sábado, 12 de outubro de 2013

Pensamento - VII.CDXX - 7420

"É impossível que o tempo atual não seja
o amanhecer doutra era, onde os homens
signifiquem apenas um instinto às ordens
da primeira solicitação. Tudo quanto era
coerência, dignidade, hombridade, respeito
humano, foi-se. Os dois ou três casos pessoais
que conheço do século passado, levam-me
a concluir que era uma gente naturalmente
cheia de limitações, mas digna, direita, capaz
de repetir no fim da vida a palavra com que
se comprometera no início dela. Além disso
heroica nas suas dores, sofrendo-as ao mesmo
tempo com a tristeza do animal e a grandeza
da pessoa. Agora é esta ferocidade que se vê,
esta coragem que não dá para deixar abrir
um panarício ou parir um filho sem anestesia,
esta tartufice, que a gente chega a perguntar
que diferença haverá entre uma humanidade
que é daqui, dali, de acolá, conforme a brisa,
e uma colónia de bichos que sentem a umidade
ou o cheiro do alimento de certo lado, e não têm
mais nenhuma hesitação nem mais nenhum
entrave." (Miguel Torga)

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