quinta-feira, 9 de abril de 2009

O Homem Cordial e o Terceiro Mandato - A/0301

O Homem Cordial e o Terceiro Mandato
Dia desses, em conversa com amigos, fui provocado assim: “você, como sociólogo, o que acha do processo político brasileiro? Por que a maioria do eleitorado aceita o clientelismo e a compra de votos? Como explica a surpreendente popularidade de Lula?
Depois de refeito do susto, decidi escrever este artigo, no qual tento identificar as raízes desse nó.
Valho-me de um conceito formulado por um gigante. O seu grande sistematizador foi o patrono da Sociologia moderna brasileira: Sérgio Buarque de Hollanda. Qual é a ideia-força que domina a vida política brasileira?
Ensina o professor Burque que “Essa ideia-força é uma espécie muito peculiar de perceber a relação entre mercado, Estado e sociedade, onde o Estado é visto, a priori, como incompetente e inconfiável e o mercado como local da racionalidade e da virtude”.
Buarque toma de Gilberto Freyre a ideia de que o Brasil produziu uma "civilização singular" e "inverte" o diagnóstico positivo de Freyre, defendendo que essa "civilização", e seu "tipo humano", o "homem cordial", é, na realidade, o nosso maior problema social e político.
Afinal, o "homem cordial" é emotivo e particularista, e tende a dividir o mundo entre "amigos", que merecem todos os privilégios, e "inimigos", que merecem a letra dura da lei.
O Estado dominado pelo “homem cordial”, particularista, se tornou o conceito mais importante da vida intelectual e política brasileira até hoje: o "patrimonialismo" do Estado e da "elite", a qual governa como se os recursos públicos fossem seus bens particulares. É uma teoria tipo “jabuticaba”, só existe no Brasil.
As significativas modificações do capitalismo brasileiro nos últimos 30 anos, principalmente com a criação de um dinâmico agronegócio exportador, permitiram uma versão moderna, para além de sua matriz paulista original, abrangendo hoje todas as regiões brasileiras.
A força dessa ideologia é tão grande que, mesmo os grupos subalternos, sua maior vítima, reproduzem, a seu modo, essa mesma percepção do mundo. Ou, como diria Prestes, “é esse o povo que temos”.
É a ausência de articulação desse discurso que explica também a paradoxal posição de um líder carismático como Lula (cerca de 80 por cento de aprovação). Lula pratica um discurso para cada situação, e para cada platéia, e se “compromete” com qualquer um(a) que possua algum potencial a seu favor.
A impressão que eu tenho é que Lula é uma invenção dele próprio, é um personagem.
Pelo poder do seu discurso, com astúcia e o dom de seduzir, Lula atrai e mobiliza grupos e pessoas para o seu projeto político. Lula é uma espécie moderna de "profeta exemplar" (Max Weber), dado que sua identificação com as massas é "afetiva", por conta de seu passado exemplar, sem, no entanto, ser baseada em nenhum discurso unitário e coerente, ou em defesa de um projeto civilizatório para a nação brasileira (que seria atributo do “profeta ético”).
Todavia, o fundamento do poder do “profeta exemplar” reside em seu carisma, não em uma delegação de interesses dos grupos que ele representa (?). No fundo, o “profeta exemplar” representa apenas ele próprio.
O problema da sucessão de uma liderança carismática, carisma "pessoal e afetivo" por excelência, quando não se baseia num discurso articulado, reflete o drama atual de quem dispõe do poder político, mas não possui a hegemonia ideológica. Lula não está sozinho nessa.
Essa assertiva cabe igualmente ao governo e à oposição: PT e aliados, e PSDB e aliados.
Na mesma linha de raciocínio, esse contexto, delimitado pela ausência do discurso articulado, amesquinhou e emudeceu o sindicalismo e toda a "esquerda" brasileira, fenômeno que fragmentou as lutas políticas em inúmeras bandeiras sem articulação entre si, e cuja única nota comum é a ausência de ousadia.
Formula-se como prática política uma convivência “cordial” entre dominantes e subalternos, numa espécie de “embate capitalista de trabalhadores” e, as vezes, ainda mais limitada à “luta reinvindicatória de servidores públicos”.
Eleitoralmente, a tendência é a composição, via acordos particularistas e fisiológicos, de forças entre grupos que, historicamente, deveriam estar em lados opostos. Esses acordos, sem sintonia com as raízes da história de cada lugar, contêm alto risco de não dar certo.
Resumo da ópera: considerando tudo isso, e se o cenário de crise (a marolinha) persistir até 2010 – com queda da bolsa, da arrecadação, do FPM, do emprego e do consumo, em que pese seu apoio popular; Lula, provavelmente, não elegerá seu sucessor, não conseguirá transformar seu carisma em votos (para outrem). O pecado original é o “homem cordial”.
Não se deve contar com a transferência de votos, todavia, se for ele o candidato...
E se Lula tiver consciência disso, quem pergunta agora sou eu: teremos um terceiro mandato?
(Rinaldo Barros)

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