equivalentes na Espiritualidade
Ambos, batismo e iniciação ou iniciação e batismo, enquanto rito de purificação e de uma nova conduta moral e religiosa parecem conter a gênese do simbolismo universal de renascimento de homens e de mulheres para uma nova vida no mundo presente. O Batismo de Jesus por João parece sugerir um ritual de Iniciação nos mistérios do Reino de Deus. A ideia é que, embora o Batismo fosse uma prática ritual presente em diversas religiões, desde tempos imemoriais, o Batismo de Jesus por João não teve o mesmo significado que tinha para o universo religioso judaico da época.
Através dos tempos,
o homem e a sua comunicação com o sagrado,
vem buscando caminhos espirituais enquanto compartilham a crença de que
poderia, de alguma maneira, integrar o reino divino a este mundo presente. A
busca por algo transcendente parece ainda ter levado milhares a procurar um
mestre ou um sacerdote, a fim de que lhes guiasse no encontro com Deus. Neste
contexto, o homem seria o responsável por conduzir o aspirante à passagem de
Iniciação dentro dos mistérios sagrados.
Na antiguidade, era o hierofante o Homem Sagrado a quem cabia explicar
aos candidatos à Iniciação os vários fenômenos da criação. Era um título dado
aos mais elevados Adeptos nos Templos, àqueles que, mediante desenvolvimento
espiritual alcançavam conhecimento e poderes transcendentais. Estes Iluminados
podiam ser ordenados por seu predecessores, dos quais recebiam o poder de hierofante. Entre estas doutrinas podemos
considerar alguns cultos de mistério dedicados a Ísis, Orfeu e Mitra.
Em seu texto sobre a existência humana e a vida santificada, o
historiador das religiões Mircea Eliade fala do homo religiosus que está
aberto para o mundo e acessível às mais diversas experiências cósmicas que são
sobretudo religiosas, uma vez que o mundo é sagrado. Segundo Eliade, o homem religioso
está em comunicação com os deuses e participa da santidade do mundo. Há,
portanto, a revelação de um espaço sagrado que constitui, para este homem, uma
experiência primordial, a de criação do mundo, fundado a partir do centro. O
universo origina-se a partir do seu centro e dele estende-se. No mundo
greco-romano do primeiro século podemos aplicar o pensamento de Eliade sobre o
cosmo e o centro do mundo observando a Palestina, Jerusalém e o Templo de
Jerusalém como representantes desta ideia.
Sob a ótica da ciência da religião, o professor Gerd Theissen, em seu
texto "Crises do cristianismo primitivo" considera que, no
período helenista, as pessoas haviam-se contentado com uma síntese das diversas
religiões pela identificação de diversos deuses, afinal, por trás de todos eles
via-se o mesmo Deus. A partir desse princípio, a Iniciação está associada a um
novo nascimento, um novo começo, uma nova vida. Uma vez nascido, o homem ainda
não está totalmente acabado; deve nascer uma segunda vez: espiritualmente. O
simbolismo deste segundo nascimento foi retomado e valorizado pelo judaísmo
alexandrino e pelo cristianismo, conforme relatos da própria história.
De uma religião a outra, de uma gnose ou de uma sabedoria a outra, o
tema imemorial do segundo nascimento enriquece-se com novos valores, que mudam
por vezes radicalmente o conteúdo da experiência. Permanece porém um elemento
comum que poderia definir-se, considerando que o acesso à vida espiritual
comporta sempre a morte para a condição profana, seguida de um novo nascimento.
As fontes gregas costumam designar os batizados de Iniciação e, segundo
Michel-Yves Perrin, o "uso metafórico da terminologia dos cultos a
mistérios politeístas" teve ampla propagação a partir da época helenista.
Nos mistérios havia, em todos os países, uma série de representações dramáticas
nas quais eram ensinados os mistérios da cosmogonia e da natureza do espírito
humano. Nestes ritos, as diferentes deidades eram personificadas por sacerdotes
e neófitos que representavam cenas ou alegorias de suas respectivas vidas.
Durante as cerimônias estas alegorias eram explicadas em seu sentido oculto. As
religiões de mistérios, segundo estudos do professor Gabriele Cornelli,
prometiam ainda a divinização dos adeptos.
Henderson evidencia a questão da renúncia a qualquer tipo de aspiração
ou ambição. A renúncia deve ser realizada pelo postulante à Iniciação. Assim, estará preparado para submeter-se a uma prova
iniciática que deve aceitar sem ter a esperança de obter o sucesso, ou seja, o
postulante deve estar preparado para morrer. Benigno ou doloroso, o propósito
da provação permanece o mesmo, que é criar uma atmosfera de morte simbólica, a
partir da qual um estado de espírito simbólico de renascimento irá surgir no
novo homem. A Iniciação é uma maturidade espiritual em que o Iniciado é um
homem que sabe, que conhece os mistérios e que teve revelações de ordem
metafísica. Sobre este ponto, foi considerada a prática de imersão na água pelo
ritual do Batismo como foco principal desta representatividade iniciática.
No Evangelho Apócrifo atribuído a Maria, os discípulos questionaram a
respeito de Iniciação e Batismo. André então tomou a palavra e dirigiu-se a
seus irmãos: 'O que pensais vós do que ela acaba de contar? De minha parte, eu
não acredito que o Mestre tenha falado assim; estes pensamentos diferem
daqueles que nós conhecemos'. Pedro ajuntou: 'Será possível que o Mestre tenha
conversado assim, com uma mulher, sobre segredos que nós mesmos ignoramos? O
pesquisador Jean-Yves Leloup situa Maria como a Iniciada que transmite os
ensinamentos mais sutis de Yeshua. Leloup considera a dificuldade na aceitação
do texto por parte de discípulos em razão da natureza metafísica do ensinamento.
O escritor e conferencista inglês Geoffrey Hodson, em sua obra A
sabedoria oculta na Bíblia Sagrada, observa que durante as Iniciações, os
candidatos passavam pela experiência em que a alma era desligada do corpo pelo
transe divino e conduzida às esferas superiores, onde absorvia toda a
sabedoria, poder e energia purificante. Retornava ao corpo geralmente após três
dias e três noites. Repetida constantemente, esta experiência proporcionava ao
candidato níveis cada vez mais elevados de consciência. Há referências simbólicas
ao rito de Iniciação tanto no Velho como no Novo Testamento da Bíblia Cristã. Escrito
entre 450 e 350 a.C, o livro de Jonas conta que ao receber uma missão designada
por Iahweh, foge para o lugar mais longe possível, onde pudesse se esconder e
abster-se de sua realização. Encaminha-se ele para o cais de Jope e parte
juntamente com outros marinheiros até Tarso, lugar considerado o fim do mundo
para os hebreus. No percurso, uma grande tempestade ameaça naufragar o navio.
Os marinheiros lançam as sortes para saber quem era o responsável pela desgraça
e esta recai sobre Jonas. Lançado ao mar, Jonas é engolido por um grande peixe,
onde permanece nas entranhas por três dias e três noites.1Lá, Jonas
ora um cântico para Iahweh que o liberta jogando-o em terra firme. Por fim
Jonas chega a Nínive cumprindo sua missão profética de livrar a cidade da
destruição. Para os místicos, a interpretação é esta: "O navio
refere-se ao corpo físico, fora do qual Jonas (a alma) foi lançado, indo para
porção inferior do plano da emoção (o mar), até ser engolido por um grande
peixe (a consciência crística da unidade com todos os seres) e aí permanecer
três dias e três noites, sendo mais tarde depositado na Terra seca (retornado
ao corpo e mundo físicos)". O Mestre Jesus fez alusão a este episódio,
quando questiona: "como Jonas esteve no ventre do monstro marinho três
dias e três noites, assim ficará o Filho do Homem, três dias e três noites no
seio da Terra.".
A purificação associada à agua e ao período trino notamos noutro livro
do Velho Testamento, em que Moisés e todo o povo devem purificar-se abstendo-se
de atividade sexual por três dias antes da revelação do Sinai: Moisés desceu
da montanha e foi encontrar-se com o povo; ele o fez santificar-se, e lavaram
as suas vestes. Depois disse ao povo: 'Estai preparados para depois de amanhã e
não vos chegueis à mulher'.
A Iniciação era para aqueles que, primeiramente renunciassem à sua atual
conduta de vida. Dita de outra forma, um profeta que iria, segundo profecia de
seu próprio pai, transmitir ao seu povo o conhecimento de salvação, pela
remissão de seus pecados. Aqui podemos perceber a possibilidade da experiência
do ensinamento metafísico conferido pelo homem sagrado mediante renúncia dos
maus atos ou conduta por parte do postulante na condição de um homem renovado.
Este homem anunciado chama-se João, e o instrumento para o nascimento do novo
homem que ele irá conferir será chamado de Batismo. Mais que um rito de
purificação judaico, o Batismo de Jesus sugere uma Iniciação ao mistério de
Deus. .
Segundo o Glossário Teosófico, o "rito de purificação por meio da
água já era muito antigo quando foi adotado pelos chrestianos dos
primeiros séculos" e situa o Batismo pertencente à teurgia primitiva caldeia-acadiana;
era religiosamente praticado nas cerimônias noturnas das pirâmides. Durante os
mistérios Eleusinos eram praticados nos tanques sagrados do Templo. Também na
Índia, durante as cerimônia de Iniciação, era celebrado o rito de purificação
nos tanques sagrados. A imersão na água simboliza a regressão ao pré-formal,
a reintegração no mundo indiferenciado da pré-existência. A imersão repete o
gesto cosmogônico da manifestação formal; a imersão equivale a uma dissolução
das formas. É por isso que o simbolismo das águas implica tanto a morte como o
renascimento. O contato com a água comporta sempre uma regeneração: por um lado
porque a dissolução é seguida de um novo nascimento, por outro lado porque a
imersão fertiliza e multiplica o potencial da vida.
O simbolismo do homem velho que morre por imersão na água para renascer
um novo homem, regenerado, encontra-se presente também homologada na literatura
patrística. Ele (o Batismo)
representa a morte e a sepultura, a vida e a ressurreição... Quando mergulhamos
a cabeça na água como um sepulcro, o homem velho é mergulhado, desaparece por
completo; quando saímos da água, o homem novo aparece simultaneamente.
O Batismo é, para o cristão, um sacramento porque foi instituído por
Cristo, mas nem por isso deixa de buscar o ritual iniciático da prova, que é a luta
contra o monstro, da morte e da ressurreição simbólica, representada pelo nascimento
do homem novo. Este ato sublime é a valorização do Batismo como descida ao
abismo das águas para um duelo com o monstro marinho. Esta descida tem um
modelo: o de Cristo no Jordão, que era ao mesmo tempo uma descida às Águas da
Morte. Essa atitude é acompanhada por uma caracterização crescente desses
rituais como mistérios que necessitam de uma Iniciação.
Para Henri Durville o Batismo nada tinha de novo para o povo hebreu, uma
vez que este ritual constituía um legado muito antigo em que estavam submetidos
os Iniciados do Egito. João via que nesta Iniciação algo mais que a ablução era
necessário: esforço e temor. O autor situa o Batismo de João como vestígio da
prova iniciática pela água como acontecia nos mistérios de Ísis, e analisa um
ponto em comum entre estes dois momentos batismais: para ambos, o Batismo
representava a purificação da alma exercendo uma impressão, uma estampa, um
sinal sobre os sentidos do postulante.
A máxima no momento do Batismo, era: “Produzi, então, fruto digno de
arrependimento” e ainda: "Temos por pai a Abraão. O machado já está posto
à raiz das árvores e toda árvore que não produzir bom fruto será cortada e
lançada ao fogo. Eu vos batizo com água para o arrependimento, mas aquele que
vem depois de mim é mais forte do que eu. De fato, eu não sou digno nem ao
menos de tirar-lhes as sandálias. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com
fogo.” Aconteceu, naqueles dias, que Jesus veio de Nazaré da Galileia e
foi batizado por João no rio Jordão. E, logo ao subir da água, ele viu os céus
se rasgando e o Espírito, como uma pomba, descer até Ele, e uma voz veio dos
céus: "Tu és meu Filho amado, em ti me comprazo.
As descobertas dos manuscritos do Mar Morto parecem colaborar para uma
nova leitura de João relacionando-o no contexto de um grupo conhecido por essênios.
O professor Michael White, da Universidade do Texas, acredita, como outros
pesquisadores, que os manuscritos do Mar Morto foram produzidos pela comunidade
dos Essênios. Os essênios são um grupo que, literalmente, abandonaram Jerusalém.
Parece que foi na forma de protesto contra o modo como o Templo funcionava. E
vão para o deserto fugir do que consideram a secularização de Jerusalém e do
Templo. Como doutrina dos Essênios, o Batismo
era o que mais atraía em João e passagem do livro Antiguidades, do historiador
Flavio Josefo informa que João parece ser descrito como um santo homem. Então,
João aplicou o Batismo em Água, como um símbolo de uma nova vida, e também como
um ato complementar da tradicional Iniciação em terras do Egito.

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