Lima,
Capital do Peru – América do Sul
Lima
vem se reinventando nos últimos anos. Os próprios peruanos ainda se surpreendem
com a transformação da capital de quase 9 milhões de habitantes. Antes opaca e
ensimesmada, a cidade agora mostra outra cara: está mais colorida e radiante.
Aos poucos parece retomar a altivez dos tempos em que foi capital do Vice-Reino
espanhol do Peru, quando era chamada de Cidade dos Reis e abastecia a Coroa com
ouro e prata. Prova disso é a restauração do centro histórico, dominado por uma
elegante Plaza de Armas, um dos mais belos conjuntos coloniais do continente.
Eis o ponto de partida ideal para curtir 48 horas em Lima.
Comece
o reconhecimento da cidade pelo Centro. O Monumento ao Almirante Miguel Grau,
herói da Guerra do Pacífico, travada contra o Chile, demarca a região,
declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco em 1991. Esse título se
deve muito ao fato de o coração da cidade ter sido desenhado por Francisco
Pizarro, o mesmo que comandou o sequestro e assassinato do último imperador
inca, desmantelando o maior império pré-colombiano. Diz-se que o capitão
espanhol se inspirou num tabuleiro de xadrez para planificar a área.
Como costuma ocorrer em países de colonização espanhola, o
centro administrativo e religioso concentra-se na Plaza de Armas. Ali, chama a atenção o estilo
neoclássico da Catedral de Lima, três vezes construída em decorrência de
terremotos. Diante dela, uma fonte jorra pisco em datas festivas. Ao lado,
ficam os palácios do governo. O projeto de remodelação do centro restaurou a
maior parte dos edifícios do entorno e ainda devolveu a tranquilidade aos
limenhos, que há muito haviam deixado de frequentar a região. Nova iluminação e
reforço no policiamento também contribuíram decisivamente nesse resgate.
Também
nos arredores da Plaza San Martín as construções estão impecáveis e relembram
as primeiras décadas do século passado, quando a arquitetura peruana buscava
inspiração na francesa. No centro da praça reluz a estátua equestre do general
José de San Martín, artífice, ao lado de Simón Bolívar, da independência do
Peru, decretada a 28 de junho de 1828. Ali perto, aliás, a história do país é
contada no Museu do Banco Central. Há outros acervos dignos de nota, e de
visita, tal como o Museu do Ouro Miguel Mujica Gallo. Mas nenhum exibe o
frescor da Casa da Gastronomia Peruana, inaugurada há um ano e que ocupa parte
do histórico prédio dos Correios, de 1860. A celebrada culinária local está
toda ali, numa aula de lamber os beiços.
Com o estômago roncando, siga para o Restaurante e Bar Cordano, o mais antigo em
funcionamento na capital. Aberta em 1905, a casa mantém a mesma aura das
antigas e serve lanches e pratos simples e saborosos. Aproveite para provar a
butifarra, substancioso sanduíche de jamón e salsa
criolla, à base de cebola roxa e pimenta. Experimente também a chicha
morada, o adocicado suco de milho roxo cultuado pelos nativos. Essa
clássica combinação peruana não sai mais do que R$ 15, excelente
custo-benefício num ambiente propício a jogar conversa fora, inclusive com os
atenciosos donos, de origem italiana.
Tanque abastecido, tome o rumo do Monastério de São Francisco enquanto faz a digestão. A construção,
do século 17, esconde impressionantes catacumbas, resquícios do primeiro
cemitério municipal de Lima. Recentemente, arqueólogos contabilizaram a
existência de cerca de 25 mil ossadas ali. Tombado pela Unesco, o conjunto
arquitetônico colonial contempla também a Iglesia de La Soledad e a Capilla Del
Milagro. O local abriga um sem-fim de obras de arte sacras, azulejos
sevilhanos, pinturas... uma visita indispensável.
Lima
ainda não conta com metrô, portanto deslocamentos mais longos devem ser feitos
de ônibus, táxi ou a bordo dos populares tuc-tucs. Uma boa referência é a
Avenida Arequipa, que corta a cidade de norte a sul e interliga os principais
bairros. Caminho fácil de ser seguido.
Eleja Miraflores como
base. Ali concentram-se as melhores opções de hospedagem, ótimos restaurantes,
muitos bares e cafés. Boêmio e cultural, o bairro é o cenário favorito dos
romances de Mario Vargas Llosa, para citar apenas o autor mais reconhecido da
rica escola literária peruana. Há pouco a cidade passou a oferecer um tour
literário inspirado nos livros do prêmio Nobel.
Entre
outros pontos de interesse, o roteiro inclui o Parque Salazar, atualmente
conhecido como Larcomar. Trata-se de um amplo shopping de arquitetura arrojada,
de frente para o mar, que reúne desde renomadas butiques internacionais a lojas
de artesanato de alta qualidade, roupas de alpaca, bijuterias de prata e,
claro, mais e mais opções gastronômicas. Integrado ao Malecón, o Larcomar
também ajuda os turistas no quesito serviços, já que ali você encontra bancos e
farmácias.
Siga pelo calçadão à beira-mar limenho, sinta a brisa do
Pacífico no rosto, caminhe até a Plaza Del Amor. Inspirada nos traços do Parque Güell,
clássico da Barcelona de Gaudí, a praça é palco de concursos de beijo no dia
dos namorados (14 de fevereiro) e um belo cenário para curtir o fim de tarde.
Quando a noite cair, deixe-se levar pelos bulevares miraflorinos, escolha um
dentre seus muitos restaurantes e relaxe.
Se quiser mais animação, tome um táxi rumo a Barranco, bairro com uma das noites mais badaladas do
continente. Acredite. Lá você vai entender o que significa “salir de boleto”,
gíria local para “cair na balada”, e ainda vai aprender a conjugar o verbo
“piscotear”, derivado da bebida nacional peruana, o pisco.
Dia 2
Recuperado
da baladação da noite anterior, reserve a manhã do segundo dia de estada na
capital peruana para se surpreender com uma de suas características mais
marcantes e, curiosamente, menos divulgadas. Semelhante ao que ocorre na Cidade
do México, para ficar numa comparação latino-americana, Lima tem um grande
número de sítios arqueológicos escavados em meio à urbe.
O mais emblemático é a Huaca Pucllana, extenso centro cerimonial da cultura
lima, cujo maior assentamento teve lugar em Pachacamac, a 40 quilômetros da
capital. No coração de Miraflores, seus templos foram feitos há séculos em
barro e adobe e possuem bases piramidais. Como praticamente nunca chove em
Lima, cerca de 30% de suas construções originais permanecem intactas.
Recentemente, um importante veículo de comunicação nacional lançou a campanha
Lima Milenária, abraçada pelo governo como parte do resgate das raízes locais,
em que mostra que a ocupação da cidade remonta há mais de 4.000 anos.
Depois
de descobrir que Lima tem muita história para contar, é hora de caprichar na
escolha de um restaurante à altura do seu apetite. Nesse aspecto a metrópole
revela sua melhor vocação nos dias de hoje. Capitaneada por Gastón Acurio,
embaixador informal da gastronomia peruana no mundo, uma nova geração de chefs
emana da filial limenha da centenária Cordon Bleu francesa.
Pois é. Não tenha pudores em escolher entre o Astrid & Gaston, considerado o melhor do pedaço, a
oficina de cozinha de Ricardo Cavenecia em exibição no Los Cavenecia, o La Red ou Señorío de Sulco. Todos eles são expoentes da alta
gastronomia contemporânea do Peru. Endereços em que se cultuam ceviches,
paltas, causas, lomos saltados, suspiros... fique à vontade.
A arte das caçarolas é levada tão a sério naquelas bandas que
Lima abriga atualmente o maior festival do gênero na América do Sul, o Mistura,
que reúne os melhores mestres-cucas do mundo a cada setembro. Ah, detalhe: no Señorío de Sulco, em Miraflores, você ainda pode
participar de uma aula de preparo dos pratos típicos.
De
barriga cheia e espírito leve, percorra a orla pela Avenida Costanera, pontuada
por referências românticas onde os noivos tiram fotos para seus álbuns de
casamento.
No
caminho encontra-se o Salto Del Fraile, um desfiladeiro de onde um frei teria
se atirado ao mar na esperança de alcançar um barco e fugir, mas teve fim
trágico ao ser arremessado pelas ondas contra o paredão rochoso. Hoje em dia
vez ou outra um ator repete a ação, provando que o religioso da época colonial
não deu sorte no momento do salto.
Ao
entardecer volte a Miraflores para uma experiência inusitada. Perto da Plaza
del Amor, parapentes colorem o céu de Lima. De cara para o Pacífico. O voo
duplo (cerca de R$ 100 por pessoa) não requer prática ou habilidade. Com a
coragem, sim, é bom estar em dia. Vento no rosto, batimentos cardíacos
acelerados. Fotos e mais fotos. Sensacional.
À noite, o Parque de La Reserva é
o programa favorito de muitas famílias – e turistas, claro. Nele está o
Circuito das Águas, com 13 fontes iluminadas, uma delas com jatos de 80 metros
de altura. As fontes formam diversos arcos cheios de luz, e os visitantes
passeiam por dentro deles. Impossível não se divertir.
De lá siga de volta a Barranco, sim, o bairro da balada. Mas, antes de se
perder de bar em bar, procure a Ponte dos Suspiros, que une as ruas Ayacucho e
Hermita. Suspensa a oito metros do chão, a passarela tem 44 metros de extensão.
Dizem que quem a atravessa num só fôlego tem um desejo realizado. Tente se
lembrar disso, prenda a respiração e vá em frente. Depois, bem, depois você já
pode voltar a praticar o verbo “piscotear”.

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