sábado, 5 de outubro de 2013

Nilson: Crônica Policial 07 - Linha da Loucura

A Tênue Linha da Loucura  

Bem a história que eu vou contar é hilária e pode parecer fantasiosa, porém, é a mais pura verdade e quem tiver dúvidas, podem perguntar ao Sargento Pedroso ou ao Cabo Monte, ambos do Corpo de Bombeiros de Mundo Novo.

Há cerca de seis anos, eu residia no Bairro Copagril e fazia caminhada pela Rua Curitiba, quando fui interpelado por um indivíduo, usando trajes menores, todo sujo e que morava naquela região. Quando me viu, ele levou às duas mãos à cabeça e exclamou: “ainda bem o senhor chegou seu policial. Pelo amor de Deus, me ajuda”.

Já acostumado a certas situações, perguntei para ele o que tinha acontecido. Desesperado, me relatou  que dois jovens tinham  roubado seu veículo movido à propulsão humana. Questionado sobre o tipo físico dos ladrões e cor ou modelo de suas vestes, bem como as características de sua bicicleta, ele me encarou e perguntou de qual bicicleta eu estava falando.

Respondi que da dele, que a dupla de meliantes tinha supostamente roubado. Dando muitas risadas, o cidadão me disse que nunca teve bicicleta e sequer sabia andar nesse troço, e que estava ficando louco.

Diante dessa situação, resolvi seguir rumo à minha casa, pois tinha alguns afazeres pendentes, mas, como diz o velho ditado militar de que “nada é tão ruim que não possa piorar”, ele me pediu para ajudá-lo na tarefa de esticar uma linha. Fazendo um gesto como se me entregasse à ponta de um fio, ele saiu assoviando com as mãos posicionadas como se realmente estivesse esticando algo.

Por frações de segundo, fiquei parado, como se realmente estivesse “segurando a linha”, mas percebi que já estava sendo contaminado pela “doideira” e fui atrás dele, que já estava cerca de dez metros à frente. Quando me aproximei, tomei uma bronca, pois em sua opinião eu era um “fdp”, e que se não tinha condições de ajudá-lo, que não me oferecesse e graças a mim, ele teria que refazer todo o serviço de “desenrolar a linha”. 

Já estava com remorso por ter “soltado a ponta da linha”, quando a esposa dele se aproximou. Comentei com ela que seu marido parecia não

estar bem. Ele disse que ele tomava remédios controlados e havia consumido bebida alcoólica, por isso tinha surtado.

Através de meu celular acionei o Corpo de Bombeiros, pois a mulher informou que ele deveria seguir até o hospital para receber algumas medicações injetáveis, conhecidas popularmente como “sossega leão” para ficar menos agitado. 

Preocupado com o caso, o hoje Sargento Pedroso, que à época era soldado, me perguntou se o cidadão não era violento. Eu disse que não, mas caso ele reagisse, nós o levaríamos amarrado à unidade de saúde com  a sua própria “linha”.

Foi trabalhoso convencê-lo a entrar na viatura do Bombeiro, que era conduzida pelo então soldado Monte. Ele só concordou em ir até o hospital, se sua esposa e a filha fossem em sua companhia, pois alguém poderia querer matá-lo para retirar seus órgãos.  

Ao Pedroso restou a “árdua” missão de segurar a linha, enquanto o louco a enrolava em um carretel, que só existia em sua mente doentia. Segundo o entendimento do cidadão, como eu sou policial e estava armado, deveria fazer a segurança de sua casa, pois os ladrões de sua bicicleta poderiam voltar e ele talvez até seja louco, mas com certeza não é burro. “Doideira” é algo altamente contagioso, ainda bem que burrice talvez não seja.

Nilson Silva 

 

 

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