segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Conhecimento místico do Cosmos - A/0222

Conhecimento místico do Cosmos
A maioria dos matemáticos nutre uma profunda desconfiança em relação ao misticismo. Não é surpreendente, pois o pensamento místico é antípoda do pensamento racional, base do método científico. O misti­cismo também tende a ser confundido com o oculto, o paranormal e outras crenças marginais.
Na verdade, muitos dos mais seletos pensa­dores do mundo, entre os quais alguns cientistas notáveis como Einstein, Pauli, Schrödinger, Heisenberg, Eddington e Jeans também abraçaram o misticismo. Minha própria opinião é que o método científico deve ser levado o mais longe possível. O misticismo não é um substituto para a indagação científica e o raciocínio lógico, enquanto estes puderem ser aplicados de forma coerente. A ciência e a lógica só podem fracassar se quiser lidar com as questões últimas. Não estou dizendo que a ciên­cia e a lógica provavelmente forneçam respostas erradas, mas que po­dem ser incapazes de tratar de perguntas do tipo por quê? (diferente de como?) que queremos formular.
A expressão experiência mística muitas vezes é usada por pessoas religiosas, ou pelos que praticam meditação. É difícil transmitir com palavras essas experiências, que sem dúvida são bem reais para quem as vive. Os místicos muitas vezes falam de uma sensação esmagadora de ser uno com o universo, ou com Deus, de vislumbrar uma imagem holística da realidade, de estar na presença de uma influência poderosa e amorosa. E o que é mais importante: os místicos afirmam que podem apreender a realidade última em uma única experiência, em contraste com a longa e tortuosa seqüência dedutiva do método lógico-científico de indagação. A via mística às vezes parece ser pouco mais que uma sensação de paz interior - uma quietude compassiva e jubilosa que está por trás da atividade de mentes atarefadas. Einstein falou de um "sentimento religioso cósmico" que inspirava suas refle­xões sobre a ordem e a harmonia da natureza. Alguns cientistas, sobre­tudo os físicos Brian Josephson e David Bohm, acreditam que as per­cepções místicas habituais, obtidas por meio de práticas meditativas silenciosas, podem ser um guia útil na formulação de teorias científicas. Em outros casos, as experiências místicas parecem mais diretas e reveladoras. Russell Stannard escreve sobre a impressão de estar diante de uma força irresistível de algum tipo, "cuja natureza exige respeito e veneração. Tem algo de urgente; o poder é vulcânico, contido, que está prestes a desencadear-se." David Peat, autor científico, descreve "um notável sentimento de intensidade que parece inundar de sentido todo o mundo que nos rodeia. (...) Sentimos que estamos tocando algo de uni­versal e talvez eterno, de modo que um determinado instante do tempo assume um caráter majestoso e divino e se expande sem limite no tem­po. Sentimos que desaparecem todos os limites entre nós e o mundo exterior, pois o que vivenciamos está além de todas as categorias e de todas as tentativas de apreensão por meio do pensamento lógico."
A linguagem usada para descrever essas experiências costuma refle­tir a cultura do indivíduo que as vivencia. Os místicos ocidentais ten­dem a enfatizar a qualidade pessoal da presença, muitas vezes dizendo que estão com alguém, habitualmente com Deus, que é diferente deles mesmos, mas com quem sentem uma profunda ligação. O cristianismo e outras religiões ocidentais têm, é claro, uma longa tradição dessas experiências religiosas. Os místicos orientais enfatizam a totalidade da existência e tendem a identificar-se mais intimamente com a presença. O escritor Ken Wilber descreve a experiência mística oriental em uma linguagem caracteristicamente enigmática: "Na consciência mística, a realidade é apreendida direta e imediata­mente, o que significa sem nenhuma mediação, elaboração simbóli­ca, conceituação nem abstração; sujeito e objeto tornam-se um, em um ato intemporal e não-espacial que está além de toda e qualquer forma de mediação. O discurso universal dos místicos fala de conta­to com a realidade como tal, existente, objetiva, sem intermediário algum; algo para além das palavras, símbolos, nomes, pensamentos, imagens."
Assim, a essência da experiência mística é uma espécie de atalho para a verdade, um contato direto e sem mediações com uma realidade última percebida. Nas palavras de Rudy Rucker:
"A lição central do misticismo é esta: a realidade é una. A prática do misticismo consiste em descobrir maneiras de vivenciar diretamen­te essa unidade. O Uno tem sido chamado de Bem, Deus, Cosmos, Mente, Vazio ou (talvez o termo mais neutro) Absoluto. Nenhuma porta do castelo labiríntico da ciência abre-se diretamente para o Absoluto. Mas se entendermos bastante bem o dédalo, é possível saltar fora do sistema e, por si só, experimentar o Absoluto. (...) Em última instância, porém, o conhecimento místico ou é atingido de uma vez por todas ou nunca o será. Não há caminho gradual."
Alguns cientistas e matemáticos afir­mam ter tido percepções reveladoras repentinas semelhantes às experi­ências místicas. Roger Penrose descreve a inspiração matemática como uma súbita irrupção em um reino platônico. Rucker relata que Kurt Gõdel também falou da "outra relação com a realidade", por meio da qual era capaz de perceber diretamente os objetos matemáticos, como a infini­dade. O próprio Gõdel parecia consegui-Io através de práticas de medi­tação tais como fechar os outros sentidos e deitar em um lugar tranqüilo. No caso de outros cientistas, a experiência reveladora ocorre esponta­neamente, em meio ao barulho cotidiano. Fred Hoyle relata um inciden­te deste tipo que lhe aconteceu quando viajava pelo norte da Inglaterra. "Assim como a Paulo a revelação ocorreu na estrada de Damasco, a minha foi no caminho para Bowes Moor." No final da década de 1960, Hoyle e seu colaborador Jayant Narlikar haviam trabalhado em uma teo­ria cosmológica do eletromagnetismo que implicava o uso de uma ma­temática assustadora. Um dia, quando lutavam com uma integral parti­cularmente complicada, Hoyle decidiu tirar férias de Cambridge e acom­panhar alguns colegas que estavam fazendo caminhadas pelas Highlands da Escócia.
"À medida que os quilômetros desfilavam, eu dava voltas ao proble­ma de mecânica quântica (...) em minha cabeça, da maneira nebulo­sa como costumo pensar em matemática. Normalmente, tenho de escrever as coisas e depois brincar com as equações e integrais da melhor maneira possível. Mas, em algum lugar de Bowes Moor, minha percepção da matemática esclareceu-se, não um pouco, nem mesmo muito, mas como se uma imensa luz brilhante tivesse sido acesa de repente. Quanto tempo demorei para convencer-me total­mente de que o problema estava resolvido? Menos de cinco segun­dos. Só me restava cuidar de, antes de a claridade desaparecer, armazenar, em minha memória imediata, o suficiente sobre as eta­pas essenciais do problema. Senti-me tão seguro que, nos dias sub­seqüentes, nem me dei ao trabalho de pôr nada no papel. Ao voltar para Cambridge, dez dias depois, foi-me possível redigir tudo aqui­lo sem dificuldade."
Hoyle também relata uma conversa com Richard Feynman sobre o tema da revelação:
"Alguns anos atrás, Dick Feynman me fez uma descrição gráfica de como sente um momento de inspiração, e da enorme euforia que se segue, que persiste talvez dois ou três dias. Perguntei-lhe com que freqüência ocorrera, Feynman respondeu "quatro", e ambos concor­damos em que doze dias de euforia não constituíam recompensa exagerada pelo trabalho de toda uma vida."
(Adalberto Tripicchio)

Nenhum comentário: