Saulo RamosEntão quando o céu de inverno
(inverno só na folhinha)
abriu os olhos vermelhos,
a buzina que dormira
o ano inteiro no embornal
acordou na luz novinha
sob um beijo do fiscal,
ao pé do sino pesado
que assustou a madrugada:
a vendedora de flores
que tinha um cesto encarnado
no céu cheinho de flores...
céu que era um pastor de luz
como todos os pastores,
que era uma enorme romã
suspensa no cafezal,
céu vermelho, inaugural,
céu bêbedo de manhã.
Era o dia da colheita:
peneiras, panos listados,
rastelos, sacos, jacás,
medidas, canas de milho,
as caboclas embrulhadas
nos panos e nos cambas
com o chapelão de palha
só com o roso de fora
e gotinhas de café
nos olhos da madrugada.
E os caboclos, reis descalços,
pisam a terra forrada
pelos panos estendidos
sobre o chão ensolarado,
a terra toda enfeitada
por tapetes sobre os quais
vão transpirar gotas de ouro
os braços dos cefezais.
Namoriscos pelo eito
escondidos do fiscal
carrancudo, que é um sujeito
que chega pé ante pé
por de trás do cafezal,
espiando o vão das folhas,
erguendo a barra das saias
das árvores de café.
O fino pó da peneira
que abana folhas e ciscos,
levanta-se para o céu
em grossos rolos de poeira
parecendo a chaminé
de uma fábrica de terra
fabricando sob o sol
milhões de grãos de café.
As caboclinhas de pano,
com o peso de São Paulo
sobre as costas inclinadas,
passam pelos carreadores
com jacás cheios de cores,
com olhos cheios de estradas!
E depois, pelos terreiros,
o café amontoado
tem ares de feiticeiros,
cabeças de pretos velhos,
“esquentando o frio”, todos
de cócoras sob o sol,
no terreirão enrugado
e penteado pelos rodos...
De repente, num estrondo,
a máquina da fazenda
acorda as trevas das tulhas.
Voam corujas, morcegos,
Quando as primeira fagulhas
do vapor pesado e triste
anunciam a debulha
na boca de inferno e fogo.
Hino de ferro da terra,
É uma festa de brinquedos
numa casa de bonecas!
Peneiras, bica-de-jogo,
Descascador e polia,
as correias das canecas,
tudo dando cambalhota,
a bica de palha grossa,
enorme canhão de pau
que sopra palha no rosto
da garotada da roça!
E quando acaba a colheita
voa tudo para o ar:
rastelos, panos listados
(bandeiras esfarrapadas),
o sino doido a tocar,
businas feitas de chifre
e sinfonias de lata
na festa da ingenuidade...
...E o sábado prometido,
roupa nova, o baile, a banda
com músicos da cidade,
a barraca, o chão batido,
o frango assado, o quentão,
a pinga, tudo de graça!
Festa de fim de colheita,
festa da simplicidade:
a festa da minha raça.
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