Pelo que
diz a imprensa brasileira, não existe uma pessoa na face da Terra que não
conheça o Rei do futebol. Não
existe um roteiro para se formar um mito. Ele se constitui por várias
vertentes. No caso de Pelé, ele mesmo contribuiu decisivamente para sua posição
inquestionável de maior de todos os tempos no futebol. Não sei a partir de
quando, mas ele trata o jogador na terceira pessoa, exatamente para se descolar
da pessoa humana e colocá-lo na dimensão inalcançável dos deuses.
Seus
números são incontestáveis na totalidade. Isolados, muitos já foram superados.
A começar pela questão dos gols em estaduais paulistas. Esse tipo de campeonato
nunca existiu na Europa, o continente páreo ao sul-americano no futebol.
Sobre
seus títulos, começa com as três Copas do Mundo, mas só jogou para valer em
duas. No Mundial de 1962 se contundiu logo no segundo jogo. Mas o título já o
torna único a vencer três Copas como jogador.
Nos
títulos de clubes, ficou sua marca registrada por ter vencido duas Libertadores
e dois Mundiais. Mas os brasileiros sempre usaram a desculpa de que nossos
clubes não se interessavam pelo principal torneio da América do Sul, numa
tremenda contradição, já que o Santos sempre foi enaltecido exatamente por
tê-lo vencido em duas oportunidades.
No
período de Pelé como jogador do Santos, 1960 a 1974, esse mesmo torneio foi
vencido três vezes pelo Estudiantes e pelo Peñarol, e cinco pelo Independiente.
Na sua trajetória de Libertadores marcou 17 gols, tendo sido artilheiro apenas
em 1965, cm 7 tentos, uma das menores artilharias desse período. Em quantidade
de artilharia foi suplantado pelas duas vezes de Fernando Morena (Uruguai),
Néstor Scotta (Colômbia) e Salvador Cabañas (Paraguai).
O décimo
artilheiro de todos os tempos da Libertadores tem 9 gols a mais do que o Mito.
Já o equatoriano Alberto Spencer, o maior artilheiro de todos os tempos, tem 37
gols a mais do que Pelé. Também suplantou com as três Libertadores vencidas e
empatam em Mundiais de Clubes.
Da Copa
do Mundo, nunca foi artilheiro e ocupa a 4ª posição em todos os tempos,
ultrapassado pelos 13 gols de Just Fantaine (França), 14 dos alemães Gerd Muller
e Klose e pelos 15 de Ronaldo Fenômeno, o recordista.
Nos
campeonatos nacionais suas marcas estão longe de algo extraordinário. Marcou 34
gols em 84 partidas no Campeonato Nacional, na Taça de Prata 36 em 56 jogos, na
Taça Brasil jogou 33 e marcou 30 e mais 49 nas 53 partidas que disputou pelo
Roberto Gomes Pedrosa. Tem um total de 159 gols. Lionel Messi o ultrapassa na
Liga dos Campeões da Europa. E acredito que ninguém pode ousar dizer que os
vários campeonatos brasileiros sejam ou foram mais difíceis do que a UEFA
Champions League.
Esses são
dados concretos, de fato. Só que o futebol envolve muita subjetividade e se
trata de um esporte coletivo, que não depende exclusivamente do indivíduo, mas
se aplica a todos. O Rei se torna um deus no campo subjetivo. Ele deu o maior
drible da história e perdeu o gol. Ele deu um chute do meio-campo tentando
encobrir o goleiro, lance já inúmeras vezes repetidos e com a efetividade dos
gols. Sobram as histórias contadas pelos súditos e historiadores. A maioria não
foi gravada e por ter se tornado mito, o que seria um lance normal para
qualquer outro jogador, para ele é algo de outra galáxia. Aqueles registrados
pelas imagens já foram realizados por outros.
Outra
distorção é aceitar a separação atleta do cidadão. Ele, Pelé, que tanto se
notabilizou por defender as crianças pobres do Brasil, não reconheceu uma filha
fora do casamento e não teve a sensatez de comparecer ao enterro.
Suas
manifestações são notórias pela infelicidade. Em consequência, as desavenças
com outros atletas destacados são recorrentes. Na transferência para a Udinese,
em 1983, Zico foi até deselegante ao afirmar que da boca de Pelé e do bumbum de
criança saem a mesma coisa. Romário foi mais criativo e reforçou ao afirmar que
o Rei calado é um poeta.
No conjunto
da obra, se quem presenciou tem o direito a afirmar que nunca viu nada igual,
não pode querer tapar a boca de quem relativiza e compara a outros atletas.
Costumam dizer que não se pode comparar por serem de "épocas
diferentes". A recíproca tem de ser verdadeira. Também não pode servir
para torná-lo um ser Supremo.
(Pedro
Cardoso da Costa – Interlagos/SP)

Nenhum comentário:
Postar um comentário