
Brasileiros e ParaguaiosDe Stroessner a Lugo, o Conflito continua entre os dois Povos
A América do Sul é bastante urbanizada, mas o Paraguai é exceção. Cerca de 40% de sua população vive na zona rural. A maioria dessas pessoas é de camponeses sem-terra, ou proprietários de minifúndios, que tocaram grandes movimentos sociais, como as Ligas Agrárias que enfrentaram a ditadura Stroessner e a onda de ocupações que ocorreu em meio ao colapso do regime autoritário. As tensões se concentram na região leste do país, fronteira com o Brasil, onde se localizam as áreas mais dinâmicas da agricultura comercial de exportação, da soja e do algodão.Estima-se que mais de 350 mil brasileiros vivem no Paraguai. A migração começou na década de 1970, composta sobretudo de agricultores familiares do sul do Brasil, oriundos de pequenas propriedades que não conseguiam sustentar muitas pessoas. Receberam incentivos da ditadura Stroessner, compraram terras baratas e prosperaram como fazendeiros, comerciantes e até políticos, em nível municipal. A segunda onda migratória acompanhou a expansão do agronegócio. São gerentes, técnicos e especialistas que se instalaram para administrar as operações das multinacionais no local - e às vezes entra em conflito com a primeira. É uma comunidade heterogênea e com relações bastante variadas com os paraguaios.O presidente Fernando Lugo trabalhou vários anos com os sem-terra, como padre. Mas o governante tem arco de alianças que inclui vários partidos de direita e a oposição conservadora dos colorados tem maioria no Congresso e nos governos provinciais. Os camponeses sabem que suas demandas por reforma agrária correm sério risco de fracassar e pressionam fortemente Lugo. Nos últimos dias, cercaram fazendas, sobretudo aquelas pertencente a estrangeiros. Invadiram algumas, em outras ocasiões foram detidos pela polícia.Os conflitos entre brasileiros e paraguaios misturam economia, controle dos recursos naturais, meio ambiente, xenofobia e racismo. Pesa a história de violência entre os dois países. No Brasil, quase não se fala da Guerra do Paraguai ou do apoio do país à ditadura Stroessner, que atravessou do democrático JK até o regime militar, mas na nação vizinha os dois temas geram ressentimento e frustração. Os paraguaios têm forte sentimento nacionalista, amparado no idioma e cultura guarani. Difícil conciliar esse orgulho com uma situação que a muitos parece humilhante, de ver a parte mais rica da economia sob controle do povo estrangeiro que os derrotou militarmente. E que às vezes demonstram sensibilidade cultural ímpar. Um exemplo claro sobre isso, é o brasileiro Tranquilo Favero, o maior plantador de soja do Paraguai: “Sou criticado publicamente por não falar guarani, mesmo estando aqui há 40 anos. Falo para os meus netos: aprendam língua de povo desenvolvido.“
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