simboliza a separação da alma ao finalizar a utilidade deste ciclo. O apagamento das velas e a saída da Columba significam o cessar do funcionamento de nossos sentidos receptores. A saída dos membros descreve a desintegração do corpo, que regressa novamente às vibrações originais de onde veio.
Em suma, nossos antigos rituais foram planejados para que utilizemos as meditações e contemplações a fim de que cada semana, cada mês, cada ano, surjam em nossa consciência novos conceitos maiores e belos. Este é um dos significados do símbolo da Rosa abrindo-se na Cruz. Se ao assistirmos uma Convocação fôssemos capazes de assimilar por completo todo o significado do drama que ali se representa, já não precisaríamos encarnar novamente.”

Uma Senda Faraônica – I
Como já foi dito no primeiro capítulo dessa reportagem, a Loja Salvador tem suas paredes pintadas com uma série de motivos egípcios. Esta é uma característica comum a qualquer filial da Ordem Rosacruz. Através disso, os rosacruzes querem dizer que a Ordem é um ramo autêntico das Escolas de Mistério do Egito Antigo.
“A palavra mistério, na antigüidade, como no Egito, na Grécia e em Roma, não designava algo misterioso, fantástico ou estranho. Antes, referia-se a uma gnose especial, uma sabedoria secreta. No Egito, foram formados grupos seletos, organizados como escolas, para investigar os mistérios da vida. Por isto, o termo mistério lhes foi aplicado e esses grupos foram denominados Escolas de Mistério. Aquelas Escolas de Mistério, ao longo dos séculos, foram evoluindo para grandes centros de cultura e sabedoria. Foi Tutmés III, ou Thoumosis III (que reinou como Faraó de 1500 a 1447 a.C.), quem organizou a primeira e verdadeira Fraternidade Secreta de Iniciados com normas específicas, semelhantes às que a Ordem Rosacruz perpetua na atualidade. Quase setenta anos depois, o Faraó Amenófis IV, ou Amenhotep IV, nasceu no palácio real de Tebas e, ainda criança, foi iniciado na Fraternidade Secreta. Seu destino foi o de proclamar pela primeira vez na História que havia um só Deus, numa época em que o politeísmo prevalecia no mundo. Séculos mais tarde, filósofos gregos, como Tales e Pitágoras, viajaram para o Egito e foram iniciados nas Escolas de Mistério. Trouxeram depois sua avançada cultura e sabedoria para o mundo ocidental. Estes eventos são os primeiros registros do que posteriormente floresceu na Ordem Rosacruz. O nome da Ordem, pelo qual ela é hoje conhecida, viria bem mais tarde”, relatou o Frater Antônio Justino, contador, 56 anos, 23 como rosacruz; por ocasião do nosso quinto encontro na Antecâmara do Templo, ocorrido em 8 de abril de 2000, para conversarmos sobre a história da Ordem e os assuntos estudados pelos membros.
A história da AMORC pode ser dividida em duas classificações gerais. A história tradicional, que tem raízes nas referidas escolas de mistério do Egito Antigo, chegando ao presente pela tradição oral, apoiada em referências mais ou menos definidas, feitas em escritos antigos ou passagens simbólicas dos rituais ou dos ensinamentos. E a história documental, que se baseia em registros impressos encontrados nos vários ramos da Organização, em todo o mundo.
Pelo histórico tradicional da AMORC, os rosacruzes dizem que, desde aproximadamente 1500 a.C., os egípcios haviam alcançado um elevado grau de civilização e conhecimento avançado, no começo da XVIII Dinastia dos Faraós, apenas comparável ao Renascimento Europeu.
Muitos teriam sido os meios adotados para preservar o conhecimento alcançado, a fim de que ele fosse corretamente transmitido às gerações futuras. As inscrições hieroglíficas nas pirâmides, nos obeliscos e nas paredes dos templos, forneceriam uma prova do desejo primordial dos egípcios de perpetuar o conhecimento e a sabedoria.
Entretanto, os mais profundos segredos da natureza, da ciência e da arte não teriam sido confiados à todas as pessoas, nem puderam ser suscetíveis de preservação por meio de registro em papiros. Assim, os mais sábios organizaram classes, onde compareciam indivíduos selecionados para o aprendizado das doutrinas e princípios científicos. Essas classes, ou escolas, algumas vezes reuniam-se nas grutas mais isoladas, e outras, em alguns dos templos erigidos aos diversos deuses egípcios.
“Falamos das Escolas de Mistérios como se houvesse muitas. O fato é, no entanto, que existia apenas uma, com inúmeros ramos ou lugares de instrução em diferentes partes do território egípcio. Mas os ensinamentos e atividades dessa organização representavam uma universidade com um corpo discente, operando de forma hierárquica com classes e graus sucessivos; por isso o nome escola. Os registros indicam que a sede, o principal centro das escolas de mistério do Egito, foi localizada primeiro na antiga cidade de Filadélfia, depois em Mêmfis, com um ramo num lugar chamado Mizraim, e depois em Tebas e Luxor. Finalmente, a última sede das escolas foi localizada na cidade de Akhenaton, nas margens do Nilo, na área da antiga cidade de Tel-El-Amarna Esse local foi freqüentemente referido como a Cidade do Sol. Mais tarde, legados e emissários do Egito foram autorizados a estabelecer ramos das escolas de mistério na Grécia, em Roma, na Índia e em outros países. Com o passar dos anos, uma fusão de diversos ramos começou a ocorrer, da qual se originaram os ensinamentos atuais dos rosacruzes e escolas místicas similares do passado”, foi o que falou o Frater Luiz Alberto de Oliveira, advogado, novo Mestre-Auxiliar da Loja Salvador, 45 anos, 13 de rosacruz; dando-nos praticamente uma aula de História.
E que diretrizes, padrões e procedimentos pelos quais podemos reconhecer um ramo autêntico das escolas de mistério do Egito? Quem nos respondeu foi novamente o Frater Luiz de Oliveira:
“Primeiramente, nenhuma glorificação à personalidade – é quase certo que os líderes das antigas escolas rejeitavam aqueles que estavam cheios de auto-engrandecimento e tinham o ego inflamado. Também não toleravam estudante que tentavam deificar os líderes e anciãos da organização. Segundo, a humildade – as pessoas eram admitidas como estudantes sem considerar preferências pessoais, raça, religião, nacionalidade, renda, posição social ou poder político. Elas eram selecionadas de acordo com o seu nível de sinceridade e desejo de conhecimento. Exemplos eminentes de pessoas que insistiram na humildade foram Pitágoras, na sua escola em Crótona, e Jesus, o Cristo, entre os Essênios na Palestina (lembremo-nos que muitos dos seus apóstolos eram pescadores). Terceiro item: homens e mulheres eram membros – a personalidade-alma é capaz de se desenvolver e com o tempo atingir a iluminação independente de gênero e em qualquer encarnação. Os líderes das escolas eram tão inflexíveis a esse respeito que qualquer ramo que se recusasse a aderir a esse princípio (alguns não queriam permitir a entrada de mulheres) perdia sua autorização de representar a Fraternidade. Foi o que aconteceu no caso do Rei Salomão, que estudou no Egito e, voltando à sua terra, estabeleceu uma Ordem Mística (hoje reconhecida como Maçonaria) acrescentando dois princípios violadores: restringir o acesso somente a homens e usar o Sol como ponto focal exclusivo da sua Ordem, nomeando-o como o próprio corpo de Deus, e não apenas um símbolo. Quarto item: iniciática por natureza – a essência dos ensinamentos não era um mero conhecimento intelectual, mas uma sabedoria espiritual sentida profundamente nos rituais de iniciação, uma gnose emocional que jamais seria esquecida. Não importa se as iniciações eram da Escola Osírica, Egípcia, de Elêusis, da Órfica, da Mitraica, ou Brahmânica; não importa se continham elementos de unção, batismo, canto ou prece, as iniciações estavam baseadas em verdades eternas e tinham como base a crença num Ser Supremo. Quinto item: instrução progressiva – todos começavam o sistema de instrução do zero. Os estágios sucessivos eram rigidamente seguidos e o estudante, independente de seus conhecimentos anteriores, progredia conforme sua iniciativa e habilidade inatas, e, ainda, não passava para nenhum nível se não tivesse completado os passos precedentes. Sexto e último item: círculos interiores e exteriores – é notório o fato de haver ensinamentos privativos nas antigas escolas. Menos conhecido é o fato de que nas autênticas organizações místicas existiam dois níveis de instrução: um nível era o corpo exterior de ensinamentos passados ao público em geral e o outro representava o interior, o coração e a alma das doutrinas, reservado somente aos iniciados. Vale ressaltar que a AMORC segue à risca todos os seis princípios”.
Vamos agora para a história documental do rosacrucianismo. Esta pode ser remontada à Europa do século dezessete, com a publicação de três manifestos estabelecendo os objetivos e a metodologia da Ordem, em vários idiomas. Foi um período turbulento de preconceito e perseguição. Era a época das Cruzadas.
Em 1693, os rosacruzes foram para a América do Norte, estabelecendo-se na vizinhança do local onde hoje existe a cidade da Filadélfia. Segundo os membros atuais, aqueles rosacruzes tiveram participação ativa na fundação dos Estados Unidos. Após isso, seguiu-se um período de relativa inatividade da Ordem na América. Havia um regulamento antigo da Ordem que determinava uma periodicidade de ciclos ativos (filiais em plena atividade) e inativos (filiais fechadas e conhecimentos dos membros passados apenas hereditariamente). Cada ciclo com a duração de 108 anos.
Em 1909, o Doutor Haward Spencer Lewis, após legítma iniciação na tradicional Ordem Rosacruz da França, teve autorização para reativar a Ordem na América. Com isto, formou ele o Primeiro Conselho Supremo da Ordem em Nova York, em 1915, quando foi nomeado Imperator. A partir daí, a Ordem foi restabelecida na sua forma atual.

Uma Senda Faraônica – II
Podemos dizer, ainda, que os ensinamentos da Ordem Rosacruz se traduzem numa senda faraônica porque podem se estender por toda a vida do indivíduo, ou, até, além dela. Vamos partilhar um pouco desta jornada.
Após afiliar-se à Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis (AMORC), durante seis semanas, o novo membro recebe comunicações destinadas a que se qualifique aos estudos rosacruzes. Estas são feitas em forma de monografias e discursos denominados Mandamentos Privados, remetidos ao estudante pelo correio.
Tendo estudado essas primeiras lições e tentado certos experimentos (práticas), o membro já terá despertado algumas faculdades e funções psíquicas. Deverá ser admitido, então, ao Primeiro Atrium (grau) da Seção de Neófito. A partir daí, ficará doze semanas em contato com ensinamentos e testes experimentais, envolvendo assuntos como: Consciência Objetiva e Consciência Cósmica; Cérebro e Mente; Simbolismo Místico; A Lei do Triângulo. O Significado dos Números; A Energia da Matéria e a Energia Vital; Alma; Bem e Mal; dentre outros.
Depois disso, o Neófito passará para o Segundo Atrium. Aí, seguem-se dezessete lições semanais, contendo temas como: O Ego; A Eliminação do Ego; A Elevação do Eu Psíquico; Desenvolvimento Psíquico Pessoal; A Sagrada Assembléia; Auxílio de Mestres Visíveis e Invisíveis; Desenvolvimento da Aura Psíquica; Métodos Práticos de Harmonização Cósmica; etc.
Passando para o Terceiro Atrium, último grau da Seção de Neófito, o membro agora estudará: Alquimia e Química; Experimentos com o Controle Mental da Matéria; Magnetismo Místico do Corpo Humano; Controle do Sangue no Organismo Humano; Demonstrações com o Plexo Solar; Os Centros Psíquicos do Corpo Humano; Como Influenciar os Sistemas Nervosos e os Órgãos do Corpo e outros.

GRAUS DE TEMPLO
Quando os estudantes terminam os três graus preliminares da Seção de Neófito, completados em aproximadamente um ano, encaminham-se, então, para os Graus do Templo da Ordem.
Excepcionalmente, a Iniciação ao Primeiro Grau de Templo só pode ser feita numa Loja Rosacruz. Trata-se da misteriosa cerimônia de “Cruzar o Umbral”, fenômeno que é a meta de todos os buscadores da Iluminação Rosacruz. Para o iniciando, o Umbral é o ponto mais amado da Loja, porque representa a passagem das trevas para a luz, e é protegido pelo Guardião do Templo.
“Todas as fraternidades iniciáticas dão especial importância ao processo iniciático pelo qual o estudante ou adepto deve passar. Na AMORC, o estudante faz o estudo das monografias em casa, bem como suas experiências práticas de meditação, visualização e concentração. É a fase que rotulamos como a do desenvolvimento intelectual, quando se aprende a utilizar as leis da vida e do universo. Mais, ainda, ele deve passar pelo processo iniciático, através dos rituais que se desenvolvem nas Lojas Rosacruzes. Nessas ocasiões, passa por cerimônias místicas, onde um conhecimento intuitivo é despertado. Conceitos mais sublimes são revelados, num estado emocional e psíquico que ficam fortemente impressos em sua mente e ele é INICIADO nos mistérios mais sublimes do ser”, assim nos deu seu ponto de vista o Frater Rui Brasil, aposentado da Petrobrás, 71 anos, 25 na Rosacruz. Estávamos no nosso sexto encontro na Antecâmara do Templo, que ocorreu no dia 15 de abril de 2000.
Independentemente de fazer a Iniciação ao Primeiro Grau, os membros continuam a receber as monografias deste Grau e dos subseqüentes, dos quais salientam-se os assuntos respectivos: Primeiro Grau de Templo - A Ética da Filosofia Rosacruz; O Significado de Iniciação; o Mistério do Misticismo; Números e Símbolos; A Matéria; A lei do Triângulo; As Leis do Universo; Composição do Mundo Material; Composição Física do Homem e dos Animais; Distinção entre Espírito e Alma; etc. Segundo Grau de Templo - A Mente Humana, suas Faculdades e Funções; As Fases Objetivas e Subconsciente da Mente Humana; Relação da Mente com a Consciência Cósmica e Terrena; Funções Voluntárias e Involuntárias do Homem; A Consciência Dual do Homem; Tipos de Raciocínio; A vontade; relação da Vontade com a Saúde e a Doença; A Memória; Função da Memória quanto à Alma; etc. Terceiro Grau de Templo - Leis do Movimento e Mudanças no Universo; A Evolução da Consciência na Vida; Natureza da Consciência e seus Atributos; Finalidade dos Organismos Vivos, Sensações de Consciência; Consciência Individual e Coletiva; Inteligência, Intelecto, Imaginação, Formação de Imagens e Criação Mental; Sensações Psíquicas; Demonstrações de Realidade e Atualidade; Efeito do Ambiente; etc. Quarto Grau de Templo - Origem e Natureza da Força Vital no Homem; Forma de Manifestação da Força da Vital; O Conhecimento Secreto dos Rosacruzes sobre a Força Vital; Como controlar a Força Vital no Corpo Humano; Método Rosacruz para Aumentar a Força Vital; Como dirigir a Força Vital para qualquer Ser Vivo; etc. Quinto Grau de Templo - Filosofia, Religião e Ética. Sexto Grau de Templo - é um completo curso de cura metafísica. Sétimo Grau de Templo - é o mais místico do programa Rosacruz, pois trabalha essencialmente com a natureza metafísica do ser humano (o poder do corpo psíquico e sua consciência psíquica, a separação entre os corpos físico e o psíquico, projeção do corpo psíquico no espaço, o desenvolvimento da aura). Oitavo Grau de Templo - contém instruções para que o indivíduo tenha habilidade psíquica para fazer: projeções do corpo psíquico para qualquer pessoa ou lugar, tal como era em sua encarnação anterior ou atual; coisas materiais se moverem; tratamentos em outras pessoas durante as projeções psíquicas; atividades humanitárias sem se revelar ou comparecer a sessões em Templos da Ordem em lugares distantes. Nono Grau de Templo – desenvolve os mais altos poderes metafísicos do ser humano, tornando-o apto a fazerem desaparecerem coisas materiais e eliminar coisas mentais que possam ser obstáculos em sua vida; e também dirigir ou mudar o curso de eventos naturais, a fim de provocar certos resultados em seus assuntos pessoais e em assuntos alheios. Este é o último Grau em que o estudante recebe Iniciação no plano material. Décimo, Décimo Primeiro e Décimo Segundo Graus – as Iniciações a estes Graus são conferidas psiquicamente. Muitas lições são recebidas pelos estudantes de um modo tão místico que não pode ser explicado, e, de tempos em tempos, eles se reúnem a outros estudantes do mesmo Grau para troca de conhecimentos e experiências, enquanto estão desenvolvendo suas atividades místicas em todas as partes do mundo, sem interferência em seus negócios ou rotina social. Até aqui, os estudantes da Ordem já devem ter percorrido cerca de 15 a 16 anos na senda. “Hoje em dia está ótimo. Até há poucos anos atrás, você só chegava no Décimo Segundo Grau depois de vinte anos de estudo, ou mais. As monografias vêm sendo revisadas pelo nosso Imperator, tendo sido eliminados expressões prolixas e pontos obsoletos ou que estavam em desacordo com o conhecimento científico atualizado”, defende o Frater Antônio Sérgio dos Santos, autônomo aposentado, 68 anos, 24 de rosacruz.
Salienta-se que os membros, ao completarem o Nono Grau, podem ingressar na seção ILLUMINATI, que é o organismo superior da Ordem, em que membros dignos continuam a desenvolver trabalhos e estudos especializados, sob a direção do Imperator e dos Mestres Cósmicos – seres que, depois de várias encarnações como rosacruzes, atingiram a perfeição e, agora, auxiliam os demais membros da Ordem, atuando no plano extrafísico. Os membros não podem solicitar admissão à seção ILLUMINATI; devem aguardar que sejam considerados preparados e convidados a participar nesse trabalho superior.
Pois é, aquele que escolhe verdadeiramente o rosacrucianismo como o seu caminho de evolução tem o dever de colaborar para a Grande Obra da AMORC no mundo, não só através de suas encarnações, mas também quando estiver no plano espiritual. É como nos explica a Soror Conceição Rocha, funcionária pública federal, 27 anos, 8 na AMORC: “O rosacruz estudioso deve considerar o ensinamento da monografia como alimento para sua alma. Deve receber os estudos com satisfação e alegria, sem pressa ou ansiedade para terminar, pois os trilhos deste caminho apontam indubitavelmente para a direção da eternidade”.

Vale a Pena Rosacruciar?
De posse do boletim que continha o cronograma de atividades da Loja Rosacruz Salvador, fiquei sabendo que, no dia 6 de maio de 2000, estava programado uma espécie de bate-papo entre os membros, às quatro da tarde, na sala do Pronaos, sobre assuntos diversos ligados à AMORC. Eu precisava ir.
Chegando lá, eis que, não me contendo de curiosidade e em nome do bom jornalismo investigativo, entrei sorrateiramente no recinto e me acomodei. Percebi logo alguns olhares de estranhamento à minha presença. Tive momentos de tensão até que olhei para a Mestre, Ana Rios, que, para o meu alento, soltou um largo sorriso ao me ver. Ela, felizmente, achou graça da minha atitude e surpreendeu a todos, dando-me boas-vindas em alto e bom som. De repente, o mal-estar era vidro e quebrou-se com o sorriso dela. Suspirei aliviada.
Pude apreciar toda aquela atividade. Bendita seja a dona daquele sorriso, pois, justamente na metade das discussões, surgiu mais um presente para a reportagem: um neófito rosacruz – um estudante praticamente novo na Ordem - provocou um animado debate entre o grupo presente, ao questionar a utilidade dos ensinamentos rosacruzes, especialmente quanto à necessidade de pagar contribuições à Ordem, ao porquê de “tanta ciência” estar incluída nas monografias rosacruzes e ao que ele estaria realmente ganhando com o estudo rosacruz.
Os estudantes rosacruzes são encorajados a serem “pontos de interrogação ambulantes”, de modo que o sincero desafio desse neófito desencadeou um delicioso debate.
Esse debate pareceu-me tão útil para os próprios rosacruzes, que achei interessaria aos leitores. Os estudantes que participaram especificamente dessa discussão permitiram que seus comentários fossem publicados nessa reportagem.
Tudo começou quando o então neófito, Frater André Lima, propôs o seguinte desafio:
“Desde os dezessete anos, tenho sido um estudante sério de filosofia oculta. Agora, aos vinte e cinco, já explorei muitos sistemas e visitei alguns lugares ao longo da senda com os quais não me senti muito feliz. Passei um bom tempo praticando magia e estudei as obras de Israel Regardie da Goldem Dawn. Tornei-me entendido em Cabala e nos trabalhos das ‘artes especiais’. Li tantos livros sobre magia e misticismo que não posso contá-los. Eu me consideraria um adepto, mas, na Ordem Rosacruz, ainda sou um neófito.
À medida que prossigo com os estudos de neófito, estou tendo alguma dificuldade para compreender porque é incluída tanta ciência nos ensinamentos. Tornei-me um estudante da filosofia rosacruz para crescer como pessoa – para me tornar mais do que sou - e para aprender a respeito da verdade e do caminho da luz. Mas parece que os únicos assuntos que estou estudando são assuntos que já conheço. Estou certo de que isto dá a impressão de que estou me gabando e entendo que as lições se desenvolvem lentamente para nos ajudar a estarmos prontos quando algo do arcano nos for apresentado. Mas, como um universitário que vive de uma receita limitada, parece realmente que não vale a pena pagar a contribuição à AMORC. Sabem, eu não posso me dar ao luxo de pagar por coisas que já sei. Esse conhecimento poderá valer a pena no futuro, mas até agora não vi nada que me levasse a acreditar nisso.
Eu me pergunto se algum dos outros já teve essa insatisfação. Será que depois a Ordem vale a pena? Nunca estive num templo ou num Pronaos. Sei que a Ordem tem despesas a pagar, mas é difícil para mim entender porque as monografias devam me custar cem reais por ano.
Portanto, se algum de vocês tem algum conselho ou algumas idéias para me oferecer, gostaria de recebê-los”
O Frater Claudemiro dos Santos, engenheiro civil, 47 anos, 17 na AMORC, tentou responder algumas perguntas feitas pelo neófito:
“Considerando as coisas que o Frater estudou nos últimos anos, percebo que os ensinamentos rosacruzes oferecem algo que aqueles outros caminhos não oferecem: integração. Na filosofia rosacruz, o que o Frater chama de ‘artes especiais’ tem pouco valor espiritual até que é posto em prática na vida. E isto não significa demonstrações externas de princípios ocultos. Significa a transmutação de sua própria consciência: como você pensa, como você interpreta, como você reage e como você vive.
A senda rosacruz parece integrar a personalidade individual – o ego, se você prefere – com a consciência da personalidade-alma. E isto não pode ser feito somente por leituras.
Para conseguir essa integração, o místico rosacruz tem de estar envolvido e ativo no mundo do dia a dia . As maneiras de fazer isso são diversas, mas há um fio comum: seja como for que eles se envolvam, os rosacruzes estão sempre procurando perceber como princípios cósmicos atuam na vida humana e estão sempre buscando maneiras de aplicar princípios cósmicos a serviço de Deus e da Humanidade.
O sistema rosacruz não é apenas um jogo intelectual; há também elementos experimentais e emocionais. Você não pode esperar que as monografias façam tudo; elas orientam e você aplica. Então você aprende. E, todo o tempo, você medita, lançando a base de uma poderosa transformação de consciência. Não há respostas fáceis, fórmulas simples, nem carma instantâneo – só trabalho, persistente harmonização e paciência.

BUSCANDO REVELAÇÕES NA VIDA
Em lugar de buscar revelações nas monografias, tente usá-las para encontrar revelações na vida – por exemplo, nos assuntos que você está estudando na escola. Isto pode ser feito por estudo e meditação. Muitos assuntos estudados nas faculdades estão baseados num paradigma totalmente materialístico e racionalístico. Se você conseguir aprender a encarar esses mesmos assuntos como um místico, vai achar mais fácil romper com os velhos paradigmas e perceber coisas que seus colegas e professores provavelmente perderam. Isto lhe dará um ponto de vista mais completo – mais holístico – sobre todos os tipos de assuntos.
O Frater pergunta por que há tanta ciência nas monografias. É porque a ciência está envolvida com as leis da natureza tais como se manifestam no mundo material.
Não estou seguro de que respondi suas perguntas ou de que tratei realmente daquilo que o preocupa, mas com certeza espero que isso tenha lhe dado algumas idéias para reflexão”.
Neste ponto, o Frater Adrião Silva Araújo, representante de vendas, 40 anos, 15 de rosacruz, entrou na discussão assim:
“Frater André Lima, também para mim as lições de neófito pareciam estar apresentando idéias bem básicas, bem comuns mesmo. Mas sei que os ensinamentos mais avançados podem ser encontrados nos primeiros Graus, de um modo um tanto velado. Além de eles cobrirem tópicos semelhantes aos Graus de Templo, apresentam sugestões e idéias que, se entendidas e seguidas, podem levar o neófito a muitas conclusões interessantes.
O Frater disse que as lições nos preparam para a apresentação do arcano. Bem, se você está em busca de segredos arcanos, acho que os está procurando no lugar errado. A Ordem apresenta o misticismo como um caminho natural e compreensível. O conhecimento tradicional é apresentado pouco a pouco ao longo dos Graus, o que deixa o estudante amadurecer à medida que segue esse caminho. Esse amadurecimento é sutil e pode não ser prontamente evidente para o estudante, mas virá o dia em que ele poderá olhar para trás e perceber o quanto progrediu.
O que posso lhe dizer é que, agora que estou na Ordem há alguns anos, sinto que tenho muito melhor compreensão do Cósmico e do misticismo do que tinha quando comecei. Isto não resultou de eu ter aprendido algum segredo especial, mas de ser um estudante rosacruz tentando aprender essas coisas semana após semana”
O Frater Luter Martins Vaz, analista de sistemas, toma, então, a palavra:
“Eu também tenho vinte e cinco anos e já andei por vários outros caminhos e pratiquei magia. Sou membro da AMORC desde 1994 e, recentemente, estive me fazendo as mesmas perguntas: por que o progresso lento e por que tanta ciência?
Obviamente, ambos estivemos – e ainda estamos – buscando algo. Eu estudava e praticava magia pelo PODER. Mas, desde que entrei na AMORC, descobri algo: a senda rosacruz nada tem a ver com o controle de forças e com mudar o seu destino de modo que agrade ao seu ego; tem a ver com dominar a sua vida.

CONTROLE e DOMÍNIO
Meu parecer é o seguinte: acho que magia e muito do fascínio pelo ocultismo são uma questão de controle; controle de outras pessoas, controle da vida, etc., ao passo que o rosacrucianismo é uma questão de DOMÍNIO DO EGO. Na Ordem aprendemos como funcionam as forças e as leis cósmicas.
Para encerrar, recomendo que você medite sobre o ego e suas ciladas. Por que? Minha experiência indica que o ego pode bloquear nossa evolução na senda”.
A Soror Iara de Melo Ferraz, 53 anos, 22 na Ordem, também contribui com suas opiniões
“Frater André Lima, você ajuda este debate ao levantar algumas questões importantes e expressar algumas preocupações válidas como novo membro da Ordem.
Você disse que começou a estudar a filosofia rosacruz para crescer – ‘para me tornar mais do que sou’. Pois bem, persista e você vai conseguir isso!
Disse que quer ‘aprender a respeito da verdade e do caminho da luz’. Mais uma vez, persista que vai chegar lá!
Quanto à sua preocupação por haver tanta ciência nos ensinamentos, creio que as monografias enfatizam que os rosacruzes conseguem resultados usando leis naturais – e não algum tipo de sobrenaturalismo.
Entre os rosacruzes que conheci, só consigo pensar em um que não entrou para a Ordem após ter explorado muitos outros caminhos. A experiência de achar as primeiras monografias ‘muito elementares’ é comum. É também comum que o rosacruz adiantado revise as primeiras monografias e fique espantado com o que não percebeu quando as leu.

IMPORTÂNCIA DOS EXERCÍCIOS
Independentemente disso, muitos de nossos Fratres e Sorores têm salientado a necessidade de desenvolvimento lento e contínuo. Estar ‘pronto’ não é só uma questão de ter todo o conhecimento de base e estar familiarizado com todas as definições. O que é criticamente importante é fazer persistente e regularmente os vários exercícios para desenvolver certos centros dos corpos físico e psíquico. Isto não pode ser feito do dia para a noite ou, como disse alguém, durante um seminário de fim de semana.
As lições rosacruzes são um método ordenado, sistemático, para desenvolvimento de maestria. Ninguém pode se tornar mestre de repente”.
Após mais alguns comentários de outros rosacruzes, nosso jovem neófito, Frater André Lima, encerrou a discussão dizendo:
“Quero dar um grande abraço em todos vocês que participaram deste debate. O que foi dito aqui realmente me ajudou a esclarecer algumas coisas. Agora percebo que a Ordem Rosacruz ajudou a muitos de vocês e que vocês encontraram satisfação na Ordem. Muito Obrigado e que o amor e a luz do universo se infundam em cada um de vocês, enchendo seu ser de modo que possam prosseguir com a Grande Obra”.

Conclusão

Tendo por lema “A maior tolerância na mais estrita independência”, a Ordem Rosacruz não se opõe às convicções e práticas religiosas dos seus estudantes e recomenda que eles reflitam sobre os ensinamentos, tirando suas próprias conclusões e, na mais absoluta liberdade, rejeitem o que possa ferir suas convicções pessoais. Assim, o rosacruz não é um livre-pensador, mas um pensador livre.
Nessa bela viagem ao mundo dos rosacruzes, foi possível, ainda que de forma modesta, entender alguns meandros que envolvem o verbo rosacruciar. Rosacruciar é, antes de mais nada, buscar a perfeição, em todos os sentidos, com sinceridade e sem o menor vestígio de fanatismo.
No dia a dia, aplicando regularmente os conhecimentos de desenvolvimento e harmonização material e espiritual – sons vocálicos, mentalizações, meditação, uso místico da respiração, - adquiridos nas monografias, os membros da AMORC, cada um à sua maneira, acreditam conseguir bons resultados.
Os rosacruzes, através do seu discurso, provam que fazem parte do grupo de pessoas que decidiram fazer alguma coisa para realizarem seus desejos e aspirações. Sentem que possivelmente, através do estudo e da prática, e aprendendo a utilizar todas as forças ao seu alcance, serão capazes de fazer com que algumas de suas esperanças cheguem realmente a se concretizar. Certamente, isso não significa que quem se afilia à Ordem Rosacruz possa de repente e dramaticamente mudar sua vida e suas circunstâncias, tornando-se um ser iluminado, perfeito. Não se trata de magia. Os membros aprendem a dirigir seus esforços e sua consciência a um anseio muito acalentado, que lentamente chega a se converter na certeza de alcançar certo grau de paz interior que, junto com a felicidade, é provavelmente o mais grandioso bem possível ao ser humano.
Sobre a utilização das técnicas da linguagem dialógica interativa para escrever essa reportagem, foi confirmado que há meios de se fazer jornalismo sem descaracterizar o seu objeto, o seu objetivo: o ser humano. É possível ser jornalista e estar imbuído de emoção e paixão, sem prejuízo do relato dos fatos. É viável trazer para o texto o indivíduo que constrói a história.
Nesse sentido, não é preciso explicar a Ordem Rosacruz. A serenidade, as certezas e crenças de seus membros já são, por si só, a representação de todos os sentidos. O seu modo de falar, agir, pensar, expressam a profundidade dos seus conhecimentos, a riqueza dos seus valores. Não existem signos que revelem com maior clareza a identidade da AMORC do que o discurso de quem faz parte desta. A completude da Ordem não poderia ser maculada pela adequação a uma lógica que não atende às esferas da crença, da fé e de toda a subjetividade humana.
Espera-se que, através dessa tentativa de revelar a necessidade de humanização do discurso jornalístico, possa vir alguma contribuição às reflexões acerca da possibilidade de aproveitamento dessas janelas que se nos abrem (aos estudantes de Jornalismo), para que, em atendimento às exigências acadêmicas para a conclusão do curso, possam ser realizados Projetos Experimentais que atendam a outros ramos de atuação do profissional dessa área. Dessa forma, seria interessante, ainda, concorrer com a solidificação de um discurso jornalístico que se coadune com a interatividade inerente ao relacionamento humano, característica, ao meu ver, emergente e inevitável a uma nova ordem comunicacional.


Perfil dos Rosacruzes Brasileiros

Os dados seguintes foram obtidos mediante pesquisa recente realizada pela AMORC nas principais regiões do Brasil, relativos ao seu quadro de membros.

FAIXAS ETÁRIAS

De 18 a 31 anos de idade ............ 45%
De 32 a 46 anos de idade ........... 43%
Maiores de 47 anos ..................... 12%

ESCOLARIDADE

Universitária ................................ 55%
Ensino Médio ............................... 31%
Ensino Fundamental .................. 14%

SEXO

Masculino ...................................... 62%
Feminino ....................................... 38%

ESTADO CIVIL

Casados .......................................... 46%
Solteiros ......................................... 41%
Outros ............................................ 13%









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