sexta-feira, 13 de março de 2009

Juros, Mentiras e Ministérios - A/0274

Juros, mentiras e ministérios
A redução da Selic em um 1,5 ponto percentual, anunciada em 11 de março pelo Copom, é bem-vinda, mas insuficiente, pois a taxa básica de juros ainda está muito distante do patamar ideal (oito por cento ao ano) para o enfrentamento da crise e reaquecimento de uma economia que, conforme revelou o IBGE, recuou 3,6% no último trimestre de 2008. Ademais, a pequena boa notícia vem na esteira de algumas questões desalentadoras para a economia, como o recente anúncio relativo à criação de novos ministérios, feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Isto significará aumento dos gastos públicos num momento no qual todo empenho deve ser feito, inclusive pelo governo, no sentido de economizar e concentrar o foco dos recursos em investimentos produtivos e geradores de emprego e renda.
Como se não bastasse, o País acaba de assistir, estupefato, a cenas absurdas de desmandos fiscais-tributários, como o castelo de 20 milhões de dólares do deputado e a mansão de cinco milhões do funcionário graduado da Câmara Federal. E ambos, como costuma ocorrer em numerosos casos semelhantes, sequer coraram ao negar os valores e afirmar que não sabiam ou que as propriedades não estavam em seus nomes. É a consagração da cultura da inverdade como atenuante desse tipo de afronta à sociedade. Também foi constrangedor o comício, pago com dinheiro público, da pré-candidata do PT à Presidência da República, ministra Dilma Rousseff, para milhares de prefeitos. No carnaval, sofremos com a extrema violência praticada em invasões de propriedades rurais. Tudo impune, dos menos aos mais graves problemas.
Enquanto isso, numerosos setores de atividades ficam à espera de uma atitude mais eficaz e firme do governo no sentido de estabelecer melhores condições para que possam enfrentar a crise mundial e/ou solucionar desequilíbrios anteriores a ela e que se tornam mais agudos nesta conjuntura adversa. É o caso da indústria de transformação de plásticos, que teve, em 2008, déficit recorde em sua balança comercial. É um desequilíbrio que poderia ser muito atenuado com a adoção de medidas como a isonomia do IPI e aumento do prazo de recolhimento dos impostos, acesso mais amplo a financiamento e com o mesmo nível dos juros internacionais, de modo a suscitar a igualdade de preços com os praticados no Exterior.
Para o setor, assim como tantos outros, o simples recuo de 1,5 ponto percentual na Selic pouco significa. Até por que os spreads bancários continuam muito elevados e os juros reais do País seguem entre os mais altos do mundo. É necessário, em momentos como o atual, que o governo interceda de modo mais firme no mercado, contribuindo para a redução do custo efetivo do dinheiro, ampliando seus investimentos produtivos e reduzindo as despesas de custeio. Ao promover comícios e anunciar ministérios, o Executivo Federal passa uma impressão negativa à sociedade, uma imagem de falta de foco na crise, uma conotação de ausência de senso de prioridade. Somam-se a isso as mentiras dos castelos, das mansões e dos interesses escondidos sob a violência de certos movimentos, dentre outros casos, configurando-se um banho de água gelada na autoestima dos brasileiros.
O governo vem adotando algumas medidas corretas, mas todas parciais, como se ele próprio acreditasse nos argumentos que alardeia de que o Brasil não está sendo atingido de modo grave pela crise. A redução dos juros é insuficiente, o diferimento tributário é muito restrito, o dinheiro dos compulsórios liberado pelo Banco Central teima em não chegar de modo pleno ao chão de fábrica e se fecha o olho para uma série de desmandos, ao mesmo tempo em que se mantém aberta a torneira dos gastos públicos. É como se a crise mundial ainda não tivesse sido diagnosticada em sua verdadeira dimensão por Brasília.
Quando vemos nações sob risco de inflação muito maior do que o nosso mantendo juros básicos (e reais!) próximos de zero, cortando gastos supérfluos e investindo com firmeza em criação de empregos, infra-estrutura, saúde e educação, é inevitável questionar a reação tênue do governo brasileiro. O momento é grave. Precisamos ir muito além do que já foi feito e, sobretudo, é urgente um choque de gestão, um gesto que transmita mais confiança à sociedade e aos agentes da economia.
(Merheg Cachum é presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast)

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