terça-feira, 12 de maio de 2015

Crônica: Querida Mãe, querido Pai ...


Querida Mãe, querido Pai...



O tempo passa sobre as lágrimas que choro, já nem cicatrizes tenho do que um dia me feriu. E no entanto a memória. Eu fui feliz; nós fomos felizes. A casa cheia com a nossa alegria dentro. O quintal, o avô a contar mil e duas vezes as histórias que já tinha contado mil e uma vezes; a avó sempre preocupada em encher a mesa; os tios a dizerem que a vida custa. E custa, pai; e custa, mãe. Ninguém merece uma casa vazia. E os cheiros? Os cheiros não passam. Os cheiros são a melhor forma de se sofrer. Cheiro a cozinha onde um dia a vida, um dia o sonho. Eu menino na cozinha cheia do avô, da avó e dos tios. Eu menino a sonhar comigo, grande como os tios – «um dia vou ser rico e comprar muitas coisas». Eu menino a querer crescer.

A avó com um cancro dentro; o avô a ceder a cada dia que a sua Maria se ia; os tios e as rugas. Todos a irem a cada dia em que eu crescia. Tudo morre quando nos morrem os sonhos. Ninguém merece ficar para além dos sonhos. E já não há avó e já não há avô. Há o cheiro da cozinha quente com os meus sonhos dentro. O cheiro do quarto onde me escondia, debaixo da cama, para ver os adultos falando. As palavras novas, palavras grandes, palavras feias.

Ter um pai e uma mãe. Só quando a casa se esvazia é que se sabe o que vale um pai, o que vale uma mãe. E não interessa o que foi, o que ficou por ser. Não interessam as palavras que um dia dissemos, os erros que um dia não evitámos cometer. Não interessa a voz grossa do pai – «tens de ser um homem  sério» – nem a dor muda da mãe. Não interessa o que se perdeu quando se tem um pai e uma mãe para apertar. Ainda estamos aqui, mãe. Ainda estamos aqui, pai. Ninguém sabe o que é perder quando ainda tem uma mãe e um pai para abraçar. E enquanto tiver os vossos ombros para pousar nenhuma lágrima morrerá solteira. (Pedro Chagas Freitas)

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