sexta-feira, 12 de março de 2010

Glauco, o Cartunista


Mistério na morte do cartunista Glauco

A polícia suspeita de um ex-frequentador
da igreja Céu de Maria, fundada pelo cartunista.
Para o advogado da família, foi uma tentativa de assalto

Glauco Villas-Boas (1957-2010)O cartunista havia completado 53 anos na quarta-feira (10)
Na biografia do cartunista Glauco, a última tirinha não teve nenhum dos traços do humor sarcástico que ele criava diariamente desde a década de 1970. Caso fossem desenhados, os quadrinhos finais da vida de Glauco mostrariam uma sequência de cenas violentas – e com um desfecho trágico. Duas versões, uma da polícia e outra do advogado da família, foram dadas para explicar o que teria ocorrido. Segundo declarações do advogado Ricardo Handro, dois bandidos que aparentavam estar drogados invadiram a casa onde Glauco vivia com a mullher e os filhos. A família morava num lugar afastado, numa comunidade de apenas dez casas próxima à área de preservação do Pico do Jaraguá, em Osasco, na Grande São Paulo. O local abriga também a sede da igreja Céu de Maria, fundada por Glauco e frequentada por adeptos do Santo Daime – a religião que usa em seus rituais um chá alucionógino. Na versão de Handro, o que teria começado com uma tentativa de assalto, por volta da 0h30, caminhou para dois homicídios. Baleados com quatro tiros cada um, Glauco Villas-Boas, de 53 anos, e seu filho mais velho, Raoni Ornellas Pires Villas-Boas, de 25 anos, morreram antes de chegar ao Hospital Albert Sabin, na Lapa, na Zona Oeste de São Paulo.
Ainda segundo a versão do advogado Handro, os tiros foram disparados depois que os bandidos já haviam dado coronhadas em Glauco e pancadas na cabeça de sua mulher e da filha. Os assaltantes teriam tentado fazer um sequestro relâmpago, levando o cartunista como refém. Eles estariam saindo da casa no momento em que Raoni chegava, voltando da faculdade. Ao ver o pai ensanguentado, o rapaz teria tentado negociar com os ladrões, que reagiram atirando. A versão dada pela polícia difere – sobretudo quanto à autoria do assassinato e sua motivação. Na manhã de sexta-feira, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo afirmou que uma testemunha havia identificado um suspeito do crime. Ele seria um estudante universitário de classe média alta e ex-frequentador da igreja fundada por Glauco. A informação dada pela polícia descarta a hispótese de tentativa de assalto e aponta para uma desavença entre o suspeito – que teria ameçado se matar – e Glauco. No Boletim de Ocorrência, registrado na 1ª Delegacia de Osasco, aparece o nome de Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, de 24 anos como único suspeito. Ele teria feito os disparos usando uma pistola 765 e depois fugido num Gol. As informações são do delegado Archimedes Cassão Veras Júnior, do Setor de Investigações Gerais (SIG) da Delegacia Seccional de Osasco. Até a tarde da sexta-feira, o suspeito ainda não havia sido localizado.
Com a morte de Glauco terminam as histórias de uma dezena de personagens que ele criou. Nos quadrinhos que publicava diariamente desde 1984 no jornal Folha de S. Paulo, o cartunista popularizou os trejeitos estabanados de Geraldão – um solteirão que vive às turras com a mãe que não o deixa namorar e o espia tomando banho pelo buraco da fechadura –, as brigas eternas do Casal Neuras, o consumo abusivo de drogas de Doy Jorge, as profecias amalucadas de Zé do Apocalipse e o assédio da secretária Dona Marta sobre o chefe e os colegas de escritório. São criações que resumem aspectos da vida cotidiana e ajudaram a fazer uma cáustica crônica das últimas décadas. Em parceria com os colegas cartunistas Angeli e Laerte, que se reuniam na publicação Chiclete com Banana, Glauco criou a tira Los Três Amigos, com personagens escrachados inspirados nos próprios autores e que se expressavam em “portunhol”. Apesar do sarcasmo de seus personagens adutos, Glauco se aproximou do público infantil com um personagem feito para crianças, o Geraldinho, cujas histórias fechavam o caderno Folhinha, publicado aos sábados na Folha. Nascido em Jandaia do Sul, no Paraná, em 10 de Março de 1957, Glauco era casado e tinha três filhos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário