quinta-feira, 11 de março de 2010

Artigo: O Arquiteto do Templo de Salomão - A/0747

O Arquiteto do Templo de Salomão

Não existe na história da franco-maçonaria, alguém cuja vida dependa tanto da tradição quanto Hiram Abif, o célebre arquiteto do templo do rei Salomão. Além do relato bíblico que considera sua mãe originária, ora da tribo de Neftali, ora da tribo de Dan, nada mais se sabe sobre a infância e adolescência desse arquiteto. Essa aparente contradição é resolvida pela maioria dos autores, mediante a suposição de que a mãe de Hiram Abif era viúva de um homem da tribo de Neftali, mas que, de nascimento, ela era da tribo de Dan. Essas duas tribos tinham o seu domicílio nas cercanias da cidade fenícia de Tiro. Para alguns comentadores da Bíblia, contrariando esse argumento de que tanto a mãe quanto o pai seriam fenícios, somente o pai biológico do Mestre Hiram, que se chamaria Ur, seria fenício. A mãe seria judia, o que tornaria Hiram Abif um judeu verdadeiro, porque filho de ventre judeu é sempre judeu. Ainda, segundo esses comentadores, sua mãe casou-se pela segunda vez, então com um homem de Tiro, que criou e educou seu filho com esmero, devendo-se a ele, ter sido Hiram Abif, um homem possuidor de muita sabedoria, compreensão e hábil artífice. Este homem contudo, não aparece na história e tampouco na lenda, mas que sem dúvida fora também um artífice e que transmitira ao filho adotivo, toda arte que conhecia. Isto nós podemos compreender bem, se levarmos em consideração que os segredos de artesão eram transmitidos de pai para filho, com muito mistério, sigilo e segurança. Pelo fato de Hiram Abif ser filho de uma viúva, essa expressão tornou-se vastamente usada pelos maçons, para, no mundo profano, designar outro maçom. Mas, nos conta a história, que David, rei de Israel, por artes de Betsabé, sua esposa e mãe de Salomão, assumiu com ela a promessa de que este o sucederia, contrariando o direito de primogenitura de Adonias, meio-irmão de Salomão e filho de David com Hagit. Adonias, vendo usurpados seus direitos de filho mais velho, rebelou-se quando Salomão foi ungido rei, o que fez com que este ao subir ao trono, o condenasse à morte bem como a todos que o seguiram. Apesar desses crimes, Salomão é tido como o mais glorioso rei de Israel e famoso por sua sabedoria, provada na sentença das duas mães que reclamavam o mesmo filho. Quando ordenou que cortassem o menino em dois, de modo que cada uma recebesse uma metade, a verdadeira mãe revelou-se ao ceder seus próprios direitos. Após a morte de seu pai, Salomão mandou dizer a Hiram, rei de Tiro, conforme III Reis 5:2,5: "Tu sabes o desejo de David meu pai e que lhe não foi possível edificar uma casa ao nome do Senhor seu Deus, em razão das guerras que lhe sobrevinham de todas as partes, enquanto o Senhor lhe não metesse debaixo dos pés os seus inimigos. Porém, agora o Senhor meu Deus me concedeu descanso por toda parte e não há contrário nem mau encontro. Pelo que, intento edificar um templo ao nome do Senhor meu Deus, conforme o que o Senhor ordenou a David meu pai dizendo: Teu filho, que eu farei assentar em teu lugar sobre o teu trono, este edificará um templo ao meu nome". Realmente David desejava construir um templo dedicado ao Senhor, porque o povo imolava e queimava incenso nas colinas, por não haver uma casa fixa de oração. Mas como esse rei tinha as mãos sujas de sangue, devido às constantes guerras, o Senhor impediu-o. Salomão manteve, então, uma longa troca de mensagens escritas e orais através de mensageiros e em contatos pessoais, após o que o rei Hiram enviou a Jerusalém, materiais para a construção do grande templo e uma leva de operários, chefiados pelo célebre artífice de seu reino, Hiram Abif. Esta atitude do rei de Tiro torna-se compreensível, porque não poderia ele dispensar milhares de operários, todos conhecedores da arte de construção, sem chefia. Mas, por que Salomão buscara em Tiro, bem distante de Jerusalém, os recursos totais para a construção do templo? Porque o povo judeu era essencialmente pastoril e porque Tiro era uma das principais sedes da Fraternidade Dionisíaca de Artífices que se dedicava exclusivamente à construção de templos, monumentos e palácios, cercada de uma organização secreta, como mais tarde ocorreria com os Franco-Maçons. Daquela fraternidade, evidentemente, tanto o padrasto de Hiram Abif como ele próprio deveriam fazer parte, pois não poderia o arquiteto Hiram, sozinho, criar um sistema perfeito, como foi o adotado para o controle absoluto de cento e cinqüenta mil operários. Trazia essa organização de Tiro. Assim, encontramos em II Reis 6:11, que aos quatrocentos e oitenta anos da saída dos filhos de Israel da terra do Egito, no quarto ano do reinado de Salomão, no mês de ziv (o segundo do calendário hebreu), começou-se a edificar no Monte Moriah, a casa para o Senhor, onde Israel voltaria a cumprir a lei de adorar a Jeová num local fixo, pois que cultuavam o Senhor num tabernáculo móvel. Quanto à profissão e aos talentos do nosso Hiram Abif, há uma boa dose de especulação. Em Reis, fala-se dele, simplesmente (sic!) como um trabalhador em bronze, responsável pelas duas imensas colunas de bronze à entrada do templo de Salomão e do mar de bronze, colocado fora do templo, de uns quatro metros e meio de diâmetro e dois metros e vinte e cinco centímetros de profundidade, com um volume calculado em dezesseis mil galões de água. Ele descansava sobre doze bois de bronze, três olhando para o norte, três para o ocidente, três para o sul e três para o oriente. Essa grande e magnífica bacia representava para os hebreus o grande abismo, como explica Heaton em seu livro "O Mundo do Antigo Testamento". Na concepção hebraica daqueles templos, a Terra seria redonda e lisa, ocupando o centro do mundo. Sobre ela estender-se-ia uma cúpula, o firmamento do céu, repousando bem firme sobre as montanhas pilares que se erguiam nas extremidades da Terra. No interior da cúpula estariam o sol, a lua e os outros astros. Do outro lado da cúpula, no céu, estariam as águas do firmamento que davam a chuva, a névoa e o granizo através das janelas do céu. Debaixo da Terra ficaria então, o grande abismo, um enorme mar de água no qual estariam mergulhados os pilares que sustentariam a Terra. Já no Livro das Crônicas, escrito, segundo alguns historiadores, séculos mais tarde, encontramos no capítulo 2:13,14, Hiram Abif dotado de capacidades e habilidades adicionais, como segue em carta do rei de Tiro ao seu colega de Israel: "Eu te envio pois, um homem sábio e inteligente, ... que sabe trabalhar em ouro e em prata, em bronze, em ferro e em mármore e madeira. Também em púrpura e em jacinto e em linho fino e escarlate e que sabe lavrar todo o gênero de escultura e inventar engenhosamente, tudo quanto é necessário em toda casta de obras e trabalhará com os teus artífices e com os artífices de teu pai David, meu senhor". No capítulo 4:14,15 encontramos: "Fez também as bases e as bacias que pôs sobre as bases: um mar e doze bois por baixo do mar (referindo-se ao mar de fundição, que era enchido com água purificada). E os caldeirões e os garfos. Hiram seu pai fez a Salomão todos os vasos de bronze mui puro para a casa do Senhor". Para Rizzardo da Camino, a última notícia que temos sobre o mar de bronze nos diz que os babilônios, depois de invadirem a Palestina, levaram-no e fundiram-no novamente para a fabricação de objetos profanos. Os Irmãos devem ter notado que há pouco eu me referi a "Hiram seu pai" o que dá a impressão de ser outra pessoa que não o nosso Hiram Abif. Isso se deve, segundo o Dr. Poole, tão somente à tradução literal do termo "abiv" do original hebraico. Tomando-se ao pé da letra, "ab" quer dizer "pai"; "Abi" significa "meu pai" e "abiv" (pronuncia-se abif) traduz-se por "seu pai". Portanto, Hiram seu pai e Hiram Abif são a mesma pessoa. Pelos trechos das Crônicas citados anteriormente e por outros mais, temos a impressão que o artífice abarcava em suas mãos toda a responsabilidade da construção do grande templo, executando os planos, elaborando os desenhos, fazendo as esculturas e fundições, administrando os trabalhadores, efetuando o pagamento e ainda, atendendo toda sorte de dificuldades que surgiam. Por vezes, o relato bíblico nos faz também crer, que Hiram Abif preparava desde as pedras do alicerce até a escultura dos querubins revestidos com folheado de ouro. Toda essa tarefa que se atribui a um só homem, teria sido impossível de realizar; Hiram Abif poderia ter sido o supervisor da obra, participando das reuniões com o rei Salomão e dando a sua orientação técnica, porém sempre se servindo da equipe vinda da cidade de Tiro. Essa cidade, que foi a capital da Fenícia, hoje se chama Sul e é um povoado pobre, em ruínas e de uns poucos milhares de habitantes. Em seu livro de pesquisas arqueológicas "E a Bíblia tinha razão", Werner Keller relata a expedição em 1937 de Nelson Glueck, pesquisador arqueológico, ao vale do deserto, próximo de Asiongaber no golfo de Akaba. Lá encontrou em escavações, formas e grande quantidade de escória de cobre e no meio duma muralha retangular circundante, surgiu uma vasta construção que, pela cor verde das paredes, deixava perceber, facilmente, que se tratava dum forno de fundição. Porém, algumas dúvidas pairavam na cabeça de Glueck. Por que motivo as usinas se encontravam na região das tempestades de areia, que sopravam do norte, quase ininterruptamente, através do vale do deserto? Por que não foram construídas a algumas centenas de metros mais adiante ao abrigo das colinas e onde corriam também as fontes de água doce? Só no último período das escavações ele obteve a resposta a estas perguntas. As paredes de tijolo do forno de fundição apresentavam duas fileiras de buracos. Eram condutos de fumaça, um sistema bem estudado de canais de ventilação, sempre orientado, exatamente, na direção norte-sul. Portanto, os eternos ventos e tempestades do vale deviam assumir o papel de enormes foles. Isso foi há três mil anos; hoje se injeta o ar por meio de pressão, para dentro desses fornos. Glueck continua o seu relato dizendo que nesses fornos era produzido o metal para os objetos do culto do templo de Salomão, para o altar de bronze, para o mar de fundição, para os caldeirões, panelas e taças e para as duas altas colunas, Jackin e Booz, destinadas ao pórtico do templo de Jerusalém. Hoje, no local onde foi construído o templo de Salomão, ergue-se a grande mesquita islamita de Omar. Quanto à religião, a existência da Fraternidade Dionisíaca em Tiro, faz crer que seu rei cultuava a outros deuses que não Jeová, e, por conseguinte, Hiram Abif deveria ter a mesma religião que o rei de Tiro. Com relação à personalidade do arquiteto do templo, o que temos é um relato de Mackey, baseado em velhos escritos: "Era seu hábito nunca transferir para outro dia o trabalho que poderia ser realizado hoje, pois era ele tão extraordinário pela sua pontualidade na execução dos deveres mais insignificantes, como era pela sua habilidade em realizar os mais importantes". De modo geral, essa é a parte da história que pode ser confirmada pelas Sagradas Escrituras e pela arqueologia. A Bíblia descreve a construção do templo de Salomão. Hiram Abif, o arquiteto, existiu, a história dos hebreus o prova, porém o relato bíblico nada menciona sobre o assassinato de nosso grande Mestre, o que nos leva a deduzir que só posteriormente foi criada a lenda de seu martírio. O nascimento da lenda está envolto em mistérios, como convém aos assuntos maçônicos e dentro dela encontramos a resposta às nossas dúvidas e buscas. Entre a lenda e a verdade, apenas há como elo de ligação, a fé, a nossa fé maçônica.


FONTES DE CONSULTA: BÍBLIA SAGRADA, Tradução do Padre Figueiredo, Antonio Pereira, Editora Barsa - 1965 E A BÍBLIA TINHA RAZÃO, Werner Keller, Editora Melhoramentos - 1960 COMENTÁRIOS SOBRE MORAL E DOGMA, Clausen, C. Henry, Neyenesch Impresssores – S/DDICIONÁRIO DE MAÇONARIA, Joaquim Gervásio de Figueiredo, Editora Pensamento - 1990 GRANDE DICIONÁRIO MAÇÔNICO, Rizzardo da Camino, Editora Aurora - 1990 LENDAS MAÇÔNICAS, Rizzardo da Camino, Editora Aurora - 1982 O MUNDO DO ANTIGO TESTAMENTO, E. W. Heaton, Zahar Editores - 1965 O TEMPLO DO REI SALOMÃO NA TRADIÇÃO MAÇÔNICA, Alex Horne, Editora Pensamento - 1991 SIMBOLISMO DO TERCEIRO GRAU, Rizzardo da Camino, Editora Aurora - 1989

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