A Evolução do Cristianismo
No decorrer de sua história, a Igreja Católica, definida como o conjunto do povo de Deus ou, nas palavras do apóstolo Pedro, "corpo místico de Cristo", gerou uma estrutura interna que encarna sua dupla especificidade espiritual e temporal. Eixo fundamental dessa estrutura é o papado, instituição que constitui um dos pontos cruciais de discrepância entre as distintas igrejas cristãs. Seu estabelecimento data do final do século IV, quando o bispo de Roma, na qualidade de sucessor de Pedro, assumiu para si a primazia sobre as instituições eclesiásticas. Ao contrário dos protestantes, que negam sua autoridade, e das igrejas ortodoxas, que o consideram apenas o primeiro entre patriarcas de igual dignidade, o catolicismo admite essa tradição e enfatiza a instituição do papado como cabeça e guia da Igreja. O papa é o herdeiro direto dos poderes conferidos por Cristo a Pedro, como os poderes dos bispos são os mesmos que foram concedidos aos demais apóstolos. Esse é o pensamento central que norteia a fé católica.Dois pontos de especial controvérsia são a infalibilidade do papa em matéria de fé e costumes, e a atribuição de uma dupla autoridade suprema ao papa e ao concílio ecumênico que, convocado e presidido pelo pontífice romano, reúne todos os bispos do mundo. De acordo com a teologia católica, porém, a aparente dualidade ou contradição que poderia derivar dessa questão não se concretiza, pois a autoridade e a infalibilidade recaem na verdade sobre o conjunto da Igreja e se manifestam em seus representantes máximos: o papa e o concílio, não havendo por isso possibilidade de oposição.Junto ao papa, os bispos e os sacerdotes ou presbíteros, que têm a incumbência de administrar os sacramentos, a Igreja Católica compreende diversas outras hierarquias administrativas que atuam unicamente por delegação de poderes, e limitam suas atribuições às faculdades concedidas. As ordens religiosas, que desempenharam papel histórico tão decisivo na difusão do cristianismo, e o conjunto dos laicos ou membros do povo de Deus, sem nenhuma função eclesiástica, compreendem os demais constituintes da unidade orgânica da Igreja. Em poucas palavras, tudo isso pode representar a Evolução do Cristianismo, que na pratica buscam na pessoa de Jesus Cristo a orientação divina. Com algumas divergências, como aliás ocorrem noutras grandes religiões do mundo, o cristianismo avança na senda do entendimento entre os seus muitos grupos.Entre as religiões monoteístas, o cristianismo é, sem dúvida, a que conta com maior número de fiéis e a que está mais difundida em todo o mundo. Nascida dos ensinamentos de Cristo como prolongamento e superação do judaísmo, no curso de sua evolução histórica viu dela se formarem três grandes ramos: a Igreja Católica, as igrejas protestantes e as igrejas ortodoxas. Embora divirjam em importantes aspectos doutrinários, essas três vertentes permanecem irmanadas por sua crença no caráter divino da revelação de Jesus, na existência de um Deus único em três pessoas, iguais em natureza e dignidade, que criou o mundo do nada, e nos princípios essenciais da cristandade: amor a Deus sobre todas as coisas, traduzido necessariamente no amor ao próximo, e a fé na chegada do Reino de Deus.Além disso, o cristianismo em seu conjunto se distingue das demais religiões monoteístas por ser a única que proclama a realidade de um homem-Deus, Jesus Cristo, Deus Ele mesmo, encarnado em forma humana para realizar a vinculação mística e real de toda a Humanidade com o Criador.Os três ramos do cristianismo têm também um mesmo livro sagrado, a Bíblia, e acrescentam ao Antigo Testamento judaico o Novo Testamento, que compreende os Evangelhos e outros livros posteriores ao nascimento de Jesus. Convém assinalar, não obstante, que a Igreja Católica reconhece um maior número de livros canônicos no Antigo Testamento em relação ao texto protestante, que coincide praticamente com o hebreu. Desde o princípio do século XX, porém, iniciou-se um vigoroso movimento ecumênico, destinado em princípio, a estreitar os laços entre as diversas igrejas protestantes, que não tardaria a despertar o interesse e o crescente apoio das igrejas ortodoxas e da Igreja Católica.O termo "igreja", de origem bíblica, tem um significado original de comunidade, mas alude de forma especial à realidade transcendente da união de todos os crentes num só corpo com o Cristo ressuscitado. Sua fundação, anunciada por Jesus em suas palavras a Simão Pedro "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha igreja" (Mateus 16:18), remonta tradicionalmente ao dia de Pentecostes. Quando, depois da ressurreição de Cristo, o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos, inspirou neles sua graça e lhes concedeu dons excepcionais, como o conhecimento de línguas estrangeiras, para que percorressem o mundo e pregassem a palavra divina do Evangelho.A pregação dos discípulos, segundo relato nos Atos dos Apóstolos e nas epístolas paulinas, estendeu-se paulatinamente pelo mundo hebreu, pelo leste do Mediterrâneo e, no final, a todo o Império Romano e à própria Roma, cuja primeira comunidade cristã foi presidida por Pedro. A figura de Paulo foi decisiva nesse período, pois a ele se deve a elaboração de uma filosofia cristã do mundo, a organização das primeiras igrejas e a insistência no ecumenismo ou universalidade da mensagem cristã, dirigida a todos os homens e não só ao povo hebreu.Apesar das condenações e perseguições levadas a cabo pelos governantes romanos, a mensagem de fraternidade do cristianismo, sua invocação a uma vida simples e moral, e sua promessa de imortalidade, favoreceram a rápida expansão da nova religião, julgada a princípio apenas como mais um dos credos salvacionistas orientais que se disseminavam pelo Império Romano. No final do século I, o Novo Testamento já estava escrito e os fundamentos básicos da Igreja Cristã, em particular a universalidade e a exigência de unidade doutrinária, orgânica e sacramental, se encontravam fixados.O crescimento do cristianismo nos séculos seguintes não foi, no entanto, isento de polêmicas. Surgiram diversas heresias, como o gnosticismo cristão e o arianismo, e houve uma intensa controvérsia entre aqueles que, inspirados no apóstolo Paulo, pretendiam recuperar os elementos do pensamento grego que tinham afinidade com o espírito cristão, de que são exemplos Orígenes e Clemente de Alexandria, e os que rejeitavam radicalmente a especulação filosófica por seu suposto caráter pagão, como Tertuliano.A promulgação do edito de Milão pelo imperador Constantino, no ano 313, legalizou o cristianismo, já então uma religião de enorme força social. Pouco depois, o Concílio de Nicéia formulou a primeira grande profissão de fé, na qual, diante das teses arianas, se declarava a natureza consubstancial de Pai e Filho. No final do século IV, o imperador Teodósio proclamou o cristianismo a religião oficial do estado.Nesse mesmo período ocorreram dois fatores determinantes: o começo do apogeu da vida monástica, que teria importância transcendental para a história futura do cristianismo, e os trabalhos dos padres da igreja grega e romana, por meio dos quais se deu a progressiva fixação do dogma. Destacam-se, nessa fase, as obras de santo Agostinho que, embora tenha recolhido elementos conceituais da filosofia neoplatônica, enfatizou a absoluta primazia da fé e da providência divina.Depois do desmembramento do Império Romano, ao mesmo tempo em que se acentuava o distanciamento da igreja oriental, submetida à férrea dominação do imperador bizantino, a Igreja se converteu na única instituição organizada do Ocidente e centrou seus esforços na evangelização dos povos bárbaros. Uma vez conseguida a conversão de praticamente todos os reinos europeus, o século XI marcou o início de um novo período na história da cristandade, que se caracterizou por dois fatos de grande significado. Primeiro, devido ao "cisma do Oriente", de 1054, a igreja oriental deixou de reconhecer a autoridade papal; segundo, os conflitos entre o papado e os imperadores do Sacro Império Romano-Germânico, conhecidos como questão das investiduras, motivados pela exigência dos soberanos de ter reconhecido seu direito de nomear autoridades eclesiásticas. A reafirmação da autoridade espiritual da igreja só se deu com a concordata de Worms de 1122.Nos séculos XII e XIII, a Igreja viveu o auge de seu poder e prestígio, rigidamente centralizada em Roma e nos Estados Pontifícios. Esse período foi de importância extraordinária para a criação das universidades, a afirmação das ordens religiosas e da filosofia escolástica, a construção das grandes catedrais góticas e o empreendimento das cruzadas, fruto da união entre o papado e os estados europeus.Nessa mesma fase, porém, movimentos considerados heréticos, que integravam conteúdos religiosos e sociais, começaram a solapar a ordem feudal e, na reivindicação da austeridade evangélica, denunciaram a conivência dos poderes espiritual e temporal, a decadência moral do clero e suas intervenções em assuntos políticos. A criação do tribunal da Inquisição, em 1231, com o objetivo de combater a heresia e a bruxaria, não foi capaz de conter a agitação popular. Além disso, entre 1378 e 1417 ocorreu e se aprofundou o "cisma do Ocidente", processo em cujo transcurso enfrentaram-se diversos papas e antipapas apoiados por facções opostas. Essa divisão deixou a Igreja num estado de grande debilidade, que favoreceu o surgimento e evolução de novas tendências chamadas “heréticas” pelo clero.Esse acúmulo de circunstâncias, agravado pela incapacidade das instituições eclesiásticas de combater a corrupção dos costumes, que grassava no clero e nas cortes, e de reorganizar-se internamente, favoreceu a eclosão, no começo do século XVI, da Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero, e cuja rápida expansão baseou-se num emaranhado de questões religiosas e políticas. Depois de um período de devastadores conflitos, o movimento reformista se impôs na maior parte do norte da Europa e deu origem a três grandes ramos: as igrejas luterana, calvinista e anglicana que, junto a diversas denominações protestantes menores, desconheceram a partir de então a autoridade do papa.Por meio do Concílio de Trento, convocado em 1545 e finalizado 18 anos mais tarde, a Igreja Católica empreendeu sua própria reforma, ou Contra-Reforma, que, além de confirmar as doutrinas próprias e consumar a condenação e o afastamento das igrejas divergentes, abordou a necessária reestruturação do ordenamento eclesiástico.Desse modo, a Igreja conseguiu consolidar sua autoridade no sul da Europa e iniciou um período de grande vitalidade, que teve na ampliação da atividade missionária na América e no Oriente sua expressão máxima. Persistiram, porém, as turbulências políticas e sociais, de que são exemplos as guerras de religião, a crescente intransigência da Inquisição e o apogeu dos processos por bruxaria, que ocorreram tanto nos países católicos como nos protestantes.De forma progressiva, porém, a pujança do absolutismo monárquico levou os soberanos a reduzirem os privilégios da Igreja. Mediante o princípio conhecido na França como galicanismo e na Espanha como regalismo, segundo o qual num estado determinado, o poder real, de origem divina, se encontraria acima do poder da Igreja, os monarcas se arrogaram privilégios eclesiásticos cada vez maiores.O aumento de poder dos reis absolutistas, que coincidiu com o apogeu das idéias racionalistas e iluministas, tirou da Igreja o papel de protagonista do cenário social durante o século XVIII. Essa tendência se manteve por algum tempo no século seguinte, mas a eclosão das revoluções populares induziu numerosos estados e grupos políticos a buscar o apoio da Igreja Católica. Sob a direção de Pio IX, a Igreja assumiu renovada centralização, estimulou o renascimento dos estudos teológicos e, embora tenha se oposto explicitamente às tendências modernizantes do mundo secular, buscou uma integração maior na vida social e proclamou, na Constituição Cristã dos Estados, de 1885, a legitimidade de toda forma de governo, baseada numa liberdade honesta.Diante dos trágicos acontecimentos do século XX, com a deflagração das duas guerras mundiais, tornou-se evidente para muitos católicos a necessidade de um processo renovador que garantisse uma presença maior da Igreja num mundo submetido a contínuas transformações sociais. Fruto disso foi a convocação do Concílio Vaticano II pelo papa João XXIII, cujas decisões finais incentivaram a descentralização eclesiástica, a aproximação com as outras igrejas cristãs e religiões do mundo e uma série de reformas pastorais que, embora sujeitas a controvérsias, determinaram uma nova orientação da atividade cristã.
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