sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Artigo: As Imagens de Deus - A/0695

AS IMAGENS DE DEUS

Há certas coisas tão naturais que só nos apercebemos delas quando "chocados" por algum fato. Dizia um antigo antropólogo americano, RALPH LINTON, num excelente livro texto chamado O Homem - esse desconhecido, que o peixe só percebe que vive na água quando é tirado dela. Assim somos nós em relação à cultura que nos condiciona. Só percebemos o quanto algum costume ou hábito é curioso quando nos deparamos com usos e costumes diferentes de outros povos. Ainda assim temos a tendência de achar que exóticos e estranhos são eles. Um desses processos tão naturais que passam desapercebidos é o de utilizarmos imagens para podermos compreender nossos conceitos. É verdade que manejamos conceitos abstratos, como "conjuntos vazios" ou "infinito". Mas sempre imaginamos esses conceitos de alguma maneira. Talvez em nossa mente venham aqueles dois colchetes, símbolos de conjuntos, ou aquela imagem de um céu que se perde no horizonte. Mas sempre nos ocorre alguma imagem, sem a qual não podemos ocupar nossa mente consciente. Por isso é tão difícil entendermos conceitos extremamente abstratos sem termos sido treinados para isso. É o caso de compreender "buracos negros" ou "a natureza contraditória da realidade". Falo em "termos sido treinados" a propósito, pois todos nós podemos constatar praticamente isso tentando fazer uma criança entender coisas tão simples (para nós) quanto a relação entre a inflação e as taxas de juro. Se você pensa que a pobre criança é a única a ignorar coisas, tente você, adulto, imaginar um "buraco negro" ou -uma coisa relativamente comum para os físicos- "a relação entre os buracos negros e a passagem para outras dimensões". Jung exemplificou muito bem essa dificuldade em uma palestra que deu nos EUA quando, solicitado a explicar um determinado conceito, respondeu: você terá que ler tudo que li durante os dez anos em que passei pensando nisso para compreender o que entendo por isso. Paulo de Tarso também, e numa época bem remota, exemplificou bem essa dificuldade quando disse que a alguns é possível servir alimentos sólidos -falando de explicações mais profundas- enquanto que a outros só é possível servir alimentos leves. É uma das razões mais fundamentais para a existência dos "segredos", pois os segredos legítimos referem não a coisas que "o outro não pode saber", mas a coisas que "o outro não pode compreender", o que pode prejudicar a compreensão da própria verdade.Quando consideramos que é necessário "pensar" para "comunicar", esse processo fica ainda mais evidente. Só podemos "pensar" e "comunicar" coisas que sejam traduzíveis em alguma forma de linguagem: gestual, simbólica ou literal. Contam que a NASA enviou uma sonda ao espaço sideral com uma placa onde se podem ler equações matemáticas sobre nosso sistema solar, a teoria da relatividade, etc. O que se pretende com isso é "falar" uma linguagem que possa ser entendida por qualquer ser inteligente que venha a descobrir essa sonda, pois essas equações, expressando leis universais, supostamente são "comuns" a outras inteligências desse universo. Se a placa estivesse escrita em inglês, ou chinês, ou tailandês, não significaria nada para alguém que não fosse de nosso próprio planeta. Com certeza nem mesmo para a maioria de nós.A linguagem -como uma forma de imagem- é tão condicionante, que não são poucos os filósofos que a consideram a condição e o limite do conhecimento. WITTGENSTEIN, por exemplo, no Tractatus, afirma que tudo que pode ser pensado também pode ser dito. Os limites da linguagem são, portanto, os limites do pensamento, de modo que uma completa filosofia do "do que pode ser dito" será uma teoria completa do que denominamos "entendimento".Se nosso raciocínio até aqui for verdadeiro, deduzimos que o conceito de DEUS1 também é imaginado, embora possamos não ter consciência disso. E mais: é imaginado dentro das condições em que vivemos, isto é, condicionado por uma dada cultura, por nosso desenvolvimento pessoal dentro dela, por nossa situação de classe, pelo nosso gênero, pela educação religiosa que tivemos, enfim, por uma multiplicidade de fatores que compõem nossa "configuração". Considerando a complexidade de nossa "configuração", é impossível tratarmos das infinitas imagens de DEUS que possam existir. Tudo que podemos considerar são as condições mais gerais dessas imagens, ou seja, os condicionamentos sócio-culturais a que todos, num dado contexto civilizatório, ou numa cultura específica, ou numa dada classe social, estão sujeitos. É desse ponto de vista que abordaremos o tema.Por que determinados mitos e determinadas lendas são comuns a vários povos da Antigüidade? Encontramos paralelos em histórias contadas por povos extremamente afastados entre si, como os do Oriente e os da América. O dilúvio é um desses mitos comuns a vários povos de épocas e lugares diferentes. Esse cataclismo , citado freqüentemente pelos Hindus, os Babilônios, os Caldeus, os Hebreus , os Nórdicos e os Ameríndios, pode ter sido um fato real, como a do degelo dos pólos, que atingiu -parece óbvio- principalmente os vales, onde a maioria dos povos se estabelece. Quem se salvaria? Aqueles que pudessem prever a tragédia ou, por quaisquer outros motivos, habitassem os picos e as montanhas bem altas. Esses, na memória coletiva pós-desastre, acabariam por ser considerados "escolhidos" ou "sábios" ou "eleitos"2. Teria a Arca de Noé atracado no monte Ararat ou o monte é que teria sido a "Arca" da salvação de Noé e sua família, e mais alguns previdentes animais? Queremos considerar que, mesmo quando calcado em um fato histórico ou geográfico provável, a tradição oral acaba por mitificar o fato, enriquecendo-se o mito ao passar pelas várias gerações. Isso significa que o mito é uma mentira? Definitivamente não! O mito é uma verdade interior, uma forma de compreender e explicar a realidade, que se transmite de forma metafórica. Só consideramos que um mito é "falso" quando não entendemos isso e queremos encontrar provas do mito na história ou na geografia. O mito é uma metáfora. Ele não fala de fatos históricos ou geográficos reais, mas de uma verdade que se pretende transmitir. E essa verdade é sempre interior ao ser humano, nunca exterior.Mas se descartarmos a hipótese de uma Arca, ou de povos eleitos, ou de previdentes sábios, ficamos com a questão de explicar essa coincidência narrativa em povos tão afastados, histórica e geograficamente. Essa sincronicidade, no dizer de Jung. Poderíamos, mesmo, reescrever nossa pergunta desta forma: por que determinados mitos e determinadas lendas possuem um padrão comum, embora aparecendo em lugares, povos e épocas diferentes?Em Jung encontramos uma hipótese. Segundo ele a Humanidade tem um inconsciente comum, filogenético, que instrumentaliza a todos nós com determinados arquétipos comuns, pelo simples fato de que pertencemos à mesma espécie. Os arquétipos "são as partes herdadas da psique, são padrões de estruturação" e organização do imaginário psíquico, "são entidades hipotéticas irrepresentáveis em si mesmas e evidentes somente através de suas manifestações". (Dicionário crítico de análise Junguiana, Samuels, A. & outros, Ed. Imago, p.28). O arquétipo é, portanto, um padrão. Em a "Crítica da Razão Pura", Kant escreveu: tente imaginar alguma coisa que exista fora do tempo e que não tenha extensão no espaço. A mente humana não pode produzir tal idéia. Tempo e espaço são formas fundamentais de percepção que existem como estruturas inatas da mente. Nada pode ser percebido pelo ser humano, exceto através destas formas, e os limites da física são os limites da estrutura fundamental da mente. É um padrão comum a todos os seres humanos.A explicação arquetípica é uma hipótese forte, contudo não explica o fato de mitos e lendas variarem em função das formações sociais distintas, buscando outros padrões de expressão que são comuns a certos estágios da evolução histórica. Somos obrigados, por isso, além da hipótese dos arquétipos, de introduzir uma hipótese sócio-cultural. Quando lançamos um olhar abrangente ao processo evolutivo da civilização, vemos que os registros históricos a que temos acesso pertencem a dois grandes estágios: a fase agrícola, de vinculação à terra, que produziu um ser humano atento aos ciclos naturais e aos movimentos astronômicos. Esse estágio é rico em mitologias referentes à cidade -velha e nova, aos dramas cíclicos -como os do dilúvio, ao carma e às idades do ouro, prata, bronze e ferro. É a época das mitologias sobre a deterioração da humanidade, de um Deus arrependido de sua criação. A pluralidade de fenômenos naturais gera uma pluralidade de Deuses. Mas não são Deuses externos aos fatos. São Deuses agentes de ciclos e fenômenos. O panteão de Deuses hindus é o exemplo ainda vivo desse estágio. Já os povos nômades, pastores por excelência, imaginaram um Deus diferente, um Deus Criador, externo à realidade humana. Enquanto os Deuses agrícolas são Deuses que regem ciclos naturais, este Deus, como Jeová, realiza as coisas em função de seu mero desejo. Este é um Deus pessoal, forte e capaz de grandes iras. Como diz CAMPBELL, é difícil a imagem de um Deus Mãe, acolhedor, quando se vive no deserto inóspito e impiedoso em constante guerra com os vizinhos. Além do mais, esses povos nômades e guerreiros eram patriarcais por excelência. O cristianismo é herdeiro desse patriarcalismo radical: um Deus em três pessoas, todas masculinas. Esse Deus não é uma "força ativa", como Kali, que se apresenta sob várias formas sem deixar de ser a mesma divindade. Essa é a imagem de DEUS que herdamos no Ocidente, por força da expansão da cultura judaico-cristã: um Deus masculino, branco, rigoroso. A imagem amorosa do Pai, trazida por Jesus, ainda hoje luta para estabelecer-se contra a poderosa imagem do Deus juiz, punidor e castrador.Mas a evolução cultural das imagens é complexa. Não há a mera substituição de uma concepção por outra, de uma imagem por outra. As civilizações agrícolas constituíram culturas fortes, assim como as pastoris, e ambas vieram a coincidir na sedentarização da maioria absoluta dos povos. A observação dos céus e o estudo dos ritmos e fases astronômicos, em comparação com ritmos e fases do ser humano, levaram à descoberta de coincidências que marcaram profundamente nossa visão do Universo, especialmente a visão mística. A Cabala é um exemplo bem conhecido, mas os ciclos da Kali Yuga dos hindus ou a lenda das 540 portas do salão de Odin (Wotan) também referem ao mesmo padrão. Por isso, nossa cultura constitui-se um bordado complexo dessas heranças como resultado de nossa rica evolução histórica3. Por um lado, a concepção de um Deus inserido na natureza (ou deuses) gerou a imagem da Grande Mãe, dentro de cujo ventre todos os mundos e toda a vida tinham existência. Gaia, a mãe Terra. Como tudo está regido pela mesma Ordem, o corpo humano seria uma duplicata em miniatura dessa forma macrocósmica. As mitologias e os ritos derivados dessa imagem têm por função propor e realizar a harmonia com essa ordem natural. Os mitos fundantes da Maçonaria têm muito a ver com essa fonte. Os festivais de um Deus inserido na natureza estão correlacionados com as estações, com os Equinócios e Solstícios, com o Sol e com a procriação (daí os símbolos fálicos). O "reino", o "Jardim do Éden", são imagens de uma humanidade em harmonia com a natureza e com a sociedade. Harmonia, dentro dessa concepção, significa inserção não conflitante no mundo social, na natureza e no mundo interior de cada um. Significa, sobretudo, a tentativa de conciliação dos opostos que nos angustiam: Vida e Morte, Eternidade e Finitude, Bem e Mal, Luz e Sombras. O confronto da Jerusalém real com a Jerusalém Celeste.Por outro lado, a constituição histórica das cidades e dos impérios, com as contradições sociais e humanas que ali se acentuaram, acabaram por impor a grande pergunta: se Deus deseja o bem e a harmonia, como pode o mundo ser violento? Ou, dito de outra forma: como alguém pode viver neste mundo sem ser violento? A resposta óbvia foi (como ainda é para muitos de nós) - "não pode!". Por isso desenvolveu-se a meta da negação do mundo como o reino do mal, fonte da idéia da separação do Espírito e da Matéria, que teve seu apogeu na ciência de Descartes. Exemplo típico dessa imagem foi ZOROASTRO, profeta dos Persas, povo que devolveu os judeus a Jerusalém (bastante influenciados pela visão religiosa dos zoroastrianos) que concebeu a idéia de dois Deuses: um da Luz, do Bem, e outro do Mal, da Escuridão. A idéia da duplicidade de Deuses se fortalecia na distinção entre o Bem e o Mal, o reino material e o reino espiritual. Como explicar a função do ser humano nesse drama? Necessariamente com a idéia da Queda. Há uma Criação, uma Queda e uma luta pelo Retorno. Para vencer essa luta o ser humano tem que vencer este Mundo, com sua malignidade. Tem que aliar-se às forças do Bem contra as forças do Mal. Tem que vencer o demônio e seus exércitos. Essas idéias nos são bastante conhecidas através do Antigo Testamento e do próprio Cristianismo.Importante percebermos que a imagem de um Deus pessoal, Criador, separado da natureza e da humanidade não é a única imagem que herdamos. É nossa imagem hegemônica, predominante, para usar um conceito Gramsciano. Mas também herdamos, embora de forma mais sutil, a imagem de um Deus feminino, Mãe, imanente à Natureza, a partir dos gregos, onde os dois tipos de divindades tenderam a se unir. Estará aí a força do culto à Virgem, à Mãe de Deus, a Nossa Senhora, a Iemanjá? Afinal, uma família composta por três seres masculinos de alguma forma repugna.Os gregos também nos legaram a idéia de um Deus transcendente (embora não fora da natureza), incapaz de ser definido, impessoal, cujo mistério podia ser encontrado no mistério do próprio ser humano. Essa concepção foi chamada de gnosticismo, do termo grego "gnosis" -conhecimento- que descreve a percepção intuitiva do mistério que transcende toda possibilidade de expressão. Por isso, a metáfora e o simbolismo são largamente utilizados para falar dessa concepção de DEUS, como O compreende a Maçonaria, por exemplo. Não há como fazer uma Teologia ou um catecismo de DEUS concebido com essa imagem. Esse DEUS é chamado Grande Arquiteto de Universo, não para caracterizá-lo, mas exatamente o contrário: para que não seja confundido com nenhuma das definições que, ao isolarem a divindade num conceito, a sectarizam e a opõe às outras definições. Por que ao maçom é proibido discutir religião nas Lojas? Porque "religião" é uma forma institucionalizada de conceber DEUS, numa forma que o maçom não O concebe. Para o maçom, as religiões são caminhos válidos de busca de DEUS, e como tal extremamente importantes, mas não se confundem com o próprio DEUS, como a maioria dos religiosos profanos o pretendem. Como dissemos acima, nos símbolos e nos rituais os maçons buscam harmonizar-se consigo mesmos e, por decorrência, com DEUS, essa realidade indefinível e incognoscível. Uma última pergunta: por que, nas sociedades modernas, parece haver uma volta a essa concepção mais mística do que religiosa (no sentido institucional)? Porque as religiões tradicionais, confundindo mitos, metáforas e símbolos com realidades históricas pretendem explicar o transcendente de forma concreta, como se os escritos bíblicos fossem anotações históricas que falassem de pessoas, lugares e fatos concretos. É claro que há fatos históricos e geográficos nas escrituras de todas as religiões. Mas a maioria dos escritos místicos fala da uma realidade simbólica que se refere à verdade inscrita no próprio ser humano. Podem ser contadas como histórias reais para catequizar crianças, mas não satisfazem aos adultos, especialmente os que possuem a coragem de usarem a dom divino da Liberdade De Pensar para escutar suas vozes interiores. Quando chegarmos a amadurecer essa imagem de DEUS, não poderemos mais pensar num DEUS masculino ou feminino, pois mesmos as Deusas não farão sentido num DEUS que não possui Dualidade. A dualidade -a natureza dialética das coisas, a contradição, os opostos- só tem sentido no mundo simultaneamente real e ilusório em que vivemos (outra dualidade). O UM não contém dualidade. Eis porque falamos do DOIS e do TRÊS, ou Pai, Filho e Espírito (Mãe, segundo a maioria das concepções místicas), como aspectos da dimensão que percebemos como "real". Nada sabemos das outras possibilidades de existência, além da certeza que a razão nos dá de que fazemos parte dessa UNIDADE, dela tivemos "origem" e a ela "retornaremos"4. Nos foi afirmado, com toda autoridade de um Mestre, que o Reino de DEUS já está entre nós e que apenas não conseguimos vê-lo por nossa própria incapacidade. É essa capacidade de VER que, afinal, buscamos. (Francisco Pucci)

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