segunda-feira, 15 de março de 2010

Artigo: Estudar é o Desafio do Maçom - A/0756

O DESAFIO DO MAÇOM: ESTUDAR

Fala-se muito da Maçonaria como Escola de Conhecimen­to. De uma forma muito simplista, poderíamos compa­rá-la com uma Universidade onde, pelo menos teoricamente, pratica-se Ensi­no, Pesquisa e Extensão.Como programa de ensino, basta percorrer os caminhos dos três graus simbólicos e constatar, numa simples leitura, deixando de lado os procedi­mentos ritualísticos que usam várias formas indiretas para transmitir as mensagens, e que poderíamos denominar como métodos: Escocês Antigo e Aceito, Adonhiramita, York, Francês ou Moderno, Schröeder, Brasi­leiro, para ficar apenas com os cha­mados oficiais aceitos pelas Potênci­as Maçônicas brasileiras (com exceção de algumas Potências, entre elas, as Grandes Lojas).
Esses métodos poderiam ser cha­mados de Ritos, os quais, cada um deles com belíssimas histórias e com diferentes panos de fundo, formam o ambiente necessário à execução do programa de ensino para cada grau. Esses ritos não tiveram uma geração tão rápida e mudaram com o decorrer do tempo, ao longo da história da Ma­çonaria desde a sua discutida origem.
A Ordem foi nascendo aos poucos, mesmo admitindo que o atestado de nascimento como Maçonaria Organiza­da, que ocorreu em data conhecida, exatamente no dia em que a duração das noites passou a ser mais curta que os dias: na data em que a "luz do dia" expulsava as noites: equinócio de In­verno no hemisfério norte.

O Templo Escola

Nessa Escola, as salas de aula são chamadas de Templos. É neles que aprendemos e ensinamos os progra­mas dos três graus que foram sendo formados com o passar do tempo. Deixem então a imaginação correr - que me perdoem os autênticos - e imaginem os nossos antepassados reunidos nos canteiros de obras, ao lado das Catedrais, fazendo preleções aos seus aprendizes de ofício e acom­panhando-os ao nível de companhei­ros. É bem provável que os Companhei­ros mais experientes fossem até cha­mados de Mestres de Obra. Imagine­mos, também, que muitos desses aprendizes e companheiros tenham sido apontados e selecionados dentre centenas e milhares de trabalhadores em todas as áreas e setores: desde as pedreiras até a colocação das pe­dras no seu respectivo lugar do Gran­de Edifício. Aos poucos, esses pedrei­ros de bons costumes iam ingressan­do no seleto quadro daqueles que pas­sariam a conhecer as técnicas da cons­trução.Imaginemos ainda que, além da potencialidade para receber essas no­vas ferramentas de trabalho, essas pessoas tivessem que seguir alguns padrões de Moral e de Ética e, talvez, até pertencer à linha religiosa dos "do­nos" da obra. É provável até, nessa nossa imaginação, que para fugir a esse critério de escolha o potencial Companheiro tivesse que ser muito bom!Os AceitosSeguimos nessa caminhada imagi­nária. Ao tempo das Guildas dos Cons­trutores - nome dado a esses grupos de trabalhadores - a sociedade se organizava. Eles foram se criando em vários pontos do território geográfico europeu, sob a proteção do poder da época. Aos poucos, esses seletos gru­pos, que pela natureza do trabalho deveriam ser multidisciplinares, como diríamos hoje, passaram a receber pessoas que não eram apenas pro­fissionais. Afinal, o mercado de traba­lho, com a chegada do Renascimento, foi ficando escasso: cessava o perío­do de construção das Grandes Cate­drais. Foi na Inglaterra que as Guildas não morreram, mas se transformaram!Foi aí que pessoas da sociedade certamente buscavam alguma coisa mais, que ganhariam com a convivência desses trabalhadores. A história os regis­trou como "aceitos", e até registra, com documentos, quando o primeiro não trabalhador entrou para um grupo, no início do século XVII.Em poucas décadas ingressaram tantos a ponto de serem maioria e, em lugar de reunir-se nos canteiros de obras, passaram a fazê-lo em lugares mais adequados: as TABERNAS! Como nos contam os historiadores, era nas tabernas que corria a energia da sociedade: comia-se, bebia-se, reunia-se, abrigava-se! Imaginem num longo inverno, onde é que as pessoas iam buscar um pouco de calor!Podemos imaginar quão bons e agradáveis seriam essas reuniões! Afinal as transformações que estavam ocorrendo na sociedade, com nobres perdendo o poder, com o Poder da Igreja sendo questionado ou derrubado, certa­mente nessas reuniões - o que não seria difícil de admitir - se discutia de tudo: quem é que poderia entrar para o grupo, a festa de recepção de novos grupos, como formar vários grupos e, talvez, a coisa mais importante, para não ser o grupo pelo grupo, onde havi­am várias pessoas reunidas, parece lógico que os problemas da socieda­de aí seriam repassados. Afinal, es­ses grupos, agora já em tabernas, eram formados de pessoas de diver­sas classes sociais e, certamente, entre eles, cientistas, artistas, profis­sionais, nobres e assim por diante. E, assim, foram nascendo diversos grupos! Maçons livres em Lojas Livres!Seguem as reuniões fora dos cantei­ros de obraSim, as reuniões continuam. Saí­am, agora, dos canteiros de obras e passavam a se reunir em outros luga­res. Afinal, os novos construtores que­riam continuar a aprender com essa convivência, o que, certamente, era "bom e agradável". Dizem os estudiosos - e até brigam por detalhes - que, para relembrar porque estavam reunidos, aproveitan­do a habilidade de alguns artistas, desenhavam no piso das tabernas al­gumas figuras para relembrar seus objetivos aos pre­sentes e manter o foco da reunião. Contam que, com o tempo, nos locais de reuniões, em lugar de desenhar passaram a fazer tapetes para serem colocados no momento da reunião. Nascia, assim, o futuro Painel da Loja.É bom lembrar, como nos contam, que nesses grupos, mesmo já não ten­do ou podendo ter profissionais das construções, a hierarquia foi mantida.

A simbologia

Não é difícil imaginar que, como os antigos profissionais, as ferramentas de trabalho passaram a ser utilizadas para exprimir idéias. Afinal, a humani­dade aprendeu a comparar. Talvez o artista, com um martelo e uma talhadeira, digo, um malho e um cin­zel, para ser mais elegante, pudesse facilmente demonstrar como seria fá­cil criar uma estátua, quando tivesse na mente o que queria. O que ele faria apenas com um cinzel? O que ele faria apenas com o malho? E se ele combi­nasse as duas ferramentas? É... dá par tirar uma boa lição! Se­não, vejamos.Essas ferramentas dos operários da construção permitem formar idéias in­teressantes. O material na pedreira ainda em estado bruto; a pedra traba­lhada para construir uma parede, o Maço, o Cinzel, a Régua, o Compasso, a mesinha de trabalho, a Prancheta, o Prumo... Ah, ia esquecendo: para construir um edifício sólido tem que ser com pedras de boa qualidade.Qualidade da Pedra BrutaSim, a pedra para construção tem que ser de qualidade. Caso contrário, uma ou algumas pedras podres podem comprometer toda a construção. O Edifício pode cair! Imaginem uma pedra na base: se ela for podre, o pi­lar pode cair. Se não colocar uma pe­dra de boa qualidade no fechamento de um arco de pedra caem ela e as colunas-arco que a sustentam. Se o material for de boa qualidade - eles sabiam - seria como as pontes romanas, que ficam cada vez mais fortes. Pois­ imaginamos como esses novos especuladores estavam aprendendo com os pedreiros!O Currículo mínimo da EscolaPenso que assim foram nascendo os programas de formação desses novos construtores. Agora já pensavam não em um edifício de pedra, mas, certamente, num Edifício Social. Sonhavam com uma sociedade em que as pedrinhas ou tijolos fossem coloca­dos nos lugares certos, num modelo perfeito. Imaginavam uma catedral e a construíam no ar, como uma visualização prévia, como um sonho a ser realizado.E, assim, novos grupos foram nas­cendo. Não se sabe como, mas o fato é que um novo grupo copiava do outro grupo já consolidado as obrigações que esse novo grupo deveria ter. Tem até um nome bonito para esse documen­to: Old Charges! Digamos obrigações. Talvez tenha nascido aí o esboço dos primeiro ritos!Provavelmente, para organizar me­lhor, o coordenador desses grupos, demasiadamente ocupado em cons­truir a catedral de São Paulo, na mar­gem direita do Tâmisa, e também da reconstrução da cidade que passara por um incêndio, teve apoio -talvez não tivesse sido exatamente assim - de um grupo que acabou "organizando" esses diversos grupos que chamavam de Lojas.Aí, quatro dessas Lojas, que leva­vam os nomes das tabernas onde eles se reuniam, resolveram "burocratizar" a Maçonaria: chamaram de Grande Loja de Londres! Foi a primeira, a matriz! Ah, a Maçonaria passou a ter um chefe! Aí, a Maçonaria que funcionava como Maçom Livre em Loja Livre, de forma definitiva, amplia seu poder e cria o seu próprio território: A Obediência!Mas, e o programa básico, o currí­culo de formação desses novos "ope­rários"? Foi nascendo aos poucos. Em primeiro lugar, um grupo de trabalho reuniu o que já tinha sido feito. Defini­ram o que não poderia ser trocado para tornar perene a Ordem. Chamaram de LANDMARKS. É, porque como essa pedra para marcar os limites de uma propriedade, era coisa séria e imutá­vel. Assim quiseram fazer ao estabe­lecer alguns princípios que pretendiam fossem etenos. Em seguida - ou qua­se ao mesmo tempo -, esse grupo de trabalho apresentou um documento que levou o nome de seu relator, e que passou a ser a Carta Magna da Ordem. Chamaram-na de Constituição de Anderson.

A Carta Magna do Maçom

A Carta Magna da Maçonaria tem muita coisa interessante: determina a obediência à Lei Moral, conta a histó­ria lendária da Maçonaria, é deísta (en­tendimento de Deus pela razão), e in­troduziu a expressão Grande Arquite­to do Universo. Veio a público, pela primeira vez, meia dúzia de anos de­pois da criação da Grande Loja de Lon­dres. Aos 41 anos do século seguin­te, foi reformulada - menos em seu conteúdo - em sua segunda edição. Mas, ela joga o nascimento da Ordem ao tempo de Adão e Eva, o que não agrada aos que estudaram o as­sunto com base nas informações hoje disponíveis. Acham que a origem não foi tão longe. Mas, mesmo assim, ela dita o primeiro grande programa de formação quando dá as primeiras pin­celadas do que deve saber o Aprendiz e o Companheiro. Nem toca no Mes­tre, que veio a ser instituído bem mais tarde. O documento fala dos primórdios da Maçonaria desde os descendentes de Adão, passando por Noé e a Arca, a Torre de Babei, os construtores, a herança egípcia, o Templo de Salomão, o que os israelitas apren­deram com os egípcios, e assim por diante. Rotula Moisés de Grão-Mestre, chama Salomão de Príncipe da Paz, do tempo que levaram para construir o Templo no qual foram envolvidos cer­ca de 180.000 trabalhadores (um pou­co exagerado, não é?)! Relembra que o Templo foi construído com a coope­ração de outro rei - o rei de Tiro - e mais um técnico também de Tiro. Faz uma bela figura: um rei sábio que ide­alizou a obra, outro que ajudou econo­micamente e outro com habilidade para harmonizar e construir o que foi imagi­nado. Descreve o Templo, fala de Pitágoras e da geometria e esboça os deveres de um franco-maçom!Sabe qual é a impressão que se tem? Que os seus compiladores a viam apenas como uma organização de pro­fissionais conscientes, pois em toda a análise, desde Adão, fala mais dos construtores do que das qualidades morais e éticas de seus atores. Será? Como diz Eleutério: não teriam a inten­ção de recuperar a força das Guildas como organização?

Deveres de um maçom

A Carta Magna aponta aspectos concernentes a Deus e à religião; à Loja como local de reunião dos Franco-Maçons; da promoção dos membros, ressaltando o mérito pessoal; do com­portamento diante de forasteiros; do cultivo fraternal ao irmão e outros de­veres.Mas, afinal, o que fazem os maçons em Loja? Aprendem muita coisa. Em primei­ro lugar, um trabalho sistemático, em forma de Ordem e Disciplina. E, de uma forma geral, tudo deve ser conduzido para não aprovar a TIRANIA, trabalhar para adquirir CONHECIMENTO, a redu­ção dos PRECONCEITOS, trabalhar pelo DIREITO, pela JUSTIÇA e o trabalhoconstante na busca da VERDADE em todos os sentidos.E... para quê?Para promover o bem estar da PÁ­TRIA e da HUMANIDADE, a busca de uma vida VIRTUOSA e a eliminação do VICIO. E assim, tornar FELIZ A HUMANIDADE, pra­ticando o AMOR UNIVERSAL, colabo­rando no aperfeiçoamento dos COSTU­MES pela pratica da TOLERÂNCIA, lu­tar pelos princípios da IGUALDADE e ter um comportamento de respeito à AUTORIDADE e à RELIGIÃO. Reúnem-se sob a proteção do Gran­de Arquiteto do Universo, têm São João Batista como patrono e devem estar vinculados a uma POTENCIA ou OBE­DIÊNCIA maçônica. Antes, têm que passar pela Inicia­ção. Um homem LIVRE e de BONS COS­TUMES, de uma forma ampla, apresen­ta-se como um adepto em busca da Luz Maçônica. Em alguns ritos, como o REAA, usando um pouco de práticas da alquimia, passa por uma iniciação precedida por um período de reflexão e uma luta contra os ELEMENTOS (Ter­ra, Fogo, Água e Ar) como faziam os antigos. Segue sua caminhada numa escola que tem como moral o AMOR AO PRÓXIMO. Mas, depois de formado, o que se espe­ra do Maçom? Ué, depois que um médico ou um engenheiro conclui a sua universidade, ele vai para a sociedade exercer a sua profissão. A partir desse momento, ele pode continuar nessa universidade como forma de reciclar, de aprender mais, mas será ELE E NÃO A UNIVERSIDADE QUEM VAI FAZER O SEU TRABALHO NO CAMPO SOCIAL para formar a sociedade que ele imagina. Será ele quem vai exercer a sua profissão, o seu papel! Será ele e NÃO A UNIVERSIDADE! (Hamilton Savi - Florianópolis-SC)

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