terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Artigo: Aprendizes e Companheiros no Oriente - A/0692

APRENDIZES E COMPANHEIROS NO ORIENTE

O fato de nossos Rituais e Re­gulamentos não vedarem, ex­pressamente, o acesso de Aprendizes e Companheiros ao Oriente, leva-nos ao inevitável questionamento do porquê desta proi­bição.
Podemos encontrar resposta a esse questionamento em princípios jurídicos profanos.
A lei, no mundo profano e na Maço­naria, não é a única fonte de direito. A questão das fontes do direito positivo constitui o problema crucial de toda reflexão jurídica. É o ponto crucial da Filosofia do Direito. Lembro-me ainda do meu professor de Filosofia do Direi­to dizendo que procurar a fonte de uma regra jurídica significa investigar o pon­to em que ela saiu das profundezas da vida social para aparecer na superfície do direito.
Como sabemos, as fontes formais do direito são, tradicionalmente, a legis­lação, o costume (usos e costumes), a jurisprudência e a doutrina. O costume, em sentido jurídico, seria uma repetição constante de determinados comporta­mentos na vida de uma comunidade, acompanhada da convicção de sua ne­cessidade, a ponto de poderem os inte­ressados exigir o respeito a esse com­portamento, em caso de transgressão.
Esses conceitos, sem dúvida algu­ma, podem ser perfeitamente adapta­dos à nossa Instituição, sempre acom­panhados da necessária advertência a respeito da aplicação indiscriminada dos chamados "usos e costumes" como forma de explicar ou justificar práticas não-maçônicas, importadas de Ordens Místicas e utilizadas em nos­sos Templos e Cerimônias.
Mostra-se necessário, antes de tudo, diferenciar "acesso ao Oriente" de "assento no Oriente". Somente têm assento no Oriente o Venerável Mes­tre, os Irmãos Mestres com cargo e os Ex-Veneráveis. Já o acesso ao Oriente é viabilizado somente aos IIr.'. Mestre de Cerimônias e Mestre Hospitaleiro, no exercício de suas funções, e aos IIr.'. Mestres, acompanhados do Irmão Mestre de Cerimônias, para receber diretamente do V.'.M.'. algum documento, comenda ou homenagem. Se a homenagem for dirigida a um Irmão Aprendiz ou Companheiro, quem deve fazer a entrega é o respectivo Vigilante.
Com base em nossos antigos usos e costumes, Aprendizes e Companheiros só podem circular em Loja guiados e levados pelo Mestre de Cerimônias, ou seja, sempre que se movimentarem dentro de Loja devem seguir os pas­sos do Irmão Mestre de Cerimônias.
Os Mestres, por possuírem a cha­mada plenitude maçônica (ao atingir o terceiro grau o maçom torna-se Mes­tre, e passa a possuir a iniciação inte­gral) e por já poderem, esotericamente falando, caminhar por suas próprias pernas, se deslocam à frente do Mes­tre de Cerimônias.
O Aprendiz, simbolicamente, não sabe ler nem escrever. Em alguns ri­tos, Aprendizes e Companheiros sequer têm livre uso da palavra em Loja, a não ser para pequenas comunicações e pedidos de aumento de salário. No rito Adonhiramita, por exemplo, o anúncio da palavra a bem da Ordem em geral e do Quadro em particular pelo Ven.'. Mestre se dá da seguinte forma:
- DDignis.'. 1º e 2º VVig.'., anuncio diretamente aos OObr.'. que ornam as vossas respectivas CCol.'., assim como faço no Or .'., que a pal.'. a bem da Ord.'. em Ger.'. e do quadr.'. em partic.'. é franca aos MM.'. MM.'. que dela queiram fazer uso.
O Ritual do Rito de Emulação (York) da GLMERGS, a respeito dos Levanta­mentos (a palavra), determina que a circulação da palavra em uma Sessão Maçônica destina-se à realização pelos OObr.'. de pequenas comunicações à Loja e ao V.'.M.'. e para apresentação de trabalhos ou assuntos a bem da Ordem em geral e do Quadro em Particular. Segundo o Ritual, o V.'.M.'. se levanta três vezes para saber se há algo a ser pro­posto para o bem da Franco-Maçonaria em geral ou do quadro em particular. Na primeira vez, de acordo com o ritu­al, fazem uso da palavra os IIr.'. MM.'. MM.'., inclusive os PP.'. M.'. que este­jam fora do Oriente, com exceção dos Wig.'.; no segundo levantamento, fa­zem uso da palavra os Ilr.'. Wig.'., que falam sentado. No terceiro e último le­vantamento, os PP.'. M.'. com assento no Oriente e posteriormente o V.'.M.'., que é o último a usar da palavra antes do encerramento dos trabalhos. De acor­do com o ritual, AApr.'. e CComp.'. não têm direito ao uso da palavra.
Se o uso da palavra pelos Aprendi­zes e Companheiros é permitido em alguns ritos e vedado em outros, o aces­so ao Oriente, independentemente de rito, é proibido aos graus 1 e 2, isso porque em todos os ritos, sem exce­ção, há a divisão do Templo nos pon­tos cardeais, apesar de em alguns ri­tos não haver uma barreira física divi­dindo o Ocidente do Oriente.
Importante referir que, em princípio, Aprendizes e Companheiros não devem exercer cargos, pois estão no início de sua carreira iniciática, onde os esfor­ços devem ser dirigidos ao aprendiza­do, a fim de que, no futuro, venham a se tornar Mestres capazes de cumprir com eficiência a fundamental tarefa da instrução.
Evidente que exceções po­dem ser feitas no caso de faltarem Mestres para compor todos os cargos e essas ocasiões devem ser aproveita­das como uma oportunidade única de aprendizado, sempre observando que os cargos com assento no Oriente, os Vigilantes, o Mestre de Cerimônias e Hospitaleiro, assim como o Guarda do Templo, devem ser exercidos por Mes­tres Maçons.
É forçoso que o cobridor (seja ele o externo ou interno) seja obrigatoriamen­te um Mestre, pois como poderia iden­tificar os visitantes, ou mesmo portar uma espada, que não pode ser entregue a um Aprendiz, já que há um momento adequado em que isto ocorre pela pri­meira vez?
O cargo de 1º Diácono deve, prefe­rencialmente, ser exercido por um Mes­tre Maçom, uma vez que a função ritualística deste Oficial é transmitir as ordens do Venerável Mestre ao Irmão 1º Vigilante e aos dignitários e oficiais. Se por imperiosa necessidade esse cargo for exercido por um irmão Apren­diz ou Companheiro, o Venerável Mes­tre, na abertura e encerramento da Loja, deve se deslocar ao Ocidente para transmitir a Palavra Sagrada, em face do impedimento de acesso ao Oriente por Aprendizes e Companheiros.
O argumento de que o neófito tem acesso ao Oriente quando da Iniciação não é significativo, uma vez que está vendado e é guiado pelo Irmão Exp.'., sem saber sequer onde está, assim como não conhece, naquele momento, o significado de sua presença no Ori­ente.
O Irmão José Castellani esclarece o porquê do impedimento de acesso ao Oriente pelos AApr.'. e CComp.'., à luz do Simbolismo maçônico: "Os Aprendizes e Companheiros não podem ter acesso ao Oriente, pois ali é o fim da caminhada iniciática. O caminho de um iniciado na Ordem Maçônica vai das trevas do Ocidente à Luz do Oriente, onde nasce e brilha o Sol; nesse caminho ele passa pelo Norte, a parte menos iluminada (depois do Ocidente), como Aprendiz, e pelo Sul, mais iluminado, como Companhei­ro (isso vale para o Hemisfério Norte; todavia, para efeito de padronização e para não implicar inversão das Colunas do Norte e do Sul, é conservado para o Hemisfério Sul, embora errado, geogra­ficamente). Somente ao atingir o Grau de Mes­tre é que o maçom cumpriu sua trajetó­ria, podendo beneficiar-se da plenitude da Luz no Oriente. Assim, o Aprendiz não pode abandonar a sua Coluna, nem ir para a Coluna dos Companheiros, devendo, quando apresentar os seus trabalhos, exigidos para aumento de salário, fazê-Io do seu lugar, e nunca do Oriente, como mandam alguns Ve­neráveis. " (Trecho extraído do livro Liturgia e Ritualística do Grau de Aprendiz Maçom (em todos os ri­tos)).
Sendo o Templo uma representação simbólica da Terra e o Oriente o local de onde provém a Luz, maçonicamente falando, representada pelo conhecimen­to e sabedoria transmitidos pelos Mes­tres aos Aprendizes e Companheiros, estes devem antes ouvir e aprender a fim de adquirirem os conhecimentos necessários para que, no futuro, pos­sam vislumbrar com clareza e nitidez a real dimensão da Maçonaria, para cuja realização foi montado todo um univer­so simbólico.

(Ir.'. Luís Arthur Aveline de Oliveira – Porto Alegre – RS
In: O PRUMO, ano XXXV, nº 162, julho-agosto/2005)

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