sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Um Paraíso quase Perfeito - A/0175

Um Paraíso quase Perfeito
O Édem foi o jardim perfeito, ou quase. Ali estava Deus, rios, florestas, cristais preciosos. Animais até então domésticos, e todas as espécies de vegetais que produziam frutos para o alimento. Morar num lugar assim é próprio dos deuses, ou mais especificamente do Deus Elohim (criador).Entretanto, um estado de vontade de quem tem tudo, ou de busca pela felicidade infinda, leva Deus por força de sua própria vontade, a criar algo mais.Mesmo já tendo criado milhões de outras espécies, com comportamentos e aparências diversas, o Elohim se comporta como quem por força do seu desejo não se satisfaz em olhar para uma mesma coisa, do mesmo jeito, durante todo tempo.Num sentimento incômodo de quem já não suporta mais o contentamento monótono, e numa espécie de fuga dessa monotonia provocada pelo cosmos com seus movimentos repetitivos, o Deus criador usa as palavras "barah" e "Fiat" para criar e dar forma à espécie humana numa decisão ímpar. E, daí, aparecem as figuras humanas e argilosas, tiradas lá das margens do rio Nilo, as quais chamou-as de Adão e Eva.Como se não bastasse à existência de criaturas marinhas que se auto-fecundavam, outras que se aperfeiçoavam pelo processo de metamorfose, e ainda outras que se nutrem e nutrem seus filhotes com seu próprio sangue em época de crise; o Criador decide criar mais essa espécie.Primeiro faz o ser masculino, e depois tira células desse ser já criado e forma pela clonagem um outro ser, com poucas modificações anatômicas, a quem chama de mulher, na qual estava presente, "a carne da mesma carne e ossos dos mesmos ossos", como foi dito.Então, o Criador inquieto com a forma anterior de criar, decide por um novo modelo. Ao seu redor havia inúmeras criaturas esperando a ordem criativa; a magnífica: "Barah". Haja! Vivam! Venham à existência! Mas para surpresa dos demais seres criados, entre eles os anjos, Ele se inclina sobre a mesa laboratorial, e sopra de si, nas narinas humanas o fôlego de vida, a alma, a Zoê, a psiqué, enfim, como queiram chamar os gramáticos das línguas originais.A partir daí, os humanos deixam de ser meras criaturas e passam a ser "deuses em miniaturas", mas nem tão pequenos assim. Foi-lhes dado o domínio do céu, da terra, do mar e de tudo que neles há, numa condição de realização, que se pressupõe de felicidade plena.Foram ainda dotados de razão, livre arbítrio, instintos e natureza sensitiva por meio dos quais passaram a ser capazes de fazer, alterar e evoluir em seus feitos tal qual Deus; em proporções menores, é lógico.Está escrito acerca do homem: "Vós sois deuses". Em um dos salmos foi dito: "Pouco menor que os anjos o fizestes, e de glória e de honra o coroastes".Insatisfeito com o comportamento de sua mais nova criatura, Ele disse: "Arrependo-me de haver feito o homem". Essas declarações confirmam o sentimento divino em ralação a nós ao afirmar "façamos o homem a nossa imagem e semelhança”. E ainda: "Eis que o homem é como um de nós".Também vivemos em constante desprazer com uma infinidade de coisas que fazemos, ou que fazem conosco. Algumas nem tão ruins assim. Daí o nosso comportamento de inquietação e insatisfação, sempre querendo algo mais e curiosos pelo desconhecido.Foi isso que aconteceu no Édem. Eva já não agüentava mais a rotina do jardim. Comer, dormir, passear, fazer sexo e curtir o maridão já não lhe satisfazia os anseios. Isso é típico do ser humano, especialmente das mulheres quando de suas buscas constantes por satisfação. Ela queria algo mais, e foi à procura. Pena que nessa busca encontrou a figura errada pelo caminho.Também vivemos em constante desprazer com uma infinidade de coisas que fazemos, algumas nem tão ruins assim. Disseram-me que o céu é um lugar perfeito. Nem precisavam me dizer! Pois um Deus perfeito só poderia fazer coisas perfeitas. O jardim no Édem também era, e isso tem sido evidenciado pela perfeição existente na natureza ao nosso redor. Pena que se Deus continuar permitindo ao ser humano essa liberdade de escolha, talvez alguns não se satisfaçam completamente quando lá chegarem e, por algum motivo, queiram promover algumas mudanças. João Gomes da Silva é escritor, teólogo, conferencista e orador oficial da Academia Gurupiense de Letras. E-mail: revjoaogomes@gmail.com (João Gomes da Silva)

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