terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Artigo: Imprensa Livre - A/01086

Ainda há Imprensa Livre?

Dia destes, cavaqueando com diretor de pequeno periódico, onde dei a lume algumas entrevistas, este, lamentava-se de dificuldade em que vive ou sobrevive, a imprensa local.

Sem auxilio estatal, dependente de assinantes, que, em norma, são cada vez menos, e de anúncios, que devido à crise - interna e externa, - diminuíram drasticamente, resta - a muitas administrações, - a dependência do poder autárquico, que, em regra, impede imprensa livre, capaz de informar com a desejada isenção. Só há liberdade de expressão, se a mídia pode, sem medo, apresentar comentários e criticar o poder, se há razão disso.

Mas, como se é livre, quando se depende do poder político para quitar despesas de pessoal e tipográficas? O jornal subsiste das vendas e dos anunciantes. Quando escasseiam, resta-lhe fechar as portas ou reverenciar o poder.

Certa vez - em 1997, - o Presidente da Câmara de Penalva do Castelo, Gabriel Costa, asseverou a jornalistas, em Viseu “ Quem está com o Governo come, quem não está, cheira. “ O homem do “PP” acabara de aceitar o convite do “PS” para se candidatar nas suas listas, após a promessa de novo edifício para os Paços do Concelho - “ O Primeiro de Janeiro”, 10/SET/97.

Disse bem Gabriel Costa, porque disse a verdade. Quem está com o poder, governa-se. Assim pensaram, igualmente, muitos após a Revolução dos Cravos (cito Baptista-Basto, in “ Diário Económico” 10-10-97: “ No 25 de Abril (…) surgiu um rol impressionante de democratas de cartão plastificado e de antifascistas vitalícios (…) Matricularam-se nos partidos, chegaram deputados e a ministros. Antigos serventes de Salazar e Caetano, arregimentaram-se à nova ordem, que os recebeu de braços “calientes”. Estão todos bem, graças a Deus. Até os pides.”

Voltemos à vaca fria - salvo seja! - à conversa que mantive com o diretor de gazeta local. Referiu-se que outrora havia a detestável censura, agora permanece o receio de processos judiciais (sempre caríssimos), e o corte de anúncios, se o ponto de vista do director, fere interesse de anunciante; e a propósito citou o que aconteceu ao jornal francês “ La Croix” ao criticar os que faziam desfile de moda, de conhecidos costureiros, nas comunhões solenes. Atitude reprovável e nada cristã. O resultado foi que as modistas famosas e industriais do ramo, retirassem a publicidade do jornal, facto que prejudicou a subsistência do periódico.

Nos nossos dias administrar pequena gazeta é feito quase heróico, quando se pretende informar com seriedade e publicar artigos de opinião, sem lhe pôr espartilho.

Assim como numa empresa estatal se chega facilmente ao topo, possuindo um pouco de talento e cartão partidário, também um jornal navega de vento em popa, se se entregar à dependência do poder.

Felizmente, ainda que muitos pensem o contrário, é na imprensa local, onde se encontra mais honestidade e independência; preferindo muitos, reduzir a periodicidade e até tiragens, para se manterem orgulhosamente apartados do poder. Infelizmente nem sempre são compreendidos e aplaudidos pelos leitores.

(HUMBERTO PINHO DA SILVA - Porto, Portugal)

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