sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Artigo: Amor à Divindade e à Humanidade - A/0716

Amor à Divindade e à Humanidade

À vista das relações conturbadas que, segundo nos informam os escritos, norteiam as relações entre os homens desde o início dos tempos, nos parece que a análise do assunto em destaque representa uma questão de grande relevância para o entendimento do ser e/ou do dever ser do homem enquanto parte integrante da sociedade, esta, para o fim da presente abordagem, compreendida como o próprio conceito de Humanidade.
Em princípio poderia parecer impróprio mencionarmos desde logo como componente essencial à nossa abordagem a razão. Contudo, fundados nos ensinamentos que nos foram transmitidos ao longo de nossa trajetória pela Maçonaria, nos permitimos construir nossa convicção baseados nesse pilar, amealhando ainda, para melhor justificá-la, os conceitos desenvolvidos na filosofia do período moderno.
Muito se ouve e se lê sobre a necessidade de respeito às leis estabelecidas para as relações sociais e aos princípios religiosos, como pressuposto ao respeito a Deus e aos nossos semelhantes. Contudo, não raro, confunde-se respeito a Deus e aos semelhantes com amor.
É fato que devemos observar, por conta da boa conduta e do “politicamente correto”, o dever de respeito para com o Ente Supremo e para com o nosso semelhante. Mas, a confusão entre amor e o dever de respeito, que nos é imposto por necessidades próprias da nossa natureza (viver bem para com Deus e para com o próximo) e pelas regras de convívio estabelecidas pela sociedade e pelos detentores do controle das religiões, não suporta uma análise que ultrapasse, um mínimo que seja, a superficialidade.
A verdade é que podemos passar pela vida, cumprindo de maneira exemplar todos os deveres atinentes ao convívio com a sociedade e para conosco mesmos, sem nunca havermos experimentado por um só momento o sentimento de amor à Divindade e ao próximo.
A moral na visão kantiana permite o seguinte exercício de raciocínio: “por que se age por dever (moral) e conforme o dever (jurídico) e não de forma diversa? A Metafísica dos Costumes tem por objeto o estudo dos princípios “a priori” da conduta humana. Compreender as condições a que estão submetidas o homem, libertas de toda mistura empírica e, dentro destas condições, a vontade, na concepção kantiana, a qual ocupa papel de destaque em sua filosofia, torna-se constituidora da ética. A vontade, para Kant, constitui a própria razão pura prática e sendo ela a mola propulsora da ética, seus princípios são erigidos à categoria universal.”
[1]
Em outras palavras: Não é suficiente, para experimentarmos o amor à Divindade e à Humanidade (ou em relação a qualquer ser) o mero convívio em sociedade com estrita observância dos nossos deveres e das regras que temos que obedecer. O amor (como de regra todo o sentimento) é algo que brota internamente, fruto da vontade própria, totalmente independente da necessidade de observância de quaisquer preceitos.
Ou seja, ainda nos valendo dos ensinamentos de Kant
[2] sobre a moral, podemos constatar que “os princípios desta moral partem do próprio sujeito, sem, contudo, poder ser considerada subjetiva, já que não são ditados pela sensibilidade, tratam-se de conceitos derivados da vontade pura ou “a priori” da razão. Ao agir sobre tal ordem o homem cria princípios universais...”
Dessa assertiva – que nos remete a princípios universais - abstrai-se que tal qual a moral, o amor deriva da “vontade pura” que se traduz pela própria razão.
Assim, por esta visão, não experimentaremos jamais o amor para com a Divindade e para com os nossos semelhantes, mediante o cumprimento de deveres e condicionantes de convivência.
O amor, esse sentimento puro em sua própria essência, exige um exercício próprio, derivado da nossa exclusiva vontade, da nossa própria razão.
Por mais óbvio que essa ilação pareça, foi necessária muita reflexão filosófica ao longo da história conhecida da humanidade para que se chegasse a tal conclusão. E, ainda, por mais que observemos e compreendamos com clareza estes conceitos, o retrato dos conflitos – das mais variadas proporções - que vemos, e por vezes provocados, diariamente é a prova de que muito pouco do amor puro tem sido distribuído entre os seres humanos.
E, salvo engano, a tônica da filosofia Maçônica, calcada nos atributos da razão, tem sido a de nos provocar a reflexão à luz da vontade pura, de maneira a nos possibilitar o exercício do sentimento de um amor verdadeiro à Divindade e, com igual intensidade, aos nossos semelhantes como indivíduos e à Humanidade como um todo.
Podemos, assim, entender que se não somos capazes de reconhecer nos nossos sentimentos amor derivado da vontade pura, ou da razão, é porque ainda não conseguimos – sequer - compreender a mensagem que nos é transmitida insistentemente nos templos através dos nossos rituais, desde o primeiro Grau da Maçonaria Simbólica.
E, por conseqüência, não estamos em condições de entregar à Divindade e, em igual intensidade, à Humanidade o amor verdadeiro, a ser concebido espontânea e livremente, derivado única e exclusivamente da razão!(Luís Oscar Six Botton)

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