quarta-feira, 20 de maio de 2015

Artigo: Sesquicentenário do Nascimento de Rondon - A/01648

Uma Reação Fantástica


Rondon levou a tais extremos a reação do espírito sobre o seu abalado físico, que em uma das marchas, a pé, por cima do árido Chapadão de Parecis, já muito longe, sofrendo horrivelmente o martírio da sede, levado aos paroxismos pelo estado febril em que se encontrava, caiu redondamente ao solo, desacordado, inerte, presa de uma síncope! 

Cercaram-no os companheiros, acudiram ao Chefe querido e estoico: vários portadores partiram em rumos divergentes em busca de água, só encontrada muito distante do ponto em que ocorrera o acidente. Felizmente e com a força milagrosa de sua vontade de aço, o Chefe reergueu-se e prosseguiu a marcha horas depois. E assim, mesmo doente, continuou o seu serviço de exploração. Quando acidentalmente sentiu-se melhorar, a sua convalescença foi ainda assinalada por um célebre passeio em que sobrepujou em resistência outros companheiros que com ele seguiram, dentre os quais um deles, ao regressar ao acampamento, teve a seguinte exclamação original:
‒ Vá ser doente para o inferno!
[...] é fato indiscutível ter ele adquirido de seu próprio bolso, antes de partir de Cáceres, pelo alto preço de 400$000, um excelente boi de montaria para o seu uso particular e que se tornou célebre nessa Expedição (Juruena ao Madeira). Ainda mais esse animal foi mandado por ele anexar à tropa com esta designação especial: só o Chefe poderia utilizar-se dele quando o ordenasse. Marchou a Expedição pelo Sertão afora e, a cada sintoma de enfraquecimento físico que o médico observava no Chefe da Expedição, insistia para que Rondon se resolvesse a dar ordem de arrear o boi e montar. Os companheiros da exploração, no vivo interesse de salvar o Chefe, secundavam as ponderações do médico e havia em torno de Rondon um verdadeiro coro: “porque não montar, quando o animal ali estava à mão e viera para esse fim exclusivo?”

Evidentemente o estado de saúde do Chefe agravava-se dia a dia! Houve mesmo alguém mais íntimo que lhe fez sentir o perigo de um fracasso da Expedição, se ele continuasse a tanto arriscar e viesse a perecer! Talvez que esta última ponderação amiga houvesse afinal vencido a resistência do Chefe; o caso é que, sob a ação dos seus habituais 40° de febre, num dos acessos do impaludismo, mandou ele arrear o célebre boi e montou. Andou assim cerca de quatrocentos metros apenas...

Senti-me humilhado, diminuído, diante dos meus comandados; impossível subordinar-me a semelhante situação e refleti que era então preferível morrer!
De repente, olhando para trás e em torno de si, ao contemplar os seus companheiros, todos a pé, sob o peso das mochilas, deixando ler no aspecto físico o abatimento e o cansaço das marchas, suarentos, cobertos de pó, a sua alma vibrante e enérgica reagiu subitamente! Apeou-se incontinenti e, com gesto autoritário e que não admite dúvidas, mandou que conduzissem o boi para a retaguarda! E até o fim da Expedição gozou o privilegiado boi das regalias de montada do Chefe... sem nunca mais sentir-lhe o peso! (MAGALHÃES)

Resistência Física
A subida de um morro, enquanto os mais moços do que ele e que tinham de idade em média 25 anos menos, alcançavam suarentos e esfalfados a parte mais alta, depois de interromperem o acesso para tomar fôlego, Rondon, adiantando-se de muito no tempo despendido para a subida, que efetuara de um só arranco, ria-se dos companheiros e dizia-lhes pilhérias a propósito do retardamento com que iam chegando. É preciso dizer que todos se haviam empenhado em chegar primeiro, com ardor igual ao de um desafio e de uma aposta [...] Em tais reconhecimentos, era sempre Rondon quem tomava a ponta da vanguarda. Só confiou este serviço de máxima responsabilidade, em 1909, ao Tenente Lyra, e a experiência demonstrava que poderoso era o auxílio do índio, não só pela resistência de infante e pela habilidade de indicar os melhores passos no rumo desejado, como pelo incomparável trabalho de que só o silvícola se desempenhava de modo a merecer a absoluta confiança do Chefe: o reconhecimento militar! O índio, conhecedor por experiência própria, de todos os planos e processos usados por outras nações indígenas, para os ataques e surpresas, executava só o trabalho de uma boa patrulha. Avançava sorrateiramente, sem fazer o menor ruído no mato, sempre atento e perspicaz, agachado quando era mister, e observava a zona toda em direção à marcha da Expedição, garantindo-a contra a possibilidade de uma agressão. E sempre que ele afirmava haver índio perto e que índios acompanhavam a Expedição para atacar, as suas previsões se realizavam, embora as precauções a que davam lugar os seus avisos.

Pois bem, Rondon marchava Sertão adentro com um desses resistentes e leais Caciques da tribo dos Parecis. A ânsia de avançar o mais possível com o reconhecimento, fez com que ele resistisse aos desejos manifestados pelo índio no sentido de escolher para pouso um certo Córrego, a que atingiram quando já o Sol estava mais para o poente do que para o zênite. Debalde o Pareci ponderava que poderia acontecer, como sucedera certa vez, não encontrarem outro pouso à distância conveniente, antes de cair a noite.

Fácil admitir tal hipótese quando se marcha por terreno desconhecido, como era o caso. À vista, porém, da decisão terminante em que se manifestava o Chefe, partiu o índio de novo com ele, prosseguindo o reconhecimento, não sem um olhar de inveja para a linda ramagem que ensombrava a água marulhenta e fresca... O receio talvez de que a previsão do índio se realizasse, produziu desde logo um aumento de velocidade da marcha. A certa altura, quando começava a tardar a descoberta de outro Córrego, o índio estacou. Carregou o sobrolho, olhou fixamente o Chefe e, sentando-se no solo, declarou solenemente que dali não sairia mais; que tinha as pernas cansadas mesmo e nem um passo mais daria em frente; se Rondon quisesse, que fosse sozinho! Não houve lógica capaz de o convencer do contrário! Este fato é bastante eloquente, ao que me parece, para demonstrar a que limites atinge a resistência de Rondon.
[...] o próprio Rondon é quem nos pretende convencer de que qualquer homem pode fazer o mesmo e que para isso é bastante querer! (MAGALHÃES)

O Homem e Seu Estilo
Tenente Lyra, cuja memória venero sob todos os aspectos, dizia-me sempre em suas palestras cintilantes:
‒ Rondon é uma individualidade difícil de apreciar, porque apresenta uma infinidade de aspectos. Tal a verdade que cada vez mais se acentua em meu espírito, quanto mais medito sobre a sua personalidade. É uma espécie de prisma de muitas faces, de cores variegadas, cada qual mais brilhante. Não só porque o estilo é o homem, como também para que se aprecie a maneira por vezes original com que ele descreve as coisas e a empolgante beleza literária de algumas passagens referidas ao correr da pena; aqui transcrevo trechos traçados pela sua própria mão, onde se encontram atestados autênticos das suas opiniões e dos seus ideais.

À noite, tivemos um espetáculo maravilhoso, determinado pelo incêndio que irrefletidamente ateamos ao macegão da várzea da Laguna Zoerekê. Todo o chapadão em derredor foi destruído pelo fogo voraz que se alastrava em línguas extensas, lambendo a macega ressequida e deixando após si o negrume da sua destruição; apanhando não só os insetos e répteis, como os pequenos mamíferos e até aves, como os inhambus, perdizes, maxalalagás (saracura do chapadão) e seriemas.

No Utiarity, o Rio corre mansamente antes da queda; ao aproximar-se desta, deu-se o desnivelamento brusco, de modo a formar uma grande corredeira marulhosa e, junto do salto, as águas se subdividem por causa d’uma pequena ilha. Um grande golfo forma-se à esquerda; outra porção maior contorna a ilha à direita e, antes de se despenhar, se subdivide, indo uma pequena parte para o abismo, onde cai como extenso e alvo lençol e a outra, de maior volume, volve por um salto preliminar a encontrar-se com o grosso das águas provenientes do golfo. O panorama é empolgante e tão belo que me levou a dar-lhe este apelido ao simples ver. Através de irisantes arco-íris, destacam-se à vista do observador as gradações de cores na linha de incidência da superfície plana que vem, com a convexa que desce, na queda d’água, desde o nacarado e verde-gaio até o plúmbeo argentino e azul-celeste. Cobrindo a enorme bacia formada pelo martelar contínuo e milenário da possante queda, lá está a poeira d’água, desbordante que, por fim sobe, torcicolando, a marcar, no meio da floresta imensa, o ponto em que o chapadão se erodiu, determinando o descomunal desnível.

Não resisti ao desejo de ver a arcada que todo o salto, apresenta, formada lentamente pela ação física dissolvente e mecânica das águas. [...] é simplesmente arrebatador, feérico, os arco-íris cruzam-se, as névoas condensadas não permitem a ninguém aproximar-se do incomparável anfiteatro, sem receber as entrudescas manifestações da maravilhosa catarata; circunda-o luxuriante vegetação, forrando de alcatifa do verdor aqueles escombros areníticos, produto da fenomenal fratura. As andorinhas dos saltos a brincarem, em voos mergulhantes, atravessam a formidável massa líquida que se despenha. (MAGALHÃES)

Vaqueiro Mimoseano
Se alguém se refere a seus inestimáveis serviços, contesta, atribuindo-os aos companheiros. Foi, na realidade, conjunto raro o dos auxiliares de Rondon ‒ é que, como os grandes chefes, sabia escolher “the right man for the right place”. E, depois, impunha-se pela força do exemplo, executando inúmeras vezes aquilo de que ninguém era capaz, como capacidade física também. Narrava-o nosso saudoso amigo General Ivo Soares, mais tarde Presidente da Cruz Vermelha Brasileira e, na ocasião, Chefe do Corpo de Saúde do Exército: Era Rondon Capitão Chefe da Comissão Telegráfica do Sul de Mato Grosso e eu 1° Tenente médico da mesma comissão. Certa manhã, não havendo os campeadores aparecido com o animal de montada do Chefe e tendo este um compromisso que o obrigava a seguir para Coxim, mandou encilhar uma besta de tração que se encontrava no acampamento, não obstante a ponderação da ordenança que, com toda a disciplina, lhe viera transmitir um recado do arrieiro: aquele animal não dava montaria e, mesmo como animal cargueiro, várias vezes corcoveara com as cargas... Respondera-lhe energicamente o Chefe, reiterando a ordem para que se arreasse a besta com os seus apeiros, apertando bem a cilha. Trataram, então, de obedecer-lhe. Mas, para tanto, foi mister amarrar solidamente o muar a um palanque e vendar-lhe os olhos. O animal bufava como touro ou como onça... Era um domingo e estava o pessoal em descanso, de modo que a nova despertou a curiosidade geral e, por entre o arvoredo e escondidas por trás das barracas, convergiam os praças os olhares para o palanque e talvez estivessem alguns antegozando a queda espetacular do seu Capitão.

Rondon examinou cuidadosamente a implantação da cilha, que dividia em duas a barriga do animal, os loros, as rédeas e, de um pulo, cavalgou a fera, que foi rapidamente desvendada e solta das amarras. Reproduziu-se, então, um daqueles espetáculos do “far-west” Norte-americano ou dos nossos destemidos domadores, nas campinas do Rio Grande do Sul, entre os “vaqueiros” do Norte ou de Mato Grosso. O animal saiu como um raio, aos corcovos, barafustando pelas barracas, derrubando ramadas, dando coices, como se tivesse enlouquecido! Era terrível e parecia indomável. Mas o peão era também de se lhe tirar o chapéu! E não caiu, tornando vãos todos os desesperados esforços da alimária para o deitar ao chão. Depois de empolgantes passagens, conseguiu o cavaleiro metê-lo na estrada e nesse dia se apresentou em Coxim, montado na besta já domada, banhada de suor copioso, com a boca ensanguentada. (VIVEIROS)

(Hiram Reis e Silva (*), Porto Alegre, RS, 10 de maio de 2015)



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