SER LIVRE...
Os anos ensinaram-me que liberdade é possível. E desejável!
São incompletas todas as teorias deterministas. Não há só uma força superior nos compelindo a tudo. São, também, incompletas as teorias indeterministas que nos dão como senhores absolutos dos atos, do próprio destino.
Somos, isto sim, eternos e aflitos procuradores da diferença entre o que é mistério, destinação (força superior) e o que é liberdade de escolher os próprios atos e caminhos. Mistério e liberdade andam juntos. Nossa tarefa de humanos é a de deslindar os nós e as amarras do destino. Para isso fomos dotados de liberdade. Ela é a força que nos ensina a distingir (quando o conseguimos) destino imposto de destino auto-construído.
Há, portanto, uma instância de destino, invencível, e outra de liberdade, vencedora. Posso nascer sem braços (destino imposto) e treinar a tal ponto os dedos de meus pés que passo a fazer o que impossível seria se o destino não fosse vencido. Venci, certo, ao escrever e pintar quadros com os dedos dos pés (destino auto-construído). Mas só o fiz depois que ele (destino) se impôs. Liberdade é a instância que me permite a escolha de vários caminhos após a imposição do destino.
Por isso liberdade é um dos supremos bens do homem! Porque se coloca como instância eternamente presente. A cada imposição (de qualquer natureza) brota, concomitante, a liberdade (pelo menos em potência) de algo se fazer a partir da situação. Não se elimina, portanto, a liberdade, por mais que contra ela tanto se atente, porque é a presença determinista do novo em qualquer ato, fato, idéia ou sentimento.
É do destino do homem ser determinado pelo mistério e ser livre para saber o que fazer com essa determinação. Ceder, passivo, ao destino é tão grave quanto tentar opor-se a ele ou transgredi-lo.
O grande equívoco humano é tentar opor liberdade ao que é destino e desistir da liberdade onde supõe haver apenas destino. Destino é mistério. Destino não é o que está escrito num livro (até pode ser). Destino é algo de próprio, profundo, destinação psicobiogenética física-metafísica do ser humano. Destino é individualidade. É próprio, intransferível. Destino é o que nos difere dos demais.
Na aceitação do próprio destino (não como o que está escrito, mas como o que não poderia deixar de nos ocorrer ou de nos constituir internamente), está a possibilidade de liberdade, pois só a partir dela é possível transformar a vida numa atividade (relativamente) feliz, útil, saudável e criativa. Compreender que essa é a tarefa do homem, permanente enquanto há vida, eis o difícil, eis o caminho. Supor que somos meros joguetes dos fatos supradeterminados ou somos onipotentes para fazer o que queremos ou desejamos, eis a alienação fundamental. (Artur da Tavola)
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