TENDÊNCIAS ATUAIS E MAÇONARIA
O Ir.’. Descartes de Souza Teixeira, na revista O Prumo de julho/agosto de 1997, faz excelente análise dos movimentos antimaçônicos no fim do séc. XX.
Não se limitando a descrevê-los nem a rebatê-los, contextualiza esses movimentos, situando-os no quadro sócio-político atual. Na sua origem, como Maçonaria dos Aceitos, ela representava uma ameaça a uma ordem política reacionária, mantida pela aliança de duas forças extremamente conservadoras: a Igreja e a aristocracia. Mas porque a Maçonaria representava uma ameaça, se era originalmente formada por aristocratas, burgueses e clérigos? Só se combate aquilo que representa uma ameaça, seja ela real ou imaginária.
“Imaginavam seus mentores que Homens de diversas crenças e origens, comprometidos por juramento firmado secretamente, sujeitos a penalidades severas em caso de perjúrio, estariam urdindo uma campanha para destruição da Igreja e da ordem secular constituída” (p.6).
No início do século XX, a igreja Católica na Europa ganhou novos aliados na luta antimaçônica: os regimes fascistas na Espanha, Itália e Portugal que, por sua própria natureza ditatorial - como também ocorreu nos países comunistas - eram antagônicos a qualquer tipo de associação livre, especialmente uma que se propunha a ser contrária a qualquer forma de opressão.
Hoje, no fim do século, as investidas antimaçônicas, originadas principalmente nos grupos cristãos fundamentalistas norte-americanos, possuem outra motivação: “Nossa tese, (...) é que as transformações pelas quais passa o mundo atual, vivendo o chamado pós-modernismo, com a chamada globalização da economia, as facilidades de comunicação, a migração crescente de grupos populacionais, o desenvolvimento vertiginoso, o avanço da ciência e da tecnologia criando novos paradigmas e derrubando mitos, e a queda das barreiras políticos-ideológicas leste/oeste com o fim do comunismo soviético, estão engendrando crescente radicalização em grupos nacionalistas conservadores, em varias regiões do planeta”. Ressalta que os novos confrontos, como se pode ver nos conflitos regionais que eclodem em todo o globo, são natureza cultural, “no qual a religião tem papel preponderante” e, como diz Samuel Huntington, "multipolar e multicivilizacional” (p.10-11).
A tese do Ir.’. Descartes é absolutamente consistente. Poderíamos ampliá-la ainda mais, especialmente quando ao aparente paradoxo de que o processo de globalização engendra um movimento de radicalização nacionalista, regionalista, grupal, acrescentando uma hipótese referente ao processo de expansão capitalista, que veio a originar a globalização: o capitalismo é um sistema de natureza classista e, conseqüentemente, privatizante/individualista. É condição de sua sobrevivência, contudo, ter que se expandir em mercados cada vez mais amplos. Começando por estender-se a nível nacional - dando origem aos Estados-Nações modernos - o capitalismo, posteriormente, espraiou-se por todo o planeta, caracterizando fases específicas bem conhecidas de seu desenvolvimento.
A universalização de qualquer processo, contudo, num dado momento passa a engendrar um ator de espírito igualmente universal, ao qual fronteiras de qualquer espécie (geográfica, religiosa, ideológica) acabam por se tornar intoleráveis. A experiência da globalização acaba por fazer surgir uma leitura holística de mundo, uma sensação da unidade do todo, como se exemplifica nas preocupações atuais. O cosmopolitismo, no nível social, e a secularização, no nível religioso, são exemplos disso, decorrentes, um da expansão geográfica e outro da expansão do conhecimento.
Essa contradição engendrada pelo processo de expansão capitalista talvez seja hoje mais revolucionária que a velha esperança do conflito de classes, pois que se dá ao nível da formação da consciência.
Esse movimento de rompimento das fronteiras, com a conseqüente criação da aldeia global, acaba se constituindo em uma ameaça econômica, política e ideológica aos velhos e seguros redutos do indivíduo, da família, da região etc, pois que a expansão quantitativa das relações, trazem conseqüências que afetam até o nível das relações interindividuais.
A primeira reação de medo a essa mudança, no nível psicológico (melhor diríamos psicossocial), é o apego rígido ao “conhecido”, embora o “conhecido” aqui signifique o passado, as velhas formas de relações tradicionais: regionais, nacionais, religiosas.
Não se trata aqui de afirmar o fim do sentimento regionalista, nacionalista ou religioso, trata-se, isso sim, de levantar a hipótese de que, no processo de globalização, esse espírito terá que adquirir novas formas, mais consentâneas com a realidade que se impõe.
Estaríamos, então, se esta hipótese tem alguma validade, vivendo os espasmos de agonia do “velho mundo” que luta para não mudar.
A excelente análise do Ir.’. Descartes, finalmente, põe a descoberto uma verdade das mais incômodas: a Maçonaria, por sua natureza humanista, libertária e universalista, se situa sempre no futuro, constituindo-se num paradigma ideal tanto para regimes que se digam democráticos quanto para práticas que se pretendam morais ou religiosas. Exatamente por isso se torna e se tornará sempre intolerável para a práxis de instituições intolerantes ou opressoras.
Disso decorre ainda que, quando a Maçonaria não estiver sendo atacada ou perseguida, ou ela não estará cumprindo seu papel ou estará traindo seu ideal.
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