domingo, 20 de novembro de 2011

Artigo: Otávio Gomes - A/1062

A Prosa Poética de Otávio Gomes

A história do chão é solidária com a história da gente. O sul-mato-grossense – nato ou aclimatado – destila interiormente uma doce melancolia, de origem longínqua, trazida por ondas indefiníveis de espaço-tempo e experiência-alma, ligada à história brasileira que suspira esperançosa no concerto mundial. A memória da terra guarda tremores, sobressaltos, dores das ocupações, engalfinhamento de raças. As seriemas, aves pernaltas, são destacadamente úteis na economia ecológica do centro oeste brasileiro. “Vivem cantando, andam bradando seu clangoroso chamamento, sibilante e penetrante às vezes, tal qual um clarim. Seu canto é plangente e evocativo, ecoa triste pelas campinas”, escreve Otávio Gonçalves Gomes.

O livro Onde Cantam as Seriemas, de Otávio Gonçalves Gomes, publicado em 1975, é um primor da literatura regional. O autor (Coxim, 1916 – Campo Grande, 1992), poeta memorialista, biógrafo, regionalista, historiador jornalista, engenheiro agrônomo, empresário, é imortalizado na Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, da qual foi um dos fundadores e presidente (1982 a 1985). Ele escreveu também Lampejos (poesia, 1972), A Poesia de Mato Grosso do Sul (1983) e Mato Grosso do Sul na Obra de Taunay (1991). Autor, junto com Jorge Antônio Siufi , da letra do Hino de Mato Grosso do Sul (música, Radamés Gnattali).

“Onde Cantam as Seriemas” envolve memórias, registros históricos, expõe uma visão de ator e autor no proscênio de Ribas do Rio Pardo e região, tudo isso no cursivo da prosa associado ao comovente da poesia. Otávio Gomes foi pioneiro com sua família na original Vila do Rio Pardo, lugarejo formado por volta do ano de 1900, cortado a partir de 1914 pela Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB). O povoado, acima do Rio Pardo, às margens do Rio Botas, em 1921 passou a distrito de Paz, então Conceição do Rio Pardo, e tornou-se município a 19 de março de 1944.

A ação era de desbravamento. Tal desbravamento haveria também que operar no comportamento da população em estágio primitivo de organização nos diversos ramos de atividade. O escritor narra os costumes, ditos e feitos de variadas personagens, como as afeitas ao “disse-me-disse” da vila; profissionais que se formavam; coisas embaladas pelos trens da Noroeste e pelos Correios. Populares interessantes, destacados por anomalias físicas ou mentais; bisbilhoteiros do lugar, alcoviteiros, indivíduos excêntricos e pessoas comuns.

As peraltices, os professores e seus métodos de palmatória, a educação pelo medo (e hoje a situação da educação é que dá medo), a “aparição” do primeiro automóvel; os honestos da política, não raros então, os heróis, a balsa e os serviços de barqueiro, as dificuldades de um tempo. A primeira ponte, a primeira escola, os bailes, as festas, momentos perdidos em que a família era uma solene “obrigação”, a tradicional novena, a principal na região: com seus leilões, missas e bailes, a festa de São Sebastião, o mártir. Registro de crimes famosos, disputas fundiárias, casos e “causos”.

A vida de carreiro (guieiro) com a sua rotina, “o construtor das antigas estradas com roda de carro e o casco de boi. Os pioneiros que trouxeram o progresso e a civilização que gozamos agora”.

Namora a natureza. Ele relata o caudaloso Rio Botas, o sabiá laranjeira, as guaviras (guabiroba): “É de se ver a alegria da gurizada ao partir para o guaviral. Cada um com o seu chapelão, a maioria com sombreiro de palha, ou o velho chapéu dos pais; enormes para as cabeças pequenas das crianças”.

A sua história juvenil vai se assustar com a Revolução de 1924. Tenentes (depois anistiados) arremetiam contra as forças governistas, contestando as oligarquias. “Soldados chegavam e saíam da vila. Os boatos e as notícias de roubos, assaltos, incêndios, depredações e outras judiarias por parte dos rebeldes, corriam de boca em boca”, registra. E na fazenda Esperança, município de Coxim, seu tio-avô, Filadelfo Alves da Silva, ofereceu resistência destemida aos revoltosos. Aquela revolução – também chamada Revolução Esquecida e Revolta Paulista – aflorou em cinco de julho de 1924 e foi derrotada nos primeiros dias de agosto do mesmo ano.

O autor conta sobre um atentado ao presidente do Estado (então o coronel Pedro Celestino Correa da Costa – o governante mato-grossense que mais se ocupou com a educação, durante dois mandatos: 12/10/1908-15/8/1911 e 22/01/1922-25/10/1924): “Teve de sair sorrateiramente, tomar a locomotiva que manobrava para encostar-se à estação e fugir na máquina escoteira”. É que, ordenado por chefes políticos, o famoso bandido Manoel Aparecido cercou o vagão onde se encontrava o governante, para matá-lo.

Nem sempre a população sentiu as agitações sociais do País. Na Revolução de 1930, por exemplo, o movimento só foi mais bem percebido com a chegada do interventor federal, coronel Antonino Mena Gonçalves (período de 03/11/1930 a 24/4/1931), recebido pela porta da cozinha de dona Chiquinha, avó do narrador Otávio Gomes.

De heroísmo e emoções profundas, o poeta-escritor tem a tratar ricamente em suas páginas da história de trabalho e honradez de seu pai (português de nascimento que atingiu 85 anos de idade, tendo, aos 12, chegado ao Brasil) e sua mãe, guerreira que reergueu a vida econômica da família fundando a Pensão Santa Helena em Campo Grande no ano de 1937.

Otávio Gonçalves Gomes, admirável escoteiro que o foi! Do relato das suas excursões domingueiras repercutem-nos os anseios juvenis de elevadas realizações do coração, da razão e dos aspectos materiais. Pudéssemos todos cumprir os princípios do escotismo, dos deveres para com Deus, para com os outros e consigo próprio. A pauta da cooperação (união e companheirismo), da educação e do progresso, da reverência e gratidão com cuidados à natureza. Pudesse cada um ter o merecimento de ouvir da própria mãe, como você ouviu ao fazer-lhe ao colo suas promessas de menino: “— Deus te ouça, meu filho!...”.

(Guimarães Rocha, de Campo Grande)

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