A Montanha Russa da Mudança
Quando passamos por períodos de mudanças, seja no plano pessoal, seja no familiar ou no profissional, nosso movimento aparente é que nos movemos em linha reta, em pesados dias sucessivos onde as coisas acontecem um pouco de cada vez, sempre em direção a algum ponto no futuro.
Essa impressão se dá porque olhamos para fora de nós mesmos, com aquela ilusão tão humana de que o que nos acomete vem de fora. Na verdade, o turbilhão – visto com um olhar sistêmico – não está nem fora nem dentro de nós, mas num conjunto de relações no qual estamos inseridos, relações que incluem nossos sentimentos.
Mas como é que nos sentimos nesses períodos de mudança mais acelerada? Nossos pensamentos, sentimentos e experiências flutuam entre altos e baixo, como se estivéssemos numa montanha-russa. É como estar viajando numa pista bem pavimentada e, de repente, entrar em alta velocidade num trecho totalmente esburacado. Ficamos perdidos e o controle teima em escapar de nossas mãos.
Na verdade, a mudança constante é natural em todos os sistemas. Tudo está constantemente mudando, recebendo insumos, transformando-os em energia e devolvendo produtos ao sistema maior. É a isso que chamamos evolução. Acontece que nossa percepção desse movimento está condicionada à relação entre os ciclos de nossa vida pessoal e os ciclos do sistema maior ao qual pertencemos. Podemos pensar aqui em dois exemplos: um, o movimento de engrenagens de tamanhos diferentes. Embora interdependentes,
movem-se em velocidades diferentes devido às diferenças de tamanho. Outro exemplo, quando dois veículos correm paralelamente à mesma velocidade: a sensação para quem se encontra neles é que estão parados.
Quando o movimento do rio da vida em que navegamos estabelece uma relação estrutural monótona (de mesmo tom) com a estrutura de nosso sistema pessoal, a sensação é de um fluir tranqüilo. Quando o rio vai aumentando velocidade de sua correnteza e se agita devido às pedras no caminho, as nossas estruturas se atritam e nossos instrumentos de controle interno oscilam loucamente.
Essa é a descrição do o que. Mas, por que temos essa oscilação de sentimentos se definimos a mudança como constante e natural? Por que o nosso sistema pessoal simplesmente não se acelera para acompanhar o ritmo do sistema inclusivo?
Porque todos os sistemas tendem ao equilíbrio. Equilíbrio sistêmico não é estático, mas dinâmico. Quando falamos em equilíbrio, do ponto de vista sistêmico, nos referimos a um movimento constante que o sistema definiu – em função de sua história – como padrão. Não é a isso que o homem do interior rural se refere quando fala a seu companheiro urbano: "não sei como você agüenta essa vida"? Nossos instrumentos de controle interno nos sinalizam que está tudo correndo bem e "normalmente" quando aferem nosso ritmo padrão.
Quando a relação entre os ritmos interno e externo se altera, e o movimento começa a promover mudanças numa velocidade maior do que aquela à qual estávamos habituados (de hábito), perdemos o controle.
Eis aí exatamente o sentimento que temos quando vivemos situações de mudança acelerada: o sentimento de perda. Ao perder o controle do ritmo, sentimos uma profunda sensação de perda, que pode se manifestar de várias maneiras (dependendo das circunstâncias): perda de controle, perda de influência, perda de dinheiro, perda de prestígio, perda de autonomia, perda de identidade, perda de função, perda de afeto, perda de significado, perda de prazer, perda de segurança.
choque inicial
reconstrução = reequilíbrio
aceitação e esperança
raiva e depressão
ponto de imobilização
A perda cria um sentimento de depressão (estar afundado, no buraco) para a maioria das pessoas. Perdemos todas as rotinas que nos eram familiares e nos pareciam naturais. É uma experiência realmente muito dolorosa, especialmente se o que passou (outra ilusão que vivemos, pois na totalidade sistêmica "nada se ganha e na da se perde"), na mudança, era muito importante para nós. Por ser dolorosa, as perdas devem ser lamentadas. Temos que entrar em contato com esse sentimento de dor, aceitá-lo como nosso, deixá-lo existir e vivê-lo ... para que se integre.
Nesses momentos, reais e difíceis, há uma certeza, que nos foi tão belamente descrita pelo nosso Ir.'. Heroníades, falando da mú-sica: a cada oitava a escala se eleva e as notas, as mesmas notas, passam a soar um nível acima.
Mas a desarmonia da mudança também obedece a um ciclo, onde inclusive a depressão é apenas uma fase. Podemos representar esse ciclo da seguinte maneira:
Isso não acontece independentemente da ação de nossa vontade. Podemos permanecer mais ou menos tempo em cada uma dessas fases, dependendo de nossa capacidade de reação (e de outros fatores, é claro, como a atenção das pessoas que nos envolvem). Mas se olharmos para trás, principalmente quando navegamos em rio tranqüilo (por isso o conselho do Mestre: "Lembra-te, nos dias de tua juventude..."), veremos que a vida nos trouxe uma sucessão de crises, muitas delas absolutamente previsíveis e naturais, como as que ocorrem a cada ciclo de 7 anos em todo e qualquer fluxo (de vida pessoal, familiar, empresarial).
Por isso, os sábios chineses nos ensinaram que crise é oportunidade, oportunidade – como aprendemos – de elevarmos em uma oitava nossa escala de evolução.
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