APRENDIZES E COMPANHEIROS NO ORIENTE
O fato de nossos Rituais e Regulamentos não vedarem, expressamente, o acesso de Aprendizes e Companheiros ao Oriente, leva-nos ao inevitável questionamento do porquê desta proibição.
Podemos encontrar resposta a esse questionamento em princípios jurídicos profanos.
A lei, no mundo profano e na Maçonaria, não é a única fonte de direito. A questão das fontes do direito positivo constitui o problema crucial de toda reflexão jurídica. É o ponto crucial da Filosofia do Direito. Lembro-me ainda do meu professor de Filosofia do Direito dizendo que procurar a fonte de uma regra jurídica significa investigar o ponto em que ela saiu das profundezas da vida social para aparecer na superfície do direito.
Como sabemos, as fontes formais do direito são, tradicionalmente, a legislação, o costume (usos e costumes), a jurisprudência e a doutrina. O costume, em sentido jurídico, seria uma repetição constante de determinados comportamentos na vida de uma comunidade, acompanhada da convicção de sua necessidade, a ponto de poderem os interessados exigir o respeito a esse comportamento, em caso de transgressão.
Esses conceitos, sem dúvida alguma, podem ser perfeitamente adaptados à nossa Instituição, sempre acompanhados da necessária advertência a respeito da aplicação indiscriminada dos chamados "usos e costumes" como forma de explicar ou justificar práticas não-maçônicas, importadas de Ordens Místicas e utilizadas em nossos Templos e Cerimônias.
Mostra-se necessário, antes de tudo, diferenciar "acesso ao Oriente" de "assento no Oriente". Somente têm assento no Oriente o Venerável Mestre, os Irmãos Mestres com cargo e os Ex-Veneráveis. Já o acesso ao Oriente é viabilizado somente aos IIr.'. Mestre de Cerimônias e Mestre Hospitaleiro, no exercício de suas funções, e aos IIr.'. Mestres, acompanhados do Irmão Mestre de Cerimônias, para receber diretamente do V.'.M.'. algum documento, comenda ou homenagem. Se a homenagem for dirigida a um Irmão Aprendiz ou Companheiro, quem deve fazer a entrega é o respectivo Vigilante.
Com base em nossos antigos usos e costumes, Aprendizes e Companheiros só podem circular em Loja guiados e levados pelo Mestre de Cerimônias, ou seja, sempre que se movimentarem dentro de Loja devem seguir os passos do Irmão Mestre de Cerimônias.
Os Mestres, por possuírem a chamada plenitude maçônica (ao atingir o terceiro grau o maçom torna-se Mestre, e passa a possuir a iniciação integral) e por já poderem, esotericamente falando, caminhar por suas próprias pernas, se deslocam à frente do Mestre de Cerimônias.
O Aprendiz, simbolicamente, não sabe ler nem escrever. Em alguns ritos, Aprendizes e Companheiros sequer têm livre uso da palavra em Loja, a não ser para pequenas comunicações e pedidos de aumento de salário. No rito Adonhiramita, por exemplo, o anúncio da palavra a bem da Ordem em geral e do Quadro em particular pelo Ven.'. Mestre se dá da seguinte forma:
- DDignis.'. 1º e 2º VVig.'., anuncio diretamente aos OObr.'. que ornam as vossas respectivas CCol.'., assim como faço no Or .'., que a pal.'. a bem da Ord.'. em Ger.'. e do quadr.'. em partic.'. é franca aos MM.'. MM.'. que dela queiram fazer uso.
O Ritual do Rito de Emulação (York) da GLMERGS, a respeito dos Levantamentos (a palavra), determina que a circulação da palavra em uma Sessão Maçônica destina-se à realização pelos OObr.'. de pequenas comunicações à Loja e ao V.'.M.'. e para apresentação de trabalhos ou assuntos a bem da Ordem em geral e do Quadro em Particular. Segundo o Ritual, o V.'.M.'. se levanta três vezes para saber se há algo a ser proposto para o bem da Franco-Maçonaria em geral ou do quadro em particular. Na primeira vez, de acordo com o ritual, fazem uso da palavra os IIr.'. MM.'. MM.'., inclusive os PP.'. M.'. que estejam fora do Oriente, com exceção dos Wig.'.; no segundo levantamento, fazem uso da palavra os Ilr.'. Wig.'., que falam sentado. No terceiro e último levantamento, os PP.'. M.'. com assento no Oriente e posteriormente o V.'.M.'., que é o último a usar da palavra antes do encerramento dos trabalhos. De acordo com o ritual, AApr.'. e CComp.'. não têm direito ao uso da palavra.
Se o uso da palavra pelos Aprendizes e Companheiros é permitido em alguns ritos e vedado em outros, o acesso ao Oriente, independentemente de rito, é proibido aos graus 1 e 2, isso porque em todos os ritos, sem exceção, há a divisão do Templo nos pontos cardeais, apesar de em alguns ritos não haver uma barreira física dividindo o Ocidente do Oriente.
Importante referir que, em princípio, Aprendizes e Companheiros não devem exercer cargos, pois estão no início de sua carreira iniciática, onde os esforços devem ser dirigidos ao aprendizado, a fim de que, no futuro, venham a se tornar Mestres capazes de cumprir com eficiência a fundamental tarefa da instrução.
Evidente que exceções podem ser feitas no caso de faltarem Mestres para compor todos os cargos e essas ocasiões devem ser aproveitadas como uma oportunidade única de aprendizado, sempre observando que os cargos com assento no Oriente, os Vigilantes, o Mestre de Cerimônias e Hospitaleiro, assim como o Guarda do Templo, devem ser exercidos por Mestres Maçons.
É forçoso que o cobridor (seja ele o externo ou interno) seja obrigatoriamente um Mestre, pois como poderia identificar os visitantes, ou mesmo portar uma espada, que não pode ser entregue a um Aprendiz, já que há um momento adequado em que isto ocorre pela primeira vez?
O cargo de 1º Diácono deve, preferencialmente, ser exercido por um Mestre Maçom, uma vez que a função ritualística deste Oficial é transmitir as ordens do Venerável Mestre ao Irmão 1º Vigilante e aos dignitários e oficiais. Se por imperiosa necessidade esse cargo for exercido por um irmão Aprendiz ou Companheiro, o Venerável Mestre, na abertura e encerramento da Loja, deve se deslocar ao Ocidente para transmitir a Palavra Sagrada, em face do impedimento de acesso ao Oriente por Aprendizes e Companheiros.
O argumento de que o neófito tem acesso ao Oriente quando da Iniciação não é significativo, uma vez que está vendado e é guiado pelo Irmão Exp.'., sem saber sequer onde está, assim como não conhece, naquele momento, o significado de sua presença no Oriente.
O Irmão José Castellani esclarece o porquê do impedimento de acesso ao Oriente pelos AApr.'. e CComp.'., à luz do Simbolismo maçônico: "Os Aprendizes e Companheiros não podem ter acesso ao Oriente, pois ali é o fim da caminhada iniciática. O caminho de um iniciado na Ordem Maçônica vai das trevas do Ocidente à Luz do Oriente, onde nasce e brilha o Sol; nesse caminho ele passa pelo Norte, a parte menos iluminada (depois do Ocidente), como Aprendiz, e pelo Sul, mais iluminado, como Companheiro (isso vale para o Hemisfério Norte; todavia, para efeito de padronização e para não implicar inversão das Colunas do Norte e do Sul, é conservado para o Hemisfério Sul, embora errado, geograficamente). Somente ao atingir o Grau de Mestre é que o maçom cumpriu sua trajetória, podendo beneficiar-se da plenitude da Luz no Oriente. Assim, o Aprendiz não pode abandonar a sua Coluna, nem ir para a Coluna dos Companheiros, devendo, quando apresentar os seus trabalhos, exigidos para aumento de salário, fazê-Io do seu lugar, e nunca do Oriente, como mandam alguns Veneráveis. " (Trecho extraído do livro Liturgia e Ritualística do Grau de Aprendiz Maçom (em todos os ritos)).
Sendo o Templo uma representação simbólica da Terra e o Oriente o local de onde provém a Luz, maçonicamente falando, representada pelo conhecimento e sabedoria transmitidos pelos Mestres aos Aprendizes e Companheiros, estes devem antes ouvir e aprender a fim de adquirirem os conhecimentos necessários para que, no futuro, possam vislumbrar com clareza e nitidez a real dimensão da Maçonaria, para cuja realização foi montado todo um universo simbólico.
(Ir.'. Luís Arthur Aveline de Oliveira – Porto Alegre – RS
In: O PRUMO, ano XXXV, nº 162, julho-agosto/2005)
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