Giap, o Napoleão Vermelho
Na última sexta-feira (04.10.2013) morreu, aos 102 anos, o
lendário General Vo Nguyên Giap, o grande estrategista militar responsável pela
expulsão dos invasores franceses de seu país.
General Vo Nguyên Giap
Apelidado de Napoleão Vermelho,
Giap é considerado um herói nacional cujo legado encontra-se abaixo somente
daquele de seu mentor, o ex-presidente Ho Chi Minh, que conduziu o Vietnã à
independência. Estrategista militar autodidata, Giap ficou famoso pela vitória
sobre os franceses em Dien Bien Phu, que não levou apenas à independência do
Vietnã, mas também ao colapso do colonialismo na Indochina e outras partes do
sudeste asiático. (...)
Giap nasceu em 25 de agosto de 1911, na província
central de Quang Binh. Ele entrou na vida política nos anos 1920 e trabalhava
como jornalista antes de se filiar ao Partido Comunista Indochinês. Nos anos 1930,
ele se formou em Direito pela Universidade de Hanói e foi preso por liderar
protestos contra a colonização francesa.
Giap conheceu Ho Chi Minh nos anos 1940, durante o
exílio no sudeste da China. Os dois, então, foram para a zona rural do norte do
Vietnã, onde recrutavam guerrilheiros para a insurgência vietcongue. Uma de
suas estratégias mais conhecidas foi a criação da trilha de Ho Chi Minh, que
atravessava clandestinamente as selvas de Laos e Camboja para municiar os
rebeldes no sul do Vietnã.
Durante os anos de guerra, Giap serviu como Ministro da
Defesa, comandante das Forças Armadas e membro da diretoria do Partido
Comunista do Vietnã. Seu poder foi lentamente decaindo com a morte de Ho Chi
Minh, em 1969. Seu último cargo foi de Vice-primeiro-ministro em 1991.
Mesmo aposentado, Giap continuava a ser uma figura
popular na sociedade vietnamita. Com o uniforme militar e estrelas dourados
cravadas nos ombros, ele participava de eventos nacionais e dava conselhos
políticos.
As
Guerras da Indochina
Luiz
Alberto Moniz Bandeira faz as seguintes considerações sobre a guerra da
Indochina no seu livro “A Formação do Império Americano – da Guerra contra a
Espanha à Guerra no Iraque”:
Ho Chi Minh, (...), um homem com todas as qualidades
necessárias a um líder: perseverança, determinação férrea e completamente
devotado à causa da revolução, como o definira Hoang Van Chi, autor de “From
the colonialism to communism”, que escapara do Vietnã do Norte em 1955.
(...) A França, no entanto, insistia em manter a liderança na campanha da
Indochina e preservar seu império colonial que incluía a Argélia.
Só por temer a intervenção da China, continuou
aspirando que os Estados Unidos participassem abertamente do conflito, embora
evitasse qualquer declaração de que daria completa independência aos Estados
Associados. Allen Dulles, diretor da CIA, escreveu a Eisenhower um memorando,
advertindo-o no sentido de que “we could not afford thus to engage the
prestige of the United States and suffer a defeat which would bane world-wide
repercussions”. Pouco tempo depois, em 16 de abril de 1954, Richard Nixon,
o vice de Eisenhower, pronunciou um discurso na “America Society of
Newspapers Editor”, no qual sugeriu a possibilidade de que os Estados
Unidos um dia viessem a enviar tropas para o Vietnã, com o objetivo de conter o
comunismo. Com razão, o Ministro dos Assuntos Estrangeiros da República
Democrática do Vietnã, Pisam Van Dong, denunciou, em discurso durante a
conferência de Genebra (1955), que os Estados Unidos, de um lado, haviam
transformado a França em instrumento de sua política e, do outro, preparavam-se
para expulsá-la da Indochina, enfraquecê-la, com a guerra que eles encorajavam,
e subjugá-la em alto grau na Europa. A política dos Estados Unidos apresentava realmente
duas faces. E a vacilação de Eisenhower vis–à vis (frente a frente,
face a face) do envio de tropas terrestres para o Vietnã refletiu a sua
ambivalência, entre a política de forçar a abertura das portas, ou seja, acabar
o regime colonial estabelecido pela França, abrindo os mercados fechados, e a
necessidade de impedir a queda de um dominó, para conter o avanço comunismo.
Efeito dominó:
efeito em cadeia que sugere a ideia de gerar uma série de acontecimentos
semelhantes de média, longa ou infinita duração. (Hiram Reis)
Mesmo
assim, os Estados Unidos gastaram ainda, inutilmente, mais US$ 2,5 bilhões com
a política de apoio à França, iniciada no final do governo de Truman, quando já
estavam aplicando US$ 200 milhões (soma equivalente a US$ 1 bilhão em 1993),
arcando com cerca de um terço à metade dos gastos da Guerra na Indochina.
Entretanto, apesar de sustentada pelos armamentos e recursos financeiros dos
Estados Unidos, a França não conseguiu vencer as forças da República
Democrática do Vietnã, assim reconhecida, em 1950, pela República Popular da
China e demais países comunistas. O exército do Viet Minh, sob o comando do
General Vo Nguyên Giap, considerado por William Colby, ex–diretor da
CIA, um “gênio militar”, atacou o Corps Expéditionnaire (CE) francês
(16.000 soldados), no seu último baluarte, considerado inexpugnável, em Diên
Bién Phu, uma planície de 18 km de extensão, cercada de montanhas, no Noroeste
do Vietnã, perto da fronteira com o Laos.
Viet
Minh: Partido dos Trabalhadores do
Vietnã, nome adotado pelo Partido Comunista da Indochina (PCI), em 1951. Viet
Minh, abreviatura de “Viet Nam Doe Lap Dong Minh Hoi”, significa “Liga
pela Independência do Vietnã”, que lutou contra as forças de ocupação do
Japão e depois contra a tentativa da França de restaurar seu domínio, após a II
GM. O Viet Minh, formado na China, em 1941 por Ho Chi Minh e, embora fosse
dirigido preponderantemente pelos comunistas, funcionou como Frente
Nacionalista, aberta às variadas tendências. Em fins de 1943, as forças do Viet
Minh penetraram no Vietnã, sob o comando do General Vo Nguyên Giap, deflagraram
a guerra de guerrilhas e conquistaram várias áreas do Norte do Vietnã.
Após a expulsão dos japoneses, o Viet Minh capturou
Hanói e proclamou a República Democrática do Vietnã. A França havia
inicialmente prometido reconhecê-la, mas não o fez, e em 23 de novembro de 1946
a esquadra francesa atacou o porto de Haiphong. A Guerra na Indochina então
recomeçou e o Viet Minh, que contava com amplo apoio no campo, fundiu-se em uma
nova organização, denominada “Lien Viet” ou “Frente Nacional Popular
do Vietnã”. Forças do Viet Minh, posteriormente, juntaram-se aos Viet Congs
para lutar contra os Estados Unidos, na chamada a Segunda Guerra da Indochina.
William Colby: foi chefe da estação da CIA em Saigon, entre 1959 e
1962, quando passou a dirigir a Divisão do Extremo Oriente; de 1968 a 1971,
dirigiu no Vietnã do Sul o “Programa Phoenix”, que visava a matar os
militantes comunistas (Viet Congs). Calcula-se que cerca de 60 mil foram
assassinados, mas, em suas memórias, ele indicou o número de 20.587. O
Presidente Richard Nixon nomeou-o diretor da CIA, em 4 de setembro de 1973. Em
depoimento perante o Comitê de Inquérito do Senado, dirigido pelo Senador Frank
Church, em 1975, declarou que considerava “deplorable” e “wrong”
certas atividades da CIA e as pretendeu parar.
O combate (em Dien Biên Phu) durou cerca de 55 dias e
55 noites, de 17 de março a 7 de maio de 1954. Os aviões B–52 dos Estados
Unidos bombardearam incessantemente a área, lançando, inclusive, bombas de
napalm para queimar a vegetação. Mas não conseguiram salvar os franceses. As
forças do Viet Minh, demonstrando enorme espírito de sacrifício, determinação e
vontade de vencer, contaram com o maciço respaldo da população e, apesar de
imensas perdas, infligiram fulminante derrota aos batalhões e companhias do
Corps Expéditionnaire.
A derrota na batalha de Dien Biên Phu, em que morreram
3.000 soldados franceses, 6.000 foram feridos e 10.000, aprisionados, levou a
França à mesa das negociações, na conferência de Genebra (1954), onde teve de
entregar o baluarte de Hanói e o grande porto de Haiphong, bem como todo o Norte
do Vietnã, ao Viet Minh, dirigido por Ho Chi Minh, após uma campanha que lhe
custou aproximadamente 170.000 baixas (um terço de mortos e desaparecidos) e
cerca de US$ 5 bilhões.
Segundo o General Vo Nguyên Giap, em todas as frentes
de batalha, cerca de 120 mil soldados franceses foram postos fora de ação e 177
aviões abatidos.
Os
acordos lá celebrados, terminando a guerra, previam a realização de eleições em
1955 e a unificação da Indochina. Todas as potências ficaram satisfeitas com a
sua elaboração, “except for the United States”, que mesmo antes do
término da conferência já haviam enviado uma equipe de americanos, sob o
comando do Coronel Edward Lansdale, que trabalhava na CIA, com a missão de
promover operações secretas contra o Viet Minh.
“Memorandum”
de um “Special Committee on the Threat of Communism”, datado de 5 de
abril de 1954, assinalara que a derrota do Viet Minh era essencial para deter o
espraiamento da influência comunista no sudeste da Ásia, recomendando que a
política dos Estados Unidos nada aceitasse, exceto a vitória na Indochina. E,
em outro “memorandum” ao secretário de Defesa, Charles E. Wilson,
intitulado “Studies with respect to possible U.S. action regarding Indochina”
e datado de 26 de maio de 1954, o almirante Arthur W. Radford cogitara,
inclusive, do emprego de “atomic weapons, whenever advantageous, as well as
other weapons”, em uma ofensiva de operações aéreas, contra alvos militares
selecionados na Indochina, assim como na China, Hainan e outras ilhas no
litoral, usadas pelos comunistas em apoio às suas ações.
O governo de Eisenhower, segundo revelado por estudo do
Pentágono, considerou os acordos de Genebra um “disaster” e decidiu
aprovar ações para prevenir ulterior expansão do comunismo no Vietnã. Quis
postergar as eleições, pois sabia que Ho Chi Minh as venceria, tornando-se
Presidente do Vietnã unificado. E logo tratou de solapar os entendimentos
alcançados em Genebra, não se juntando à declaração final, assinada pela França
e o Viet Minh. O General Ngo Dinh Diem, em 8 de outubro, declarou que a
partição do Vietnã, sobre o paralelo 17°, provavelmente seria prolongada
indefinidamente, como na Coreia e na Alemanha. E, com o apoio dos Estados
Unidos, cancelou as eleições, dando um golpe de Estado e implantando uma ditadura.
Os assessores do U.S. Military Assistance Advisory Group (MAAG) chegaram a
Saigon em 1° de junho e, desde que quase todas as tropas da França partiram do
Vietnã, em fevereiro de 1955, passaram a formar e treinar o Exército da
República do Vietnã, o Vietnã do Sul. E o secretário de Estado, John Foster
Dulles, persuadiu a Grã-Bretanha, Austrália, Nova Zelândia, França, Tailândia,
Paquistão e Filipinas a celebrar o Tratado de Manila, e formar a “Southeast
Asian Treary Organization (SEATO)”, um pacto militar, para o qual atraíram
o Vietnã do Sul mediante outro protocolo, cujo objetivo expresso era
defendê-lo, bem como o Laos e o Camboja, contra os comunistas. O princípio da “doutrina
asiática”, conforme a denominou o Senador J. William Fulbright, era o mesmo
da Doutrina Monroe, ou seja, qualquer intrusão no sudeste da Ásia seria “dangerous
to our peace and security”. A administração de Eisenhower estava a criar
obrigações no sudeste da Ásia, orientando-se pela mesma concepção de Truman,
segundo a qual a queda da Indochina em poder dos comunistas ameaçaria a
segurança dos Estados Unidos. (...) Mas, em 1952, o Conselho de Segurança
Nacional considerou que o domínio comunista do sudeste da Ásia, quaisquer que
fossem os meios, ameaçaria seriamente, a curto prazo, e criticamente, a longo
prazo, os interesses de segurança dos Estados Unidos. A segurança dos Estados
Unidos abrangia, já então, todo o sistema capitalista. Ela significava
segurança de seus interesses e privilégios, fontes de abastecimento e mercados,
propriedades e capitais, que adquiriam empresas e concessões e/ou implantavam
fábricas, nos mais diversos países. Onde quer que houvesse uma plataforma da
Standard Oil, uma fábrica de Coca-Cola, uma fazenda da United Fruit, um
frigorífico da Wilson & Sons, uma loja da Sears Roebuck, ou seja, uma
instalação de qualquer corporação americana, no Oriente Médio ou na América
Latina, na Europa ou na Ásia, ali estavam as fronteiras nacionais dos Estados
Unidos. (BANDEIRA)
O último parágrafo do texto de
Luiz Alberto Moniz Bandeira, professor, cientista político e historiador e
especialista em relações internacionais, reporta-nos à indignação de nossa
presidenta quanto à espionagem americana. A história, porém, mostra que o cenário
e os personagens mudam mas, não necessariamente a política de um país que
continua fiel e determinado em cumprir sua destinação histórica de ingerência
nos assuntos internos de outras nações desde que isso sirva aos interesses de
seus concidadãos.
(Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 05 de outubro de
2013)

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