domingo, 21 de fevereiro de 2010

Artigo: A Literatura a Serviço do Autoconhecimento - A/0721

A Literatura a Serviço do Autoconhecimento

"A meio caminho na jornada da vida, dei comigo perdido numa floresta escura, tendo perdido o caminho". Assim começa a peregrinação espiritual de Dante, a revisão do significado de sua vida.
(...) Como declarou Aristóteles há dois mil e quinhentos anos, a arte pode algumas vezes ser mais clara do que a vida, por abraçar o universal. A capacidade do artista de descer ao inconsciente, como o fez Dante, e de voltar portando a história da jornada, expressa nossa condição de forma particularmente rica. Somos chamados não apenas a nos identificar com uma personagem específica, mas também a vê-la como a dramatização de uma condição humana universal. Uma vez que compartilhamos essa condição com o personagem, podemos aprender algo a respeito de nós mesmos a partir das limitações, insights e ações desse personagem.
T. S. Eliot observou que a nossa única superioridade em relação ao passado é que podemos abrangê-lo e ser engrandecidos por ele. Em outras palavras, através da literatura e da arte podemos abraçar uma parte maior da gama de possibilidades com que se deparam os seres humanos, e ainda sermos capazes de crescer e nos desenvolver. Hamlet, por exemplo, sempre terá que pronunciar as linhas escritas para Hamlet. Todos sofremos o complexo de Hamlet, especialmente nos momentos em que sabemos que deveríamos fazer uma coisa, mas somos incapazes de fazê-la. Mas, ao contrário de Hamlet, temos a oportunidade de, através da consciência, mudar nosso roteiro.

Dois clássicos bem diferentes do século dezenove, o Fausto, de Goethe, no início, e Madame Bovary, de Flaubert, em sua parte central, dramatizam a difícil situação do indivíduo que ingressa na primeira fase da vida adulta cheio de projeções
[1] e encontra na meia-idade confusão, depressão e o esgotamento das estratégias que o levaram até esse ponto.
O erudito Fausto encarna o ideal do Renascimento, a aquisição do conhecimento. Ele dominava as profissões da época –o direito, a filosofia, a teologia e a medicina- "e aqui estou eu, apesar de todo o meu conhecimento, o mesmo desgraçado tolo que eu era antes".
[2] Ao seguir sua função dominante, o intelecto, Fausto alcançou o ápice do aprendizado humano, mas em vez de doçura experimenta amargura. Quantos executivos de grandes empresas não sofreram esse mesmo desapontamento? Quanto mais ele alcançou, mais sua função emocional foi reprimida. (...) Seu sentimento [de Fausto], tão primitivo na sua expressão quanto é sofisticada sua racionalidade, irrompe trovejante e o lança numa profunda depressão. Seu aprendizado é esplêndido, mas sua Anima[3] está oprimida. Sua depressão é tão grande que mais de uma vez ele pensa em suicídio. Ele compreende que duas almas se enfrentam dentro de seu peito, uma que anseia por criar uma música capaz de derreter as estrelas, e a outra ligada à mediocridade cotidiana. Nesse ponto de suprema tensão, no qual o homem moderno sofreria um colapso nervoso, Fausto se associa a Mefistófeles.
Este último não é maligno, na versão de Goethe, embora encarne a sombra [conceito de Jung que se refere a tudo que é reprimido em nosso processo de "educação" social] de Fausto. "Sou parte da parte que já foi tudo, parte das trevas que geraram a luz". Mefistófeles descreve a sombra como a parte do todo, negligenciada e reprimida, porém necessária à dialética que, por fim, será necessária para promover a integração.
(...) Como sabemos, o que é tornado inconsciente ou é sofrido interiormente ou é projetado exteriormente [nos outros]. Inicialmente, num estado de depressão suicida, o encontro de Fausto com o sombrio Mefistófeles é uma oportunidade de renovação. Mas ele precisa, primeiro, entrar dentro de si e vivenciar tudo o que foi reprimido na primeira fase de sua idade adulta.
(...) Não há motivo para acreditar que cada parte de uma pessoa amadureça na mesma velocidade das outras. A sociedade ocidental deu um salto à frente em sua capacidade de destruição e de prolongamento da vida, mas nosso amadurecimento ético ficou para trás. Do mesmo modo, Fausto desenvolve seu papel no mundo exterior com extraordinário êxito, mas sua vida interior é
negligenciada. Sua anima é inconsciente e primitiva em comparação com seu intelecto, por isso se manifesta como simples jovem camponesa.
O anseio de renovação, que inicialmente assume forma quase religiosa, é na verdade a necessidade de trazer à consciência o negligenciado aspecto feminino. Como é difícil para qualquer um de nós reconhecer que o exigido é a cura interior. É tão mais fácil procurar o consolo ou satisfação no mundo exterior.
(...) Se não fizermos esforços dolorosos em direção à consciência, permaneceremos identificados com a ferida.
(...) Com a consciência mais ampla, surge maior oportunidade para perdoarmos os outros e a nós mesmos e, com o perdão, chegar à libertação do passado. Precisamos nos voltar mais conscientemente para a elaboração de nossos mitos, caso contrário jamais seremos mais do que a mera somatória do que nos aconteceu".

(Resumo do Cap. IV de A Passagem do Meio – da miséria ao significado da meia-idade, de James Hollis, editora Paulus).
[1] Projeção, no sentido psicológico, é a atribuição a outra pessoa de algo que está em nós mesmos.
[2] Esse mesmo ideal Iluminista influenciou a Maçonaria, que nos propõe o domínio das 7 ciências.
[3] Segundo Jung o lado "feminino" (afeto, intuição, criatividade) do homem.

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