sexta-feira, 17 de abril de 2009

O Legado de João Paulo II - A/0309

O Legado de João Paulo II
e as Relações Jucaicas-Cristãs
No entendimento do historiador David Rosen “A revolução nas relações católicas-judaicas veio na esteira da Shoáh, embora creia que a sugestão de que o ensino de desdém histórico da Igreja referente aos judeus era diretamente responsável para que essa tragédia seja insustentável.” De fato, como escreve o grande intelectual judaico americano, Maurice Simon, já antes do começo da Segunda Guerra Mundial, a ideologia nazista era também em grande parte uma agressão contra a própria Cristandade. Todavia, pode haver pouca dúvida de que a Solução Final não teria tido sucesso à extensão que tinha, sem que o terreno tivesse sido tão fertilizado pelos séculos pelo encorajamento - ativo e passivo - da demonização e dehumanização do judeu.Precisamente por essa razão, quando a Shoáh estava devastadora além de todas as medidas para a Judiaria, ela tinha também implicações e ramificações profundas para a Cristandade.Como o autor e clérigo cristão, Rev. David L. Edwards expõe: “Gentílicos retos, incluindo alguns bispos, salvaram milhares de judeus; mas os seus esforços eram pequenos em comparação com o fato de seis milhões de assassínios, um crime colossal e de sangue frio, que teria sido impossível sem a indiferença geral a respeito do fado das vítimas. O holocausto chegou a ser a fonte mais terrível de culpa da Cristandade européia - naturalmente, não por causa de os assassinos serem piedosos ou porque os líderes da Igreja tivessem permanecido completamente calados sobre as leis e ações dos nazistas pelos anos, mas por causa do relato inegável de anti-semitismo no ensino das Igrejas pelos séculos. Não somente camponeses ignorantes ou monges, mas também teólogos eminentes e professores espirituais atacaram os judeus como os ‘matadores de Cristo’, como povo agora abandonado por Deus. Não somente os judeus de Roma foram forçados a viverem em gueto. Não só Lutero se permitira a lançar palavras inflamatórias a esse alvo fácil; mas quase em qualquer lugar na Europa os judeus tinham sido feitos parecerem estranhos, sinistros e repulsivos. Uma longa estrada de pregação vergonhosa era uma das sendas pelos séculos, as quais conduziram aos campos de morte nazistas, e no fim, não o Judaísmo, mas sim a Cristandade estava sendo desacreditada.”Mas como Edwards reconhece, havia, todavia, heróis cristãos que sobressaem como exceções neste mais horrível dos tempos. Um deles era o núncio, Embaixador Papal na Turquia durante o período da Shoáh, sendo uma das personalidades religiosas ocidentais primeiras a receber informação sobre a máquina nazista de assassínio. Esse homem, como se vê, era o arcebispo Ângelo Roncalli, que ajudou a salvar milhares de judeus das garras dos seus possíveis matadores, sendo profundamente comovido pela situação do povo judaico.Dentro de menos que uma década e com o falecimento do papa Pio XII, foi eleito como o novo pontífice, assumindo o nome de João XXIII. Como sabemos, ao contrário da percepção popular dele como algo dum homem simples, o Papa João provou ser não menos que um visionário para o seu tempo, convocando o Concílio Ecumênico Vaticano Segundo com as suas implicações de longo alcance para a Igreja Católica.O mais histórico dos seus documentos era aquele que tratava das relações com outras religiões, o qual conhecemos pelas suas duas palavras latinas iniciais, Nostra Aetate. Não pode haver dúvida de que esse documento, promulgado em 1965, depois da morte de João XXIII, era profundamente influenciado pelo impacto da Shoáh, transformando o ensino da Igreja Católica a respeito dos judeus e do Judaísmo.Advertiu contra a descrição dos judeus como coletivamente culpados pela morte de Jesus naquele tempo, sem falar em perpetuidade, em contradição direta com as palavras explícitas de autoridades como Orígenes e o papa Inocêncio III. Afirmou a aliança irrompida entre Deus e o Povo Judaico, citando a Carta de Paulo em Romanos 2,29 e, fazendo isso, Nostra Aetate eliminou em um só golpe, para assim dizer, quaisquer objeções teológicas ao retorno do povo judaico à sua pátria ancestral e à sua soberania. O documento, assim, refutou explicitamente qualquer sugestão de que os judeus estejam sendo rejeitados ou amaldiçoados por Deus, declarando o contrário ser o caso,e também condenou categoricamente o anti-semitismo.Karol Wojtyla, um PredestinadoComo sabemos, o bispo mais jovem presente naquele concílio histórico era Karol Wojtyla, que depois chegou a ser o papa João Paulo II. Esse tinha experiência formada na sua própria Weltanschauung, a visão do mundo, com o exemplo e liderança do papa João XXIII, dando impacto enorme em sua missão papal. Contudo, sabemos também que Wojtyla era completamente atípico entre os bispos aí unidos, precisamente em termos da sua própria experiência pessoal, tanto da Judiaria viva como da tragédia que sobreveio a esta.As experiências da sua infância e amizades com membros da comunidade judaica em Wadowice tiveram impacto na sua própria perspectiva religiosa, muito antes que contemplava mesmo entrar no sacerdócio. Numa entrevista que deu a Tad Sxulc, publicada no magazine Parade em 1994, João Paulo II se refere ao efeito nele como garoto, ouvindo o Salmo 147 sendo cantado durante a missa de noite:“Oh Jerusalém, glorifica o Senhor, louva teu Deus, oh Sião, pois Ele fez fortes as barras para tuas portas e abençoou as tuas crianças dentro de ti.”Concidência ou não, esse salmo faz parte integral das orações de manhã diárias judaicas.. João Paulo II, na sua entrevista com Szulc, deixou claro que completamente identificaria esses versos com as pessoas judaicas que conhecia. “Tenho ainda nos meus ouvidos essas palavras e essa melodia que tenho lembrado durante toda a minha vida”, declarou.Em outras palavras, já como criança, Karol Wojtyla percebera o povo judaico como abençoado por Deus, não como amaldiçoado e rejeitado. Contudo, no pequeno livro notável de Gianfranco Svidercoshi “Carta ao seu Amigo Judaico”, que remete às amizades judaicas de Wojtyla da sua juventude, descobrimos outra visão no seu entendimento formativo do relacionamento com o povo judaico emanando, de maneira interessante, da própria cultura polonesa. Essa lhe foi transmitida pelo seu respeitado professor Mr Gebhardt, o qual lhe inspirou apreciação da melhor herança intelectual da Polônia, incluindo os escritos de Adam Mickiewisz. No recente concerto papal para a reconciliação entre as Fés Abraâmicas, a maior peça de música era a Segunda Sinfonia de Mahler, conhecida como Sinfonia de Ressurreição. A inspiração de Mahler, ao escrever essa obra, era o tom dramático de Mickiewicz Dziadzy. Nas suas notas de regente no programa, Gilbert Levine observa que “Mickiewicz é para a história literária polonesa e para a nação polonesa, o que Shakespeare e Lord Byron são para os ingleses; Chateaubriand e Victor Hugo para os franceses; Dante e Ugo Foscolo para os italianos; ou Goethe e Friedrich Schiller para o mundo de fala alemã. Mickiewicz era a inspiração para muitos dos grandes movimentos na literatura polonesa e na construção nacional polonesa.” O livro de Svidercoshi narra como, no dia depois da amotinação anti-semítica em Wadowice, Gebhardt leu em voz alta as palavras de Mickiewicz escritos em 1848, as quais ele explicou sendo “preparadas como espécie de manifesto político, o qual pretendia inspirar a constituição do futuro Estado Eslavo”. Entre outras coisas, Mickiewicz escreveu: “Na nação cada um é cidadão. Todos os cidadãos são iguais perante a lei e perante a administração. Aos judeus, os nossos irmãos mais idosos, devemos mostrar estima e ajuda no caminho ao bem-estar eterno e, em todas as coisas, direitos iguais.”João Paulo II e os judeusNão é, certamente, coincidência que o papa João Paulo II fez precisamente esse termo de referência ao povo judaico: “irmão mais idoso” a sua própria moeda de frase, para refletir, não somente uma visão histórica do relacionamento, mas também uma teológica.Na introdução à versão inglesa do livro de Sviderocoshi, o falecido cardeal John O’Connor declarou a sua convicção de que o papa João Paulo II “está, inconsciente de si mesmo, formado por sua gratidão fundamental ao Judaísmo como a própria raiz do seu Catolicismo e, parece simplesmente assumir que o seu amor pelos judeus e pelo próprio Judaísmo é tão forte que as suas boas intenções devam ser reconhecidas…”Na entrevista mencionada acima que apareceu no Parade, João Paulo II continuou: “E então veio a experiência terrível da Segunda Guerra Mundial, a ocupação nazista e o holocausto, o qual era o extermínio dos judeus justamente pela razão porque eram judeus. Depois, sempre quando tive a oportunidade, falei sobre ele em qualquer lugar.”Assim podemos dizer que muito antes do seu pontificado, a aproximação de Wojtyla aos judeus e ao Judaísmo estava definida por uma atitude positiva tanto histórica como teológica a respeito daqueles, bem como o trauma da Shoáh e de suas implicações.Essas experiências eram claramente compreensíveis, levando o papa João Paulo II ao que o cardeal Edward Cassidy descreve como a sua “dedicação especial para a promoção das relações católicas-judaicas, as quais refletem hoje um espírito novo de entendimento e respeito mútuos, de boa vontade e reconciliação, de cooperação e metas comuns entre judeus e católicos. João Paulo II, um Mestre de Grandes GestosNo entanto, o que tipificava o pontificado de João Paulo II não eram somente grandes gestos e iniciativas, mas a comunicação desses em grande escala.É algo de paradoxo que foi um papa polonês emergindo duma comunidade comunista rígida que quase intuitivamente entendeu a linguagem advertidora da Madison Avenue, comunicando a grandes números pela midia moderna. Ao lado das suas visões teológicas profundas a respeito do relacionamento da Cristandade com o Judaísmo e formulações dessas, a sua condenação do mal do anti-semitismo e das suas expressões dum desejo profundo pela reconciliação cristã-judaica. Sobre tudo isso - dois eventos deram a essas mensagens uma força e poder sem paralelos: a sua visita à sinagoga de Roma em 1886 e a sua peregrinação à Terra Santa no ano de 2000.Sua alocução na sinagoga de Roma está entre os textos mais importantes nessa revolução nas relações católicas-judaicas, mas era, sobretudo, a imagem do papa abraçando rábi Toaff e mostrando amor fraternal evidentemente genuíno pela comunidade judaica que permaneceu na mente pública, alcançando milhões que não iriam e não podiam ser alcançados por suas palavras. De fato, assentando os eventos maiores de 1986, o papa destacou a sua visita à comunidade judaica na sinagoga de Roma como o mais significante, expressando a sua convicção de que ela seria relembrada “por séculos e milênios, e agradeço à Providência Divina que essa tarefa foi dada a mim” (National Catholic News Service, dezembro 31, 1986). De impacto não menor era a visita do papa a Israel, a qual tinha efeito enorme em judeus israelitas em particular.A visita papal a Israel abriu os seus olhos para uma realidade mudada. Não só que a Igreja não era mais a inimiga, a sua cabeça é até um amigo sincero. Ver o papa no Yad Vashem no Memorial do Holocausto, em solidariedade lagrimosa com o sofrimento judaico, aprender como ele mesmo ajudara a salvar judeus naquele tempo terrível, devolvendo, como padre, crianças judaicas dos seus lares cristãos adotivos de volta às suas famílias judaicas; ver o papa no Muro Ocidental em reverência respeitosa para a tradição judaica, colocando o texto da oração que compusera para a liturgia de arrependimento tida brevemente antes na São Pedro, pedindo perdão Divino pelos pecados que cristãos cometeram contra judeus pelas épocas; tudo isso tinha impacto profundo numa seção amplamente cruzada da sociedade israelita.Esses gestos e a sua mensagem visual tinham impactos tremendo sobre o modo em que judeus viram a Igreja, mas tinham não menos impactos, senão mais, sobre o modo em que católicos em particular e cristãos em geral viam os judeus, o Judaísmo e o Estado Judaico.Em ambos esses eventos históricos, como durante todo o seu pontificado, o papa João Paulo II articulou a evolução dos temas centrais do seu legado para as relações católicas-judaicas - temas que, como mencionamos, podem ser traçados para trás à sua juventude, referindo-se ambos ao passado trágico e às implicações deste, bem como à natureza e objetivo do relacionamento cristão-judaico.João Paulo II sobre Anti-semitismoJá na sua primeira audiência com representantes judaicos em março de 1979, o papa reafirmou o repúdio de anti-semitismo por Nostra Aetate, descrevendo atos de discriminação ou perseguição contra judeus como “pecaminosos” e, em agosto de 1991, descreveu o anti-semitismo em particular e o racismo em geral “um como pecado contra Deus e a humanidade”.Todavia, a liturgia de arrependimento de João Paulo II em 2000, vai remeter, sobretudo nesse respeito. Essas frases solicitando perdão divino para os pecados cometidos pelos cristãos contra os judeus pelas épocas estavam, como todos nos sabemos, escritas naquele papel que João Paulo II pôs nas fendas do Muro Ocidental na sua peregrinação a Jerusalém algumas semanas depois. O texto declarou:Deus dos nossos pais,escolheste Abraão e os descendentes destepara levar o Teu nome às nações:estamos profundamente tristespelo comportamento daquelesque no decurso da históriacausaram essas Tuas crianças sofrereme pedimos Teu perdão;queremo-nos cometerà fraternidade genuínacom o povo da Aliança João Paulo II veio também a apreciar os elementos religiosos e nacionais inextricáveis no Judaísmo que fazem o Estado de Israel tão importante para a Judiaria contemporânea.Em 1984, na sua Carta Apostólica Redemptionis Ano, declarou que “para o povo judaico que vive no Estado de Israel e que preserva neste país tais testemunhos preciosos da sua história e fé, devemos solicitar a segurança desejada e devida tranqüilidade, que é prerrogativa de cada nação do progresso para a sociedade.”Na entrevista de 1994 com Tad Szulc, a qual foi publicada no Parade depois do estabelecimento de tais relações, declarou: “É preciso entender que os judeus, que por dois mil anos estavam dispersos entre as nações do mundo, decidiram retornar à terra dos seus ancestrais. Isso é seu direito. O ato de restabelecer relações diplomáticas com Israel é simplesmente afirmação internacional desse relacionamento.”Em 1986, na Austrália, João Paulo II declarou a líderes da comunidade judaica, que “a fé católica se radica nas verdades eternas das Escrituras Hebraicas e na aliança irrevogável de Abraão. Nós também mantemos as mesmas verdades da nossa herança judaica, vendo-vos como os nossos irmãos e irmãs.

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