sábado, 9 de janeiro de 2010

Artigo: Tênis ou Frescobol - A/0653

Tênis ou Frescobol

Depois de muito filosofar sobre o assunto, concluí que os relacionamentos podem ser de dois tipos: há os relacionamentos do tipo TÊNIS e há os relacionamentos do tipo FRESCOBOL. Os relacionamentos do tipo FRESCOBOL são uma fonte de alegria e têm a chance de ter uma vida longa.

Explico-me: para começar, uma afirmação de Nietzche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: “Ao pensar sobre a possibilidade de casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice? Tudo mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.”

Scheherazade (protagonista do conto “Mil e Uma Noites”) sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre DECAPITADOS pela manhã, e terminam sempre em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte como no filme “Império dos Sentidos”. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama e o amor não mais se podia dizer através dele, ela (Scheherazade) o ressuscitava pela magia da palavra e começava uma longa conversa sem fim, que deveria durar “mil e uma noites”. O sultão se calava e escutava suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra – é a sexualidade soba a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre depois de morrer.

Há os carinhos que se fazem com o corpo os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: “Eu te amo...” Barthes advertia: “passada a primeira confissão, EU TE AMO, não quer dizer mais nada”.

O TÊNIS é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E na sua derrota se revela o seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se TÊNIS para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do outro, e é justamente para aí que ele vai direcionar a sua “cortada” – palavra sugestiva – que indica o seu objetivo sádico que é o de interromper a devolução do outro, o de derrotar. O prazer do TÊNIS se encontra, portanto, no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado “fora do jogo”, sem poder “devolver a bola”. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O FRESCOBOL se parece muito com o TÊNIS: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que para o jogo ser BOM, É PRECISO QUE NENHUM DOS DOIS PERCA. Se a bola veio meio torta, a agente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devovê-la da melhor forma para o outro jogador, no lugar certo, para que o mesmo possa devolvê-la da melhor forma. Não existe adversário porque não compete a ninguém ser derrotado. AQUI OS DOIS GANHAM, OU NINGUÉM GANHA. E ninguém fica feliz quando alguém erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um no FRESCOBOL é como uma ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... e o jogador que errou pede desculpas, e o jogador que provocou o erro sente-se culpado também. Mas não têm importância, pega-se a bola e começa-se de novo este delicioso jogo que ninguém marca pontos.

A BOLA NO FRESCOBOL, é nossas FANTASIAS, IRREALIDADES, SONHOS, PROJETOS E PLANOS sob a forma de PALAVRAS. CONVERSAR é ficar “batendo bola”: sonhos prá lá, sonhos prá cá... planos prá cá... planos prá lá... Mas casais que jogam com os sonhos como se jogassem TÊNIS, ficam a espera do momento certo para dar a corda! TÊNIS é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo como uma bolha de sabão... No TÊNIS o que se busca é TER RAZÃO, e o que se ganha é DISTANCIAMENTO. AQUI QUEM GANHA SEMPRE PERDE.

Já no FRESCOBOL é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser PRESERVADO, pois se sabe que é um sonho. É a coisa delicada, vinda do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as “bolhas de sabão do outro voem livres”.

Bola vai, bola vem – cresce o amor... NINGUÉM GANHA PARA QUE OS DOIS GANHEM. E se deseja então, que o outro viva sempre, eternamente, PARA QUE O JOGO NUNCA TENHA FIM...
(Ruben Alves)

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