Pedagogia do Adestramento
Falecido muito recentemente, o professor Orlando Vitorino foi um filósofo à maneira antiga, merecedor de ser ouvido, mas que o processo de normalização em curso odiava em surdina e silenciava como podia, que silenciar é o grande método de preservação do sistema. Que me lembre, este incómodo personagem foi uma única e singela vez à televisão, a um daqueles programas de quase clandestinidade que o fora de horas implica; Travessa do Cotovelo, ou coisa assim. E foi precisamente ali, para escândalo dos bem comportados presentes, que ele lançou uma das suas habituais provocações, por sinal a que mais usava entre amigos e admiradores, naturalmente poucos: "para elevar o nível cultural dos portugueses é preciso fechar todas as escolas e todas as universidades". Não posso afiançar do ipsis verbis, dado que cito de memória, mas penso não trair o sentido, que fez abespinhar uma das participantes - professora, disse-se ela -, que desatou a defender a anomalia questionada, que, evidentemente, lhe era útil e lhe garantia o que de mais necessário se sabe: o pãozinho. Na sua veemência, mais parecia secretária de ministro da malfeitoria dita educativa do que alguém predisposto a ajudar curiosidades juvenis.Não se trata apenas de provocação, estou mesmo com o falecido professor que nunca quis ser comissário educativo de qualquer governo ou de qualquer governação. E vou mais longe: há que constituir arguidos - quem disse que a culpa não deve morrer solteira? - os que se reivindicam da habilidade e das habilitações para ensinar (?), que é coisa fraudulenta, evidentemente. Em toda a História da Humanidade nunca se registou um só caso que fosse de alguém dotado de capacidade para ensinar outro. Qualquer um de nós, estando para aí virado, pode aprender - até os bichos aprendem! - ensinar é que não, trata-se duma impossibilidade em tudo semelhante à da quadratura do círculo.Daqueles que os ministérios normalizadores do pensamento amortalhado trazem por conta, eu preservaria os mestres - se ainda os houver -, mas não me escandalizaria se visse espernear na cadeira eléctrica a casta dos que se dizem pedagogos, porque pedagogo, na Grécia antiga, era o escravo que, para andar bem luzidio e anafado, não deixava em paz e sossego os meninos que os seus donos mandavam domesticar. Mestre é outra coisa, não ensina - sabe que é impossível -, apenas estimula por amor e vocação.O resultado de haver escolas como as querem os do poder político, erguidas sobre a apatia geral e o acriticismo popular, está bem à vista. Se as víssemos pelo critério dos economistas, seriam fábricas completamente inúteis e falidas, vivendo do subsídio e persistindo nos seus produtos impróprios para consumo. Consequentemente, veja-se como um estudo internacional recente, publicado no New York Times, revela que só 13% dos portugueses atinge o nível de leitura de um livro por ano! Estonteante, não é? Ou seja, 87% dos nossos indígenas, apesar (ou por isso mesmo) de terem passado, na quase totalidade, pelas mãos dos tais pedagogos assalariados, que ainda se encontram em liberdade, por falta de lei que os condene, estão a marimbar-se para essa coisa que os repugna chamada livro.Será que os ilustríssimos pedagogos, que só são inocentes por falta de trânsito em julgado, nunca ouviram os seus queridos adestrados com nove e mais anos de escolaridade imposta lerem em voz alta? Já? E o que é que pensam? Acham que esses moços e moças são gagos? E o que é que pensam de eles não entenderem o que lêem? Que são burrinhos? Não são!Do meu ponto de vista, os resultados acabados de divulgar, absolutamente calamitosos, dos exames nacionais não classificam os alunos, classificam os professores, as orientações pedagógicas de que são cúmplices e as políticas que vêm sendo seguidas impunemente sem um não, sem um arrepio.Esta calamidade insere-se coerentemente no nosso descontentamento geral, nesta apatia que apenas nos permite um gregarismo onde a cidadania nem como figura de retórica tem cabimento. Dos incêndios florestais, que servem a lágrima fácil e animam a exploração obscena da tragédia por parte dos media, passando pelo suicídio colectivo dos aceleras das nossas estradas, tudo é vendido por políticos, repórteres e outros comissários afins como uma maldição dos céus, como uma culpa de culpados maléficos, mas incorpóreos, de fantasmas, de sustos. Que importa, por exemplo, saber-se que com o valor dos dois submarinos absolutamente inúteis comprados pelo Dr. Portas se equipava completa e adequadamente o combate aos incêndios?A ignorância patenteada pelos alunos não resulta de eles serem estúpidos, porque não são. Tampouco são eles que estão errados, nem se pode trazer ao banco dos réus o frango de aviário e os hambúrgueres. Essa ignorância é um reflexo das ignorâncias maiores e encartadas que condicionam o nosso destino colectivo. O poder político - veja-se - nem sequer se decidiu clara inequivocamente quanto à nomenclatura e objectivos concretos dessa coisa que podemos nós chamar de normalização e castração mental das crianças e jovens; ainda balança em dúvidas, ainda se compraz em demagogias e no politicamente correcto. Experimenta, experimenta, experimenta mas não nos diz se se trata de instrução, de ensino ou de educação. Alunos-cobaia, escolas-piloto!?...Adiantemos que se o objectivo é formar produtores dóceis e capatazes que eficientemente os enquadrem, então as empresas que formem uns e outros, porque não tem de ser o povinho a pagar o que para o povinho não aquenta nem arrefenta; o Belmiro de Azevedo, como utilizador beneficiário, que crie uma Sonae-adestramento. Ou será que não se aplica aqui aquela estafada treta do utilizador pagador, esse slogan tonto com que os repenicadores de serviço nos entontecem? (Abdul Cadre, de Vendas Novas, Portugal)
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