sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Artigo: A Preparação do seu Chá - A/0717

CUIDADOS NA PREPARAÇÃO DO SEU CHÁ

Em plena era do conhecimento, onde as informações estão ao alcance de nossas mãos, é incrível como o processo de autoconhecimento ainda é um passo difícil e bastante distante para maioria dos humanos. Ainda esses dias estive em contato com um profissional que muito admiro, intelectualmente falando, mas que está longe de ser um exemplo quando o assunto é autocontrole. Ele fala fluentemente quatro idiomas, conhece inúmeros países e culturas, mas não consegue administrar pequenas situações diárias, zanga-se facilmente com tudo e, diante da menor contrariedade, torna-se a mais irracional das criaturas.
Pessoas zangadas são espetáculos hilariantes, tornam-se frágeis e ao mesmo tempo ridículas. A perda do bom senso é um show amargo, onde o protagonista inicialmente pode ser temido, mas com o passar do tempo torna-se motivo de piada para o grupo do qual participa e, mesmo que em algum momento esteja emitindo uma opinião correta, a forma equivocada pela qual se expressa, destitui por completo a sua `sábia’ percepção.
A forma pela qual falamos as coisas, fala muito de nós. Todas as pessoas, invariavelmente, estão presas a uma ‘química emocional’ que foi construída ao longo de suas vidas. Problemas de infância, seqüelas deixadas por nossos pais, interações difíceis com o meio, amores e desamores, vão nos construindo ou nos dilacerando dia a dia. Devido a isso é fundamental que nos conheçamos, pois dessa forma não nos tornamos tão vulneráveis ao meio.
Infelizmente, o que acaba acontecendo é que são os outros que nos contam como nós somos. Um exemplo disso é a história: Cha-no-yu: a cerimônia japonesa do chá. A. L. Sadler (1962), conta-nos que o “Shoshidai Itakura Suwo-no-kami Shigemune, de Kioto, apreciava muito a Cha-no-yu. Certa vez ele pediu a um amigo mercador de chá chamado Eiki que era seu companheiro na ‘cerimônia do chá’, que lhe dissesse francamente qual era a opinião do público a seu respeito. “Bem”, disse Eiki, “dizem que você se irrita muito se as pessoas não apresentam claramente as suas opiniões e as repreende, o povo, portanto, tem medo de vir a se queixar e, quando o faz, a verdade não é revelada.” "Pensando bem, tenho essa maneira brusca de falar, e as pessoas humildes e aquelas que não se expressam com facilidade, sem dúvida ficam confusas e não conseguem apresentar o seu caso com clareza". Vou cuidar para que isso não se repita.” A partir de então, ele mandava colocar um moedor de chá na sua frente e na frente do moedor os shoji cobertos de papel, e ficava ali sentado moendo chá, procurando manter a calma, enquanto ouvia as queixas. Assim era fácil ele ver se estava tendo uma atitude irritada ou não observando o chá, que não cairia de maneira uniforme do moedor, nem na consistência adequada, caso ele se agitasse. A justiça então era feita imparcialmente e as pessoas iam embora satisfeitas".
Como administrar uma casa, uma empresa, as finanças ou o convívio social, se não se consegue administrar as próprias emoções? De que adianta dominar inúmeros idiomas, conhecer inúmeras culturas se alguém não se domina e tampouco se conhece? Do mesmo modo, de nada adianta querer ganhar dinheiro ou obter poder, se esse dinheiro não compra bom senso e esse poder não constrói atitudes positivas. Muito mais do que fazer parte das cerimônias do chá ou analogamente dos cerimoniais organizacionais, é preciso analisar como estamos moendo o nosso próprio chá.
(Lígia Guerra)

Nenhum comentário:

Postar um comentário