domingo, 15 de dezembro de 2013

Artigo: Iniciação e Batismo - A/1372

Iniciação e Batismo são termos
equivalentes na Espiritualidade

Ambos, batismo e iniciação ou iniciação e batismo, enquanto rito de purificação e de uma nova conduta moral e religiosa parecem conter a gênese do simbolismo universal de renascimento de homens e de mulheres para uma nova vida no mundo presente. O Batismo de Jesus por João parece sugerir um ritual de Iniciação nos mistérios do Reino de Deus. A ideia é que, embora o Batismo fosse uma prática ritual presente em diversas religiões, desde tempos imemoriais, o Batismo de Jesus por João não teve o mesmo significado que tinha para o universo religioso judaico da época.

Através dos tempos, o homem e a sua comunicação com o sagrado, vem buscando caminhos espirituais enquanto compartilham a crença de que poderia, de alguma maneira, integrar o reino divino a este mundo presente. A busca por algo transcendente parece ainda ter levado milhares a procurar um mestre ou um sacerdote, a fim de que lhes guiasse no encontro com Deus. Neste contexto, o homem seria o responsável por conduzir o aspirante à passagem de Iniciação dentro dos mistérios sagrados.
Na antiguidade, era o hierofante o Homem Sagrado a quem cabia explicar aos candidatos à Iniciação os vários fenômenos da criação. Era um título dado aos mais elevados Adeptos nos Templos, àqueles que, mediante desenvolvimento espiritual alcançavam conhecimento e poderes transcendentais. Estes Iluminados podiam ser ordenados por seu predecessores, dos quais recebiam o poder de  hierofante. Entre estas doutrinas podemos considerar alguns cultos de mistério dedicados a Ísis, Orfeu e Mitra.

Em seu texto sobre a existência humana e a vida santificada, o historiador das religiões Mircea Eliade fala do homo religiosus que está aberto para o mundo e acessível às mais diversas experiências cósmicas que são sobretudo religiosas, uma vez que o mundo é sagrado. Segundo Eliade, o homem religioso está em comunicação com os deuses e participa da santidade do mundo. Há, portanto, a revelação de um espaço sagrado que constitui, para este homem, uma experiência primordial, a de criação do mundo, fundado a partir do centro. O universo origina-se a partir do seu centro e dele estende-se. No mundo greco-romano do primeiro século podemos aplicar o pensamento de Eliade sobre o cosmo e o centro do mundo observando a Palestina, Jerusalém e o Templo de Jerusalém como representantes desta ideia.
Sob a ótica da ciência da religião, o professor Gerd Theissen, em seu texto "Crises do cristianismo primitivo" considera que, no período helenista, as pessoas haviam-se contentado com uma síntese das diversas religiões pela identificação de diversos deuses, afinal, por trás de todos eles via-se o mesmo Deus. A partir desse princípio, a Iniciação está associada a um novo nascimento, um novo começo, uma nova vida. Uma vez nascido, o homem ainda não está totalmente acabado; deve nascer uma segunda vez: espiritualmente. O simbolismo deste segundo nascimento foi retomado e valorizado pelo judaísmo alexandrino e pelo cristianismo, conforme relatos da própria história.

De uma religião a outra, de uma gnose ou de uma sabedoria a outra, o tema imemorial do segundo nascimento enriquece-se com novos valores, que mudam por vezes radicalmente o conteúdo da experiência. Permanece porém um elemento comum que poderia definir-se, considerando que o acesso à vida espiritual comporta sempre a morte para a condição profana, seguida de um novo nascimento.
As fontes gregas costumam designar os batizados de Iniciação e, segundo Michel-Yves Perrin, o "uso metafórico da terminologia dos cultos a mistérios politeístas" teve ampla propagação a partir da época helenista. Nos mistérios havia, em todos os países, uma série de representações dramáticas nas quais eram ensinados os mistérios da cosmogonia e da natureza do espírito humano. Nestes ritos, as diferentes deidades eram personificadas por sacerdotes e neófitos que representavam cenas ou alegorias de suas respectivas vidas. Durante as cerimônias estas alegorias eram explicadas em seu sentido oculto. As religiões de mistérios, segundo estudos do professor Gabriele Cornelli, prometiam ainda a divinização dos adeptos.

Henderson evidencia a questão da renúncia a qualquer tipo de aspiração ou ambição. A renúncia deve ser realizada pelo postulante à Iniciação.  Assim,  estará preparado para submeter-se a uma prova iniciática que deve aceitar sem ter a esperança de obter o sucesso, ou seja, o postulante deve estar preparado para morrer. Benigno ou doloroso, o propósito da provação permanece o mesmo, que é criar uma atmosfera de morte simbólica, a partir da qual um estado de espírito simbólico de renascimento irá surgir no novo homem. A Iniciação é uma maturidade espiritual em que o Iniciado é um homem que sabe, que conhece os mistérios e que teve revelações de ordem metafísica. Sobre este ponto, foi considerada a prática de imersão na água pelo ritual do Batismo como foco principal desta representatividade iniciática.
No Evangelho Apócrifo atribuído a Maria, os discípulos questionaram a respeito de Iniciação e Batismo. André então tomou a palavra e dirigiu-se a seus irmãos: 'O que pensais vós do que ela acaba de contar? De minha parte, eu não acredito que o Mestre tenha falado assim; estes pensamentos diferem daqueles que nós conhecemos'. Pedro ajuntou: 'Será possível que o Mestre tenha conversado assim, com uma mulher, sobre segredos que nós mesmos ignoramos? O pesquisador Jean-Yves Leloup situa Maria como a Iniciada que transmite os ensinamentos mais sutis de Yeshua. Leloup considera a dificuldade na aceitação do texto por parte de discípulos em razão da natureza metafísica do ensinamento.

O escritor e conferencista inglês Geoffrey Hodson, em sua obra A sabedoria oculta na Bíblia Sagrada, observa que durante as Iniciações, os candidatos passavam pela experiência em que a alma era desligada do corpo pelo transe divino e conduzida às esferas superiores, onde absorvia toda a sabedoria, poder e energia purificante. Retornava ao corpo geralmente após três dias e três noites. Repetida constantemente, esta experiência proporcionava ao candidato níveis cada vez mais elevados de consciência. Há referências simbólicas ao rito de Iniciação tanto no Velho como no Novo Testamento da Bíblia Cristã. Escrito entre 450 e 350 a.C, o livro de Jonas conta que ao receber uma missão designada por Iahweh, foge para o lugar mais longe possível, onde pudesse se esconder e abster-se de sua realização. Encaminha-se ele para o cais de Jope e parte juntamente com outros marinheiros até Tarso, lugar considerado o fim do mundo para os hebreus. No percurso, uma grande tempestade ameaça naufragar o navio. Os marinheiros lançam as sortes para saber quem era o responsável pela desgraça e esta recai sobre Jonas. Lançado ao mar, Jonas é engolido por um grande peixe, onde permanece nas entranhas por três dias e três noites.1Lá, Jonas ora um cântico para Iahweh que o liberta jogando-o em terra firme. Por fim Jonas chega a Nínive cumprindo sua missão profética de livrar a cidade da destruição. Para os místicos, a interpretação é esta: "O navio refere-se ao corpo físico, fora do qual Jonas (a alma) foi lançado, indo para porção inferior do plano da emoção (o mar), até ser engolido por um grande peixe (a consciência crística da unidade com todos os seres) e aí permanecer três dias e três noites, sendo mais tarde depositado na Terra seca (retornado ao corpo e mundo físicos)". O Mestre Jesus fez alusão a este episódio, quando questiona: "como Jonas esteve no ventre do monstro marinho três dias e três noites, assim ficará o Filho do Homem, três dias e três noites no seio da Terra.".
A purificação associada à agua e ao período trino notamos noutro livro do Velho Testamento, em que Moisés e todo o povo devem purificar-se abstendo-se de atividade sexual por três dias antes da revelação do Sinai: Moisés desceu da montanha e foi encontrar-se com o povo; ele o fez santificar-se, e lavaram as suas vestes. Depois disse ao povo: 'Estai preparados para depois de amanhã e não vos chegueis à mulher'.

A Iniciação era para aqueles que, primeiramente renunciassem à sua atual conduta de vida. Dita de outra forma, um profeta que iria, segundo profecia de seu próprio pai, transmitir ao seu povo o conhecimento de salvação, pela remissão de seus pecados. Aqui podemos perceber a possibilidade da experiência do ensinamento metafísico conferido pelo homem sagrado mediante renúncia dos maus atos ou conduta por parte do postulante na condição de um homem renovado. Este homem anunciado chama-se João, e o instrumento para o nascimento do novo homem que ele irá conferir será chamado de Batismo. Mais que um rito de purificação judaico, o Batismo de Jesus sugere uma Iniciação ao mistério de Deus. .
Segundo o Glossário Teosófico, o "rito de purificação por meio da água já era muito antigo quando foi adotado pelos chrestianos dos primeiros séculos" e situa o Batismo pertencente à teurgia primitiva caldeia-acadiana; era religiosamente praticado nas cerimônias noturnas das pirâmides. Durante os mistérios Eleusinos eram praticados nos tanques sagrados do Templo. Também na Índia, durante as cerimônia de Iniciação, era celebrado o rito de purificação nos tanques sagrados. A imersão na água simboliza a regressão ao pré-formal, a reintegração no mundo indiferenciado da pré-existência. A imersão repete o gesto cosmogônico da manifestação formal; a imersão equivale a uma dissolução das formas. É por isso que o simbolismo das águas implica tanto a morte como o renascimento. O contato com a água comporta sempre uma regeneração: por um lado porque a dissolução é seguida de um novo nascimento, por outro lado porque a imersão fertiliza e multiplica o potencial da vida.
O simbolismo do homem velho que morre por imersão na água para renascer um novo homem, regenerado, encontra-se presente também homologada na literatura patrística.  Ele (o Batismo) representa a morte e a sepultura, a vida e a ressurreição... Quando mergulhamos a cabeça na água como um sepulcro, o homem velho é mergulhado, desaparece por completo; quando saímos da água, o homem novo aparece simultaneamente.

O Batismo é, para o cristão, um sacramento porque foi instituído por Cristo, mas nem por isso deixa de buscar o ritual iniciático da prova, que é a luta contra o monstro, da morte e da ressurreição simbólica, representada pelo nascimento do homem novo. Este ato sublime é a valorização do Batismo como descida ao abismo das águas para um duelo com o monstro marinho. Esta descida tem um modelo: o de Cristo no Jordão, que era ao mesmo tempo uma descida às Águas da Morte. Essa atitude é acompanhada por uma caracterização crescente desses rituais como mistérios que necessitam de uma Iniciação.
Para Henri Durville o Batismo nada tinha de novo para o povo hebreu, uma vez que este ritual constituía um legado muito antigo em que estavam submetidos os Iniciados do Egito. João via que nesta Iniciação algo mais que a ablução era necessário: esforço e temor. O autor situa o Batismo de João como vestígio da prova iniciática pela água como acontecia nos mistérios de Ísis, e analisa um ponto em comum entre estes dois momentos batismais: para ambos, o Batismo representava a purificação da alma exercendo uma impressão, uma estampa, um sinal sobre os sentidos do postulante.

A máxima no momento do Batismo, era: “Produzi, então, fruto digno de arrependimento” e ainda: "Temos por pai a Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores e toda árvore que não produzir bom fruto será cortada e lançada ao fogo. Eu vos batizo com água para o arrependimento, mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. De fato, eu não sou digno nem ao menos de tirar-lhes as sandálias. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo.” Aconteceu, naqueles dias, que Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi batizado por João no rio Jordão. E, logo ao subir da água, ele viu os céus se rasgando e o Espírito, como uma pomba, descer até Ele, e uma voz veio dos céus: "Tu és meu Filho amado, em ti me comprazo.
As descobertas dos manuscritos do Mar Morto parecem colaborar para uma nova leitura de João relacionando-o no contexto de um grupo conhecido por essênios. O professor Michael White, da Universidade do Texas, acredita, como outros pesquisadores, que os manuscritos do Mar Morto foram produzidos pela comunidade dos Essênios. Os essênios são um grupo que, literalmente, abandonaram Jerusalém. Parece que foi na forma de protesto contra o modo como o Templo funcionava. E vão para o deserto fugir do que consideram a secularização de Jerusalém e do Templo. Como doutrina dos Essênios,  o Batismo era o que mais atraía em João e passagem do livro Antiguidades, do historiador Flavio Josefo informa que João parece ser descrito como um santo homem. Então, João aplicou o Batismo em Água, como um símbolo de uma nova vida, e também como um ato complementar da tradicional Iniciação em terras do Egito.

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