terça-feira, 9 de junho de 2015

Artigo: MUNDIVIDÊNCIA - A/01659

MUNDIVIDÊNCIA 

Qualquer dicionário nos dirá, entre outras coisas, que mundividência é uma ideia filosófica sobre a organização do cosmos. De certa forma, uma dada ideologia. É por aí que vamos, nesta ocasião.

Desenvolvamos pois esta ideia geral, o que implica apelarmos para alguma condescendência dos nossos leitores, pois bem sabemos que muitos e plurais são os entendimentos acerca deste assunto, onde, como é óbvio, não há detentores da verdade última nem privilegiados com o conhecimento total dos mistérios do mundo e da vida.
É costume dizer-se que quando nos confrontamos com heterodoxias, ideias incomuns e coisas que nos parecem paradoxais se impõe que apelemos a uma grande abertura de espírito. Mente aberta, se diz. Mas há uma piada inglesa que contrapõe que é muito bom ter a mente aberta, desde que os miolos não nos caiam ao chão. Neste caso, prevenidos são os que se caracterizam por ter a mente fechada.

Lidos os esquemas com algum cuidado, talvez possamos chegar à conclusão que o desejo e a sua realização podem encerrar conflitos e contradições e não nos sobre espaço para dizer da superioridade inquestionável de termos uma mente aberta, a qual nos pode – vejam bem! – levar à inconstância e à volubilidade.

Posto isto, esperando dos que queiram prestar-nos atenção com a tal mente aberta, aquela que tem cuidado com os miolos, isto é, que não abdica do seu espírito crítico, propomos o seguinte entendimento cosmológico, digamos assim:

1. – Todo o universo, a matéria, a energia e os fenómenos da vida são uma criação mental da inteligência pura a que muitos chamam Deus. Isto é, o universo é mental, como diz o Kybalion.
2. – A inteligência pura, inteligência cósmica ou consciência divina produz um campo de forças, um campo energético que tudo infunde, que tudo alimenta e, neste aspecto, tudo é energia.
3. – A Mente Global é o campo energético onde a Consciência Global se manifesta; esta será, digamos assim, a escrita do Pensador e aquela o papel onde esta escrita se faz e o pensamento se expande.
4. – À consciência em acto chamam os místicos e os espiritualistas em geral VONTADE DIVINA (ou Poder Divino); este poder – porque inteligente – constitui toda a coesão ou unidade cósmica a que os religiosos chamam amor
5. – Matéria e espírito são aspectos de uma só coisa eterna.
6. – A consistência da manifestação faz-se pela forma, que é sempre mutável, efémera e provisória.
7. – Todo o ser vivo se insere num processo de consciência que se inicia na auto-consciência.

Em harmonia com estes sete pressupostos, defina-se a entidade homem como uma manifestação dual que implica duas naturezas, uma mortal e outra imortal. Mortal, a que se manifesta pela forma, que como dissemos atrás é mutável e efémera; imortal, a que procura vencer o mundo, a carne e o diabo, para utilizarmos a linguagem pessoana. Diabo aqui não tem qualquer conotação com as crendices populares, mas sim com a auto-ilusão.

Esquematicamente, seria assim a entidade pessoa humana:
 Vários autores – e também a linguagem popularizada – chamam ao corpo psíquico corpo astral. Há também quem lhe chame corpo emocional e até, como foi o caso de Rudolf Steiner, alma.

Apresentada noutros tempos, quando a psicologia estava reduzida ao estudo dos fenómenos comportamentais, esta nossa metafísica seria tomada como coisa de macaquinhos no sótão. Para o bem e para o mal, as mentes são hoje muito mais abertas do que no passado e não se vêem pelo chão, felizmente, quaisquer miolos espalhados. 
Não podemos, todavia, deixar de salientar que existem muitos pontos de contacto entre o nosso particular entendimento do cosmos e do fenómeno homem, isto é, o microcosmos. Há muitas propostas de forte pendor metafísico de algumas escolas de psicologia, nomeadamente a psicologia das profundidades, a psicologia humanista e a psicologia transpessoal.

Note-se que o conceito de auto-realização, embora não totalmente coincidente com o nosso, ganhou popularidade e atenção académica com os estudos de Abraham Maslow e Carl Rogers.

Maslow foi o fundador da psicologia humanista e desenvolveu o interessante esquema conhecido como PIRÂMIDE DE AUTO-REALIZAÇÃO (ou Hierarquia das Necessidades.

Do ponto de vista mais estritamente esotérico, é Stanislav Grof que merece maior destaque pelas suas pesquisas sobre estados alterados de consciência, através (nomeadamente) de experiências com o ácido lisérgico.

Grof, o grande impulsionador da psicologia transpessoal, chama aos estados alterados de consciência ESTADOS HOLOTRÓPICOS [Holos (todo) + trepein (em direcção a)] que definiu mais ou menos assim: no quotidiano, no nosso estado de consciência comum, nós identificamos apenas uma pequena parte daquilo que verdadeiramente somos; nos estados holotrópicos, podemos transcender os estreitos limites do corpo e do ego, reclamando a nossa completa identidade.

Ora, reclamar a nossa completa identidade, em termos tradicionais, assenta na grande e antiga consigna de Delfos: «Ó homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo».
Mas dito assim
, parece coisa fácil. Tão fácil que há imensa gente que julga conhecer-se, quando o que realmente e apenas conhece é a imagem que inventou para si mesma. Que bem fica aqui recordar o adágio de que somos três: aquilo que pensamos ser, o que os outros pensam que nós somos e aquilo que verdadeiramente somos.
O princípio da auto-realização assenta no autoconhecimento e leva à identificação da personalidade com o seu dever-ser. Um dos fenómenos consequentes é a chamada iluminação, que é um estado holotrópico superior.

Podíamos dizer que a auto-realização é um sinónimo de iniciação, mas não há sinónimos perfeitos. A iniciação tem uma exigência distintiva fundamental: faz-se por graus e só pode ser assegurada pelas Ordens Iniciáticas.

Mas o que acontece é que o conceito de iniciação se desvalorizou muito, mormente foi corrompido pelos andaços do tempo: há o pronto a iniciar tal como há o pronto a comer, o pronto-a-vestir e até o pronto a pensar. Facilitações mercantis de centro comercial, é o que é. Até às praxes académicas se usa chamar iniciação.
Dizia o filósofo Huberto Rohden:

«Hoje em dia, muitas pessoas falam em iniciação. Todos querem ser iniciados. Mas entendem por iniciação uma AULO-INICIAÇÃO, uma iniciação por outra pessoa, por um mestre, um guru. […] Esta aulo-iniciação é uma utopia, uma ilusão, uma fraude espiritual. […] O que o mestre, o guru pode fazer é mostrar o caminho…»
A nossa modernidade enche-nos a mente de ruido, impede-nos o silêncio. Ora, o silêncio é um dos pilares fundamentais do autoconhecimento, tão importante quanto a meditação. Mas até esta ferramenta da mente tem sido aviltada pelo modismo, pelo marketing, pelo facilitismo.

Não será despropositado trazer aqui os seguintes dizeres de Jiddu Krishnamurti:   
«Numa tentativa de se evadir dos seus conflitos, o homem tem inventado diversas formas de meditação, porém, todas elas se baseiam no desejo, na vontade ou na ânsia de obter algo, o que implica conflito e o emprego de esforço a fim de alcançar determinados resultados. Esta luta consciente e deliberada circunscreve-se sempre nos limites de uma mente condicionada, que não possui liberdade. Todo o esforço empregue na meditação constitui a sua própria negação. A meditação consiste no término da acção do pensamento; só então pode chegar a existir toda uma dimensão intemporal»


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